Documentos mostram o poeta menos reservado e carinhoso com a família. Material vai passar por tratamento de conservação.

Imagem: Educar para crescer

Imagem: Educar para crescer

Hellen Sacconi, no Jornal Hoje

O dia 31 de outubro é uma data para lembrar da poesia de Carlos Drummond de Andrade, que nasceu neste dia há 111 primaveras. Para comemorar, o Jornal Hoje mostra a redescoberta de uma coleção de cartas, cartões e fotografias do escritor.

Os documentos mostram um Drummond diferente, menos reservado e muito carinhoso com a família, especialmente com a mãe. “Vai dar-te uma notícia. Pretendo casar-me no dia 30 de maio próximo futuro, com a senhorita Dolores Moraes”. Foi assim que o poeta avisou a decisão ao irmão.

A carta, escrita em 1925, estava guardada pelo colecionador Eduardo Cicarelli, em Lavras, no sul de Minas Gerais. Ele conta que comprou os documentos em uma feira de selos, na década de 90 e só há pouco descobriu que guardava um tesouro. “Isso aqui é uma fonte de pesquisa para estudiosos da obra de Drummond. É um material riquíssimo, uma parte da história do Drummond que ninguém conhecia”, afirma.

Ao todo, são 212 documentos entre cartas, bilhetes, duplicatas, cartões e fotos. O mais antigo é um modelo de nota promissória de 1915. Drummond ainda era adolescente quando enviou à cunhada Ita um bilhete dizendo: 365 dias felizes. No final, assinou Carlito, como era chamado pela família. Por mais de 20 anos esse material ficou guardado em um envelope de papel, que acabou até descartado.

“Ele que é o poeta de sete faces. É uma face de Drummond desconhecida. Um Drummond que se reporta ao irmão, à mãe, à cunhada e discorrendo sobre fatos corriqueiros, fatos familiares, entremeados a fatos históricos brasileiros”, explica Marconi Drummond Lage, superintendente da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade.

A maioria das cartas é para mãe. Muitas escritas em papel oficial do Ministério da Educação, onde o poeta trabalhava. Drummond, que era reservado na vida pessoal, revela os laços familiares. “Minha querida mamãe, em nenhum dia a senhora deixa de ser lembrada com carinho”, escreveu em uma das cartas.
“Não é todo momento na história brasileira que esse baú é aberto e se revela a correspondência de um filho com a mãe de um dos maiores poetas da língua portuguesa. É possível localizar mais a relação dele com o pai. Com a mãe, isso está por estudar. É por isso que essas cartas são tão importantes”, comemora Marconi.

Em cartões de visita, o poeta risca o nome impresso e assina apenas Carlos. Entre as fotos, uma que pode ser a mais antiga: Carlos Drummond de Andrade aparece ainda bebê. Em outra, ele aparece na formatura de farmácia, profissão que jamais exerceu.
O guardião desse tesouro revela como evitava as traças. “Ficava dentro de um envelope grande. Depois, nós colocamos em uma caixa. Sempre colocando naftalina. Dá para perceber o cheiro da naftalina”, revela Eduardo.

O material vai passar por tratamento de conservação e por estudiosos da literatura brasileira.
Depois, ficará à disposição de todos os admiradores de Drummond. “De certa forma, isso é uma recuperação histórica para o município de Itabira, terra natal do poeta”, afirma Marconi.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments