José Castello em O Globo

Trabalhando com as “Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke, em uma oficina literária, deparo com um trecho que me chama especial atenção. Um trecho que me ajuda e me ampara. Trata-se de uma crítica ao pensamento crítico que, segundo Rilke, deveria ser substituído pelos escritores pelo “amor”. Essas reflexões, quase sempre, provocam um susto nos alunos. Motivo pelo qual a elas retorno aqui.

Diz Rilke a seu jovem poeta, Franz Kappus, em palavras bastante duras: “Obras de arte são de uma solidão infinita, e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica”. A crítica (a teoria), de fato, pode _ pode _ se transfomar em inimiga de um
escritor. Pode paralisá-lo. Pode impedi-lo de pensar. Pode atacar sua espontaneidade e danificar seu caminho pessoal.

Prossegue Rilke: “Apenas o amor pode compreendê-las, conservá-las e ser justo em relação a elas”. A relação que um leitor tem com um livro, o poeta tem razão, passa por uma via afetiva. Ou o livro o “toca”, ou o repugna _ ou a ele se sente indiferente e o larga pelo meio. Pois bem: o autor é o primeiro leitor de si mesmo. Deve, portanto, emprestar atenção a esses fatores afetivos. Deve, sobretudo, valorizá-los. Obsevá-los e nunca deixá-los de lado como se fossem uma “bobagem sentimental”.

Com um juiz rigoroso dentro de si, um escritor pode não conseguir avançar. Ou, pior ainda, pode simplesmente destruir o que tem de bom e ficar assim paralisado. Tornar-se pedra. Pode destruir uma vocação. Por isso, sugere ainda Rilke: “Dê razão sempre a si mesmo e a seu sentimento, diante de qualquer discussão, debate e introdução; se o senhor estiver errado, o crescimento natural de sua vida íntima o levará lentamente, com o tempo, a outros conhecimentos”.

Significa, até onde eu posso entender: um escritor (um poeta) deve ter paciência consigo mesmo, inclusive com seus defeitos. Deve saber esperar a hora em que conseguirá distinguir, por si mesmo, seus acertos de seus erros. E mais: a hora em que conseguirá, enfim, preferir os erros! Deve ser, em resumo, o único juiz de si mesmo. “Algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro, e não pode ser forçado, nem apressado por nada”, Rilke insiste. “Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz”.

Em minhas oficinas literárias, vejo muitos alunos que lutam ferozmente para ser isso ou aquilo. Para espelhar-se, ou ao contrário evitar, este ou aquele caminho. São alunos impacientes, que encaram a escrita como um cãozinho amestrado que segue as ordens de seu dono. Esses pobres cãezinhos, muitas vezes, perdem toda a alegria. Lutam “para agradar” e não “para ser”, e por isso se parecem menos com animais e mais como
máquinas, ou fantoches.

Prossegue ainda Rilke: “Ser artista significa: não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante as tempestades de primavera, sem o temor de que o verão não possa vir depois”. Melhor a árvore _ que não se domestica e cresce e se amplia indiferente a essas exigências _ do que o cãozinho, que pode ser adestrar demais, até se humanizar demais, e fugir de si mesmo. Bela a imagem da árvore, que cresce paciente, lentamente, buscando apenas matar sua fome com o sol. Buscando a luz _ aquela que corresponde ao que ela necessita, e não ao que os outros necessitam.

Difícil explicar isso a muitos alunos. Difícil levá-los a entender que não adianta forçar as coisas e que mais importante do que acertar, ou “escrever bem”, é chegar a si. Cair em si. Por isso sempre funciona muito bem trabalhar as cartas de Rilke a Kappus nas oficinas literárias. Elas devolvem meus alunos a si mesmos. E eu, como “mestre”, o que faço então? Apenas facilito esse encontro, oferecendo-me como ponte, e mais
nada. O que é o máximo que posso fazer. E, quando chego a fazer, creio, já é muita coisa.

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