Média nacional é de quatro livros por ano

Publicado no R7

O detento Carlos Anderson Rodrigues de Aguiar, de 26 anos, está preso desde 2011 e lê pelo menos um livro por semana

Um levantamento feito pela pesquisadora da UnB (Universidade de Brasília), Maria Luzineide, com 200 internos do Sistema Penitenciário do Distrito Federal apontou uma predisposição dos presidiários à prática da leitura. A pesquisa mostrou que 70% dos sentenciados tornaram-se leitores assíduos com a leitura de quatro livros por mês, enquanto a média da população é de quatro livros por ano.

— Fizemos a pesquisa por dois anos e constatamos que houve mudanças no vocabulário e na forma que eles se enxergam como indivíduo.

Durante a pesquisa, ela aplicou questionários entre 200 internos da Penitenciária do Distrito Federal I e da Penitenciária Feminina do Distrito Federal.

Outra constatação foi que a leitura já era uma constante na vida das presidiárias. Diferente dos homens que adquiriram a prática da leitura somente após o cárcere.

Carlos Anderson, que cumprirá pena até 2015, conta que lê ao menos 50 páginas de livro diariamente.

— Aprendi a passar o tempo com a leitura. Ao invés de ver um filme, a gente lê um filme.

O vocabulário e a linha de raciocínio dos sentenciados que têm contato com a leitura é muito diferente do restante da massa carcerária. Carlos, que tem preferência por livros jurídicos, confirma o dado de que, para 50% dos sentenciados, a leitura é uma forma de adquirir conhecimento.

— Ler livros nos faz ler e falar melhor, além de deixar nosso cotidiano menos monótono.

A pesquisa ainda concluiu que para 24% dos homens a leitura representa prazer e para 10% refúgio. Já para as mulheres presas, o ato de ler é uma maneira de não sentir saudade da família e para 50% delas é para adquirir conhecimento.

Diminuição na pena

O Projeto de leitura e produção escrita Portas Abertas desenvolvido pela UnB com internos do Sistema Penitenciário do Distrito Federal teve início em março deste ano. O objetivo do projeto é qualificar o tempo na cela, de maneira sistemática, com a leitura de obras predeterminadas. Nesse projeto, o interno terá contato com obras consagradas da literatura brasileira.

O Portas Abertas segue a orientação da Portaria n° 276 do Depen (Departamento Penitenciário Nacional), aprovada em junho do ano passado. A Portaria determina que o preso pode diminuir até 48 dias de pena se ler um livro mensalmente e apresentar uma resenha sobre cada obra ao fim de cada mês. A cada livro lido, quatro dias da pena podem ser remidos.

Os 200 internos que fazem parte do projeto foram selecionados pelo grau de instrução. Para fazer parte, ele precisava estar cursando do 9º ano ao ensino médio. Além do incentivo à leitura, o Projeto propõe rodas de conversa sobre temáticas variadas. Esses encontros ocorrerão periodicamente para discussões a respeito da leitura realizada. Após ler o livro, o aluno produzirá um texto no formato de resenha. Nesse período, as atividades de leitura poderão contar como remissão, se for permitido pelo juiz da VEP (Vara de Execução Penal).

Na próxima semana, a UnB vai enviar para o juiz da VEP as primeiras avaliações feitas dos alunos para que ele faça a análise e homologue os dias remidos. Para Cláudio Moura Magalhães, subsecretário do Sistema Penitenciário, o projeto é muito especial.

— O interno tem mesmo que ter acesso à leitura e poder remir sua pena da mesma forma que já ocorre com o estudo e trabalho. É importante que o interno tenha esse contato com os livros para a ressocialização, ocupação do tempo e para que ele saia do sistema penitenciário mais instruído.

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