O que a música de Bon Jovi me ensinou sobre literatura

Danilo Venticinque na revista Época

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É possível dividir todas as bandas de rock em apenas quatro categorias. Um amigo gastou um bom tempo para me convencer disso numa conversa há algumas semanas. Seu raciocínio faz algum sentido. Tento reproduzi-lo aqui.

No primeiro grupo estão as bandas que amamos e respeitamos: quando ouço um álbum do Black Sabbath, por exemplo, admiro sua música e sua história. O último grupo é o das bandas pelas quais não sentimos amor nem respeito, e não perderei a chance de citar negativamente o Coldplay numa coluna sobre literatura. Mas a verdadeira diversão está nas duas categorias intermediárias. Podemos respeitar uma banda e não amá-la: por mais que eu reconheça a importância histórica dos Sex Pistols, não tenho a menor vontade de ouvir as canções deles. E há bandas que amamos, mas somos incapazes de respeitar. Para mim, Bon Jovi sempre vence essa categoria. Levá-lo a sério como músico é tão difícil quanto não cantar seus refrões.

As mesmas divisões podem ser aplicadas à literatura. Guerra e paz é um livro que amo e respeito: um clássico universal e, também, uma leitura surpreendentemente agradável. Há livros que não amo, nem respeito. Não gastarei uma só linha com eles. Como na música, prefiro me concentrar no amor sem respeito e no respeito sem amor. A poesia concreta dos irmãos Campos, por exemplo, tem uma importância inegável na literatura brasileira, mas não consigo encontrar paciência para lê-la. Acho mais divertido me dedicar a autores que amo, mas não respeito. A lista é imensa. Vai do suspense de Stieg Larsson ao romance adolescente de John Green, passando pela autoajuda de Alain de Botton e pelo pior da ficção científica.

 

Na música como um todo, não só no rock, essa é uma questão bem resolvida. Ninguém condenaria um admirador de Beethoven por ouvir Katy Perry de vez em quando – ou mesmo por ouvir mais Katy Perry do que Beethoven. Gostar de uma canção popular não impede alguém de apreciar os clássicos. Sempre há espaço para o amor, com ou sem respeito.

Na literatura, porém, muitos resistem a entender a diferença entre respeito e amor. Você pode ter lido todo o cânone ocidental: basta dizer que gosta de Paulo Coelho e seu interlocutor o tratará com desdém ou reagirá como se tivesse ouvido uma piada. Bobagem. Piada é agir como se o gosto pelo popular e pelo erudito não pudessem conviver, e sem respeito não pudesse haver amor. Não me surpreende que tantas pessoas fujam da literatura ou evitem conversar sobre os livros que leem.

Há momentos em que só a baixa literatura pode nos salvar. Uma amiga minha versada em Freud e Lacan confessou que não aguentava esperar pelo novo livro da Bridget Jones para esquecer as confusões de sua mudança de apartamento. Qualidade literária à parte, é uma ótima escolha. Não conheço uma só pessoa que apanhe um livro do Thomas Pynchon para relaxar depois de um dia estressante no trabalho, ou que leve Ulysses para ler na praia. O amor sem respeito é ideal em situações como essa, por mais erudito que seja o leitor. Não me venha com Mahler se hoje é dia de Bon Jovi.

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