Novembro traz um desafio curioso para quem deseja se tornar um escritor – ou ler um pouco mais

Danilo Venticinque na revista Época

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Publicar um livro no Brasil, ou em qualquer lugar do mundo, não é fácil. Vendê-lo é ainda mais difícil. Viver de literatura, então, parece impossível, embora uma minoria consiga fazê-lo. Mas, antes de tudo isso, o aspirante a escritor precisa vencer um desafio ainda mais assustador: tornar-se, de fato, escritor. Quantas ideias brilhantes para romances não morrem nas cabeças de seus pretensos autores, sem nunca ter chegado ao papel? Quantas obras vão parar na gaveta nas primeiras páginas para jamais serem retomadas? Milhões dizem “minha vida valeria um livro”, mas raríssimos são os que sentam para escrever o tal livro – ou qualquer outra história.

A tentação de não escrever é enorme. Na imaginação do futuro escritor, sua obra sempre é perfeita, e suas palavras sempre são exatas. O ato de escrever acaba com essa ilusão. Superar o perfeccionismo e fazer o trabalho sujo de escrever um livro é um ato heroico. Muitos escritores em potencial o adiam indefinidamente. Nas palavras de David Foster Wallace, “se a sua fidelidade ao perfeccionismo for grande, você nunca fará nada.”

Para acabar com a procrastinação e evitar a tragédia do potencial desperdiçado, um grupo de escritores americanos criou em 1999 o projeto NaNoWriMo. O nome é uma abreviação de National Novel Writing Month – algo como Mês Nacional de Escrever Romances. A ideia de seus criadores é combater o perfeccionismo na escrita. Entre os dias 1 e 30 de novembro, os participantes têm o dever de escrever um livro com 50 mil palavras (aproximadamente duzentas páginas). Quantidade vale mais do que qualidade. Todos os candidatos que conseguirem atingir a meta de palavras são considerados vencedores, mesmo se suas obras forem repletas de erros gramaticais e furos no enredo. O objetivo é que, ao final do mês, o autor tenha terminado ao menos o primeiro rascunho de um romance. A revisão e a reescrita, espera-se, vêm depois.

 

 

A primeira edição do NaNoWriMo contou com apenas 21 participantes. Ano após ano, aspirantes a escritores de todo o mundo se renderam ao desafio de largar o perfeccionismo por um mês. Mais de 270 mil candidatos se cadastraram no site oficial do evento em 2013. Se todos cumprirem o combinado, terão escrito mais de 13 bilhões de palavras em um mês. Nada mal para quem poderia ter passado esse tempo sonhando com o livro de sua vida ou arrancando os cabelos diante de uma tela em branco.

Os céticos, sempre eles, dirão que um romance escrito em apenas um mês tem tudo para ser uma porcaria. Há casos que provam o contrário. Água para elefantes, de Sara Gruen, nasceu no NaNoWriMo. Virou um best-seller e chegou aos cinemas. O circo da noite, de Erin Morgenstern, também é um projeto do NaNoWriMo que foi publicado e ganhará uma adaptação cinematográfica. E a história da literatura é repleta de exemplos de grandes obras que foram escritas em pouco tempo. Robert Louis Stevenson escreveu o primeiro rascunho de O médico e o monstro em três dias. Um estudo em vermelho, o primeiro livro com o detetive Sherlock Holmes, tomou apenas três semanas de Arthur Conan Doyle. E Dostoiévski levou só 26 dias para escrever O jogador – isso enquanto trabalhava em Crime e castigo.

É muito improvável que um dos 270 mil autores inscritos no NaNoWriMo seja o próximo Dostoiévski. Entre as centenas de milhares de romances produzidos em novembro, muitos jamais serão lidos. Poucas obras serão tão geniais quanto seus autores imaginavam que elas seriam. Mas algum livro, por pior que ele seja, é melhor do que livro nenhum. Os escritores mais persistentes podem emendar um diligente trabalho de edição para transformar seus rascunhos em algo publicável. Outros ficarão contentes por ter contado suas histórias e darão o trabalho por encerrado. E talvez muitos desistam da literatura, ao perceber que escrever um bom livro é muito mais fácil na imaginação do que na realidade. Não importa. No NaNoWriMo, quem ousa enfrentar o perfeccionismo já pode ser considerado um vencedor.

***

O frenesi literário de novembro não se restringe aos autores em potencial. Quem não planeja escrever um livro pode aproveitar para se dedicar mais à leitura. Não há um evento oficial como o NaNoWriMo para leitores, mas alguns já criaram seus próprios desafios. Há lunáticos que tentam ler um livro por dia. Uma meta mais razoável, mas ainda ambiciosa, é chegar a 50 páginas lidas por dia – 1500 até o fim do mês. E há um objetivo mais fácil: reavaliar suas metas de leitura para 2013 e correr para tentar realizá-la. Faltam dois meses para o fim do ano. Você já leu todos os livros que queria ler? Se não leu, ainda dá tempo de tentar. Se está em dia com as leituras, novembro não o decepcionará. É o mês em que as editoras lançam suas principais apostas de fim de ano. Procure algo interessante nas prateleiras. Dedique um pouco mais de tempo aos livros. Há milhares de escritores tentando escrever pelo menos 5 mil palavras por dia. O mínimo que podemos fazer é ler um pouco mais.

 

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