Publicado por Folha de S.Paulo

Dois anos após a morte de Sócrates (1954-2011) –ídolo do Corinthians, capitão da seleção de 1982 e um dos mais emblemáticos jogadores de futebol da história do país–, um livro de sua própria autoria ainda está engavetado.

Com o título “Jogo, Ciência, Drogas e Aculturação”, a obra, de cerca de 200 páginas, foi deixada aos cuidados da viúva do jogador, a empresária Kátia Bagnarelli. O texto, não exatamente uma autobiografia, é um registro de memórias entremeado por comentários analíticos.

Bagnarelli diz que há interesse de lançar o volume pela editora Prumo, de São Paulo, mas que a decisão depende da autorização de familiares, incluindo os filhos de Sócrates (são seis, sendo um menor de idade).

Sócrates comemora gol pelo Corinthians no Campeonato Paulista de 1981, no Morumbi (Folhapress)

Sócrates comemora gol pelo Corinthians no Campeonato Paulista de 1981, no Morumbi (Folhapress)

Segundo um dos herdeiros, o advogado Gustavo Vieira de Oliveira, 36, o assunto ainda está sendo discutido por toda a família, inclusive pelo também ex-jogador Raí, 48, irmão de Sócrates.

Oliveira afirma que não há previsão para o lançamento. Um dos motivos do atraso, afirma, é a estratégia de não lançar o livro enquanto o foco estiver sobre os eventos relacionados à Copa do Mundo.

“O público anseia pelo livro para 2014, mas essa confusão cria um aspecto popularesco, algo fácil, e Sócrates nunca foi assim”, diz Oliveira. “A memória dele é mais forte do que o evento. Há que se ter uma estratégia, os fãs merecem esse cuidado.”

Sóstenes Oliveira, irmão de Sócrates, diz que não há preocupações da família em relação ao conteúdo do livro. “Somos lentos mesmo”, afirma.

ÁLCOOL

De todo modo, o jogador não fala dos problemas com o álcool –apenas narra episódios regados a cerveja.

Futebol é a questão central do livro, sob a ótica de um sujeito politizado e crítico das relações profissionais dentro dos clubes. No passeio literário por sua carreira, conta que testemunhou episódios de racismo nos clubes e reclama de jogadores que usavam drogas. Com humor, assume-se como um homem feio e relembra momentos da adolescência: descreve grupos de garotos que dividiram com ele campinhos amadores.

Ele fala, ainda, de como jogos de futebol se tornaram mais previsíveis com o tempo e estabelece, como marca da última década, um cenário mais técnico que criativo.

“O surgimento de um gol, o mais das vezes, é quase que um acidente de percurso, pois as equipes em geral possuem preocupações defensivas que extrapolam em muito as parcas estratégias ofensivas”, escreve.

Há passagens em que o ex-jogador faz análises sob pontos de vista médicos. Comenta, por exemplo, a transformação física pela qual o jogador Ronaldo passou no início de sua carreira.

“A tendinite nos patelares nada mais foi que fruto de distorções de desenvolvimento. Acompanhadas é claro de doses nem sempre homeopáticas de anti-inflamatórios.”

Em linguagem coloquial, também deixa impressões e experiências com o amor. Casado três vezes, conta que chegou a pegar quatro voos entre Rio e São Paulo num mesmo dia, só para ver uma namorada. (GUSTAVO FIORATTI)

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TRECHO

Todos sabem do cancro que é o consumo de drogas em nossa sociedade contemporânea e a extensão de seus estragos.

O que é inadmissível é a forma como as pessoas que lidam com o futebol recebem este fato: sempre com a suada missão de tentar escondê-lo e “preservar” seus atletas. (…)

Ora! Nós temos que ser mais realistas e enfrentar os problemas como eles o exigem: com maturidade e discernimento.

Se o exame comprova o uso desta ou de outras drogas é porque o jogador fez, sim, o uso delas de alguma forma e em alguma ocasião.

Trecho de “Jogo, Ciência, Drogas e Aculturação”, de Sócrates

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