No mercado editorial americano, o ramo do “não autorizado” é próspero em best-sellers. Historicamente, a maior revolta contra uma obra foi de Frank Sinatra

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No mercado literário americano costuma-se dizer que quem quer ler a verdade a respeito de uma celebridade deve procurar pela biografia não autorizada escrita por algum jornalista de boa reputação. Nesse tipo de obra é possível ficar sabendo, por exemplo, que a apresentadora Oprah Winfrey teve romances secretos com mulheres, comercializou seu corpo na adolescência, e, por conta da falta de dinheiro para Barbies, brincava de casinha com duas baratinhas (aquelas mesmo de oito pernas e duas anteninhas – e bem vivas) que ela batizou de Melinda e Sandy. Tudo isso está no livro “Oprah”, escrito em 2010 por Kitty Kelley, renomada como uma das maiores especialistas no ramo do “não-autorizado” americano, mas provavelmente não estaria em uma biografia autorizada. Já quem procura por caminhos coloridos para idolatrar ainda mais seus herois, e só ouvir o lado A de suas histórias, deve buscar a biografia autorizada.

As biografias não autorizadas circulam livremente no mercado americano, mas, ainda assim, lançar uma biografia sem autorização prévia do biografado nos Estados Unidos pode dar muita dor de cabeça, e elas chegam na forma de ações judiciais movidas pelo “dono” da história.

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Capa do livro que Kitty Kelley levou três anos para escrever e que Sinatra não pôde impedir

Quando, em 1983, soube que sua biografia não autorizada, “His Way”, estava sendo escrita pela mesma Kelley, Frank Sinatra acionou seus advogados para tentar impedir: alegava invasão de privacidade.

Um ano depois, o próprio Sinatra retirou a ação, e teve que engolir as mais de um milhão de cópias que inundaram as livrarias. Foram 22 semanas na lista de “mais vendidos”.

Para escrever a obra, Kelley passou três anos revirando documentos oficiais do governo americano (material relacionado à máfia e gravações secretas) e entrevistando mais de 800 pessoas do convívio do cantor. Ouviu família, colegas de trabalho e amigos.

Na introdução do livro, ela esclarece: “Tentei diversas vezes entrevistar Frank Sinatra para este livro. Durante um período de quatro anos, enviei várias cartas e nunca obtive resposta. Passei a ligar e escrever para seu editor, Lee Sotters. De novo, nada de resposta. Então fiz diversos telefonemas para o advogado do sr. Sinatra, Milton Rudin, e enviei várias cartas.(…) Em 21 de setembro de 1983, antes mesmo que uma palavra fosse escrita, Frank Sinatra abriu um processo para impedir este livro de ser publicado.” O valor do processo, esclarece ela mais adiante, era de 2 milhões de dólares. “Ele disse que só ele, e apenas ele, ou alguém indicado por ele, poderia escrever a história de sua vida.”

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A “verdadeira história” da princesa Diana, o maior best-seller do ramo das não autorizadas

O livro de Sinatra continua sendo das biografias mais vendidas da história, atrás apenas das biografias não autorizadas da princesa Diana, de Elvis Presley, de Elizabeth Taylor e de Michael Jackson (a indústria não fornece os números exatos).

Não autorizadas são maioria entre os 10.000 lançamentos de 2012

O gênero “biografia” está entre os que mais cresceram nos últimos dez anos (60%), perdendo apenas para segmentos como “economia” e “tecnologia” em um mercado que movimenta anualmente 15 bilhões de dólares (cerca de 33 bilhões de reais), segundo o *BookStats. Em 2012, dez mil novas biografias chegaram às prateleiras norte-americanas (Fonte: *Bowker). Dentro desse número, a quantidade de obras não-autorizadas é maioria. Na loja virtual amazon.com, a oferta de biografias prova isso: entre as autorizadas, há 1.310 opções. A lista das não autorizadas tem 1.713 títulos. Há algumas não autorizadas tão criativas que surgem em formatos pouco ortodoxos, como gibis: Steve Jobs , Adele , Eminem e Lady Gaga ganharam suas versões HQ coloridas e não autorizadas, assim como Zac Efron e Justin Bieber .

Por falar em Bieber, esse ilustra bem a predileção do mercado de livros por astros em ascensão. Quando o garoto explodiu no showbiz, dezenas de biografias não autorizadas foram preparadas, algumas prontas em questão de semanas e, claro, de qualidade duvidosa. Aqueles que se retiram do showbiz também despertam a sanha. As mortes de Whitney Houston e Michael Jackson geraram várias biografias não autorizadas em questão de semanas. Mas o recorde fica com a morte de Elizabeth Taylor , em 2011, que abriu espaço para cinco biografias lançadas por grandes editoras americanas. Em uma das obras ficamos sabendo que a diva fez um ménage a trois com o presidente John F. Kennedy e o ator Robert Stack, informação que uma “autorizada” muito provavelmente não teria.

Biógrafos chegam a receber R$ 1,5 milhão de adiantamento

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Umas das não autorizadas de Elizabeth Taylor, das estrelas favoritas dos biógrafos

Alguns autores especializados em biografias não autorizadas, como Kelley (Jacqueline Kennedy Onassis, Nancy Reagan, Elizabeth Taylor, Oprah), chegam a receber adiantamentos de um milhão e meio de reais, o que mostra que, mesmo com o risco de processos judiciais movidos pelo biografado, a ousadia compensa. Ainda assim, são bissextos os casos em que o biografado vai à Justiça alegando “invasão de privacidade” e ganha a causa como, no Brasil, aconteceu com Roberto Carlos, que conseguiu uma ordem judicial para que sua biografia não autorizada, “Roberto Carlos em Detalhes”, fosse recolhida das lojas (os livros hoje estão sob seu poder, embora ninguém saiba onde).

Nos Estados Unidos, um dos raros vitoriosos nesse âmbito foi o escritor recluso J.D Salinger (“O Apanhador no Campo de Centeio”), que justificou a ação dizendo que cartas que escreveu seriam usadas em uma biografia não autorizada que estava sendo escrita a seu respeito, e que isso invadia sua privacidade. Depois de algumas discussões mediadas por um juiz, as cartas foram retiradas; e a biografia lançada. Outros pesos pesados como Oprah Winfrey, George Bush , Ronald Reagan e Tom Cruise não puderam fazer nada além de espernear: suas biografias não autorizadas foram lançadas a despeito das caras-feias, dos pedidos para que fãs não as comprassem e de poucas e frustradas tentativas de investidas judiciais.

“A vida de uma pessoa pública pertence a todos nós”

Pela lei americana, todo cidadão tem direito à privacidade (uma frase que hoje, sob muitos aspectos, e em nome da alegada segurança, faz rir, mas concentremo-nos nas biografias). É o que diz a lei. Mas a Primeira Emenda da Constituição americana garante o direito à liberdade de expressão, e é aí que existe margem para a legalidade do vasto mercado das “não autorizadas”. O consenso é que quando alguém se torna famoso, ou publicamente conhecido, fatos íntimos e pessoais de sua vida podem ser revelados. Ou, como disse Kitty Kelley quando Sinatra retirou a ação que visava impedir a publicação do livro, “A vida de uma pessoa pública pertence a todos nós, cidadãos americanos”.

O que a maioria dos ofendidos alega nos tribunais americanos não são as “inverdades” escritas a seu respeito, mas sim os danos causados pela invasão de suas privacidades. Juízes, quase como regra e incentivados pela jurisprudência que normatiza o sistema judiciário americano, sentenciam que o público tem interesse legítimo por informações sobre a vida privada da pessoa pública. E assim, nesses casos, a Primeira Emenda vence o Direito à Privacidade.

Kitty Kelley, a autora que enfureceu Sinatra, nunca perdeu uma ação porque documenta à exaustão todas as entrevistas que faz, e já teve que mandar para o tribunal a tal prova mais de uma vez, como, por exemplo, quando Ronald Reagan alegou que as fontes que ela havia usado na biografia não autorizada de Nancy Reagan não haviam dado entrevistas. Kelley mandou para o juiz as fitas com as entrevistas, e a argumentação de Reagan perdeu o sentido.

Mais de 850 entrevistas para biografar Oprah Winfrey

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Biografada e biógrafa, em montagem fotográfica: Oprah Winfrey e Kitty Kelley

Para a biografia de Oprah, Kelley fez mais de 850 entrevistas, todas gravadas para o caso de ser acionada judicialmente, coisa que não foi. O que Oprah fez contra a obra foi uma campanha pesada para divulgar que a biografia não havia sido autorizada, e para que Kelley não tivesse sucesso promovendo o livro.

O jornalista Christopher Andersen , que tem 13 biografias na lista de mais vendidos do New York Times, diz que o público tem direito de saber tudo o que puder ser legitimamente encontrado sobre o biografado. “Não é minha função escolher o que o leitor pode ou não saber. Eu o estaria enganando se fizesse isso. Sou um jornalista, não um censor”.

Nesse mercado, a máxima diz que a maior inimiga da verdade não é a mentira, mas o mito. E, ao contar a história da figura pública com doses cavalares de verdade, cai o mito e nasce o humano, com suas falhas e miudezas. Arianna Huffington escreveu a biografia de Pablo Picasso , a quem considerava o maior ídolo. Ao terminar, disse que Picasso já não era mais um ídolo.

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O audiolivro da obra que desmistificou Picasso para sua biógrafa, Arianna Huffington

Se Kitty Kelley é a mais famosa das biógrafas, seu equivalente masculino é o inglês Andrew Morton . Andrew, que ficou famoso ao escrever a biografia não autorizada de Lady Diana , já atacou de Madonna , Monica Lewinsky , Angelina Jolie e Tom Cruise . Morton é uma força em auto-promoção, fazendo do período pré-lancamento de seus livros um ruidoso bombardeio de publicidade.

Quando lançou a não autorizada de Tom Cruise, em 2008, armou o maior circo da mídia, mesmo sem grandes revelações (com medo de ser processado por Cruise, como outros tantos foram, os boatos sobre o ator ser gay só foram descritos como “segundo boatos”). Antes do lançamento, Cruise ameaçou processar o autor. Em uma declaração formal escrita por seu advogado, Cruise reconhecia que Morton tinha direito a fazer o livro, mas alertava que o autor deveria checar muito bem os fatos: se houvesse na obra alguma referência à sua sexualidade, ele processaria. “Tom Cruise não é gay”, terminava a carta. Cruise nunca processou.

Com Angelina Jolie, que teve sua vida retratada em 313 páginas há dois anos e meio, a história foi diferente. Angelina, que sabe administrar elegantemente a mídia (ela lida diretamente com a imprensa, chegando a responder emails de editores e repórteres), nem reclamou. Continuou a promover seu novo filme na época (“Salt”), e deu os ombros para Morton.

O livro, embora tenha entrado para a lista de mais vendidos, não teve a vida longa que se previa, o que mostra que a tática de Jolie talvez seja a mais adequada se a intenção é que a biografia caia no esquecimento rapidamente. Espernear, como fizeram Oprah, Sinatra, Cruise e Reagan, apenas gera publicidade e, com ela, longevidade da obra. Há, entretanto, saídas ainda mais sofisticadas.

Recentemente, uma biografia não autorizada de Carla Bruni-Sarkozy foi lançada, e a ex-primeira dama francesa não gostou nem um pouco. Mas, depois de reclamar muito, quando perguntada se tomaria alguma ação legal, Bruni apenas disse: “Claro que não. Sou uma democrata”.

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