Autora do best-seller “Comer, Rezar, Amar” lança terceira obra – desta vez, com uma heroína solteirona, meio esquisita e, claro, atrapalhada no amor

Letícia González na revista Marie Claire

Liz Gilbert acaba da lençar novo livro (Foto: Pascal Perch (Corbis Outline) )

Liz Gilbert acaba da lençar novo livro (Foto: Pascal Perch (Corbis Outline) )

Sete anos após virar uma popstar da literatura, a escritora Elizabeth Gilbert retorna às livrarias. Em “A Assinatura de Todas as Coisas”, sua protagonista estuda plantas, mais especificamente, musgos. Difícil prever uma trama que comece assim vindo da autora de “Comer, Rezar, Amar”, um livro atual e autobopgráfico que vendeu mais de 10 milhões de cópias e foi adaptado para o cinema com Julia Roberts no papel principal.

Marie Claire conversou com Liz Gilbert para entender mais sobre o novo lançamento que, tal como o anterior, também fala de momentos da própria vida da autora. Confira!

Marie Claire – Esse livro é muito diferente do seu maior sucesso, “Comer, Rezar, Amar”. Por que uma história sobre botânica que se passa no século 19?
Liz Gilbert –
Bem, nos últimos anos eu me tornei uma jardineira apaixonada e por isso queria escrever sobre plantas. Eu sabia que se não escrevesse sobre plantas, não seria interessante para mim. Mas eu precisava achar um momento histórico em que esse fosse um negócio de vida ou morte (risos). Um romance sobre jardinagem não seria muito interessante. Mas um sobre a exploração e o comércio botânico que ocorreu no século 19 seria, e por isso decidi basear a história nesse período. E então descobri uma lista de incríveis botânicas mulheres. A botânica era a única ciência na qual as mulheres eram benvidas no século 19, era considerado algo feminino. Quando percebi isso, vi que tinha de escrever sobre uma botânica mulher.

MC – Como se preparou para escrever o livro?
LG –
Bem, eu passei mais ou menos três anos fazendo pesquisa (risos). Mas veja, eu era aquela menina que decidia o que vestir para o colégio com uma semana de antecedência. Então não foi nenhum sacrifício passar esses anos me preparando, pelo contrário, foi um privilégio.

MC – Você é uma escritora muito conhecida pelos seus textos contemporâneos. Ficou com medo que uma história que se passa antigamente afugentasse seus leitores?
LG –
Sim. Mas, sabe, eu decidi há muito tempo que, toda vez que tivesse de escolher entre criatividade e medo, eu escolheria criatividade. Porque, de fato, essa é a questão nas nossas vidas, quase todos os dias. E eu tento com muita força não tomar decisões baseadas no medo. Também acredito que as pessoas que leem os meus livros são aquelas que amam ler, e eu amo ler livros como este. Em todos os momentos da minha vida, eu tentei escrever o livro que eu queria ler. Quando escrevi “Comer, Rezar, Amar”, ele era um livro que eu adoraria que alguém tivesse me dado naquele momento. Quando escrevi “Comprometida”, era um livro que eu gostaria que alguém tivesse me dado quando eu tive de me casar pela segunda vez. Este é um livro que eu gostaria que me dessem no momento em que eu estivesse indo passar uma semana na praia. “Você quer uma grande aventura? Aqui está”.

O terceiro livro de Liz (Foto: Divulgação)

MC – Alma Whittaker adora plantas, e especialmente musgo, e as descobertas que ela faz requerem tempo. Parece uma metáfora da paciência, algo que falta bastante nas nossas vidas hoje em dia. Enxerga desse jeito também?
LG –
Sim. E uma das coisas que eu amo sobre o século 19 é que as pessoas se dedicavam a trabalhos que levavam décadas, ao invés de minutos. E foi também o último momento da história em que uma pessoa normal podia entender o que se passava no mundo científico. Hoje, ficou tão complexa que uma pessoa como eu não pode entendê-la. Eu posso entender a ciência do século 19 (risos). Além disso, Alma passa sua vida estudando o que microscópico e quase invisível. A história das mulheres com a criatividade, ao longo da história, foi em miniatura, em coisas pequenas, porque elas não podiam fazer trabalhos grandes. Não podiam viajar o mundo, não podiam escrever romances gigantescos. Elas podiam fazer trabalhos pequenos dentro de casa, com tecidos, e crochês e bordados. Sinto que musgo é um pouco a versão química desse pequeno trabalho que as mulheres fazem para manter a sua criatividade ativa e não enlouquecer.

MC – Ao mesmo tempo, ela tem esse caminho atípico para uma mulher do século 19, mas não parece preocupada com o direito das mulheres.
LG –
Ela é tão sozinha. Ela vive num mundo em que as questões feministas começam a ser colocadas. Era o início do movimento feminista e do movimento dos direitos humanos. Ela não se envolvia nisso, era uma cientista. Vemos isso no livro dois, em que ela nem percebe a escravidão. Ela não tem ninguém parecido com ela. Acho que para ter um movimento político, você precisa de um coletivo. Eu penso nela como uma árvore no meio de flores. Ela é tão alta e acima de todos, ela não pertence a ninguém.

MC – Ela é forte e destemida para a época. Imaginou Alma como uma mulher com traços masculinos?
LG –
Acho que é uma mulher única. Sua vulnerabilidade emocional dela é realmente feminina. Ela não é forte emocionalmente. Quando o coração dela se parte, é como o meu e o seu. Eu queria fazer esse contraste entre a força do corpo e da mente com a do coração. O fato de ser tão cheia de desejo por esse homem que não a quer. Ela entende rejeição e solidão. Mas quando fiz a minha pesquisa sobre mulheres botânicas do século 19, vi que a maioria eram individualistas. Eram mulheres muito peculiares e diferentes de todos os outros.

MC – Ela se parece com você?
LG –
Mais do que eu poderia imaginar! Quando eu estava escrevendo achava que não tinha nada a ver porque ela tem uma mente factual e eu sou mais mística, imaginativa. Mas meus amigos leram o livro e disseram: esta é você! É verdade que a minha curiosidade pelo mundo é parecida com a dela, e somos ambas apaixonadas pelo nosso trabalho.

Julia Roberts em cena do filme "Comer, Rezar, Amar" (Foto: Divulgação)

MC – No livro, ela tem o seu coração partido e vai para o Taiti. É parecido com “Comer, Rezar, Amar”, não?
LG –
Sim! Vamos ser honestas (risos)! O que aconteceu foi o seguinte. Eu tinha imaginado uma história em que ela nunca saísse do terreno de sua casa. Porque queria escrever sobre como uma mulher lida com a sua curiosidade e sua paixão quando não pode sair de casa. Mas aí, eu não pude fazer isso com ela. Ela tinha quase 50 anos e nunca tinha saído de casa! Ela precisava de uma aventura! E algumas dessas mulheres que pesquisei eram aventureiras. Viajavam mesmo. E tendiam a viajar quando eram mais velhas, aos 50 anos. Acho que na verdade é uma época ótima para viajar, porque você está sexualmente invisível, os homens não te veem e você pode viajar tranquila.



MC – Como foi escrever sobre sexo no século 19?
LG –
Difícil! Eu não queria que soasse humilhante para Alma, porque eu a amo, mas eu queria contar todas as partes da vida dessa mulher, e a sexualidade faz parte. Eu queria que ela estivesse 100% no livro.

MC – Como se sente agora que a heroína do livro não é você?
LG –
É bastante libertador! Os últimos três livros que escrevi foram sobre mim, então eu estava um pouco cansada de mim mesma. Foi emocionante escrever sobre alguém que não fosse eu. Mesmo que, como meus amigos apontaram, eu estava escrevendo sobre mim. Acho que, no fim das contas, você não consegue fugir de si mesma (risos)!

MC – Está trabalhando em algo novo agora?
LG –
Não, estou focada em apresentar Alma ao mundo agora. Não estou escrevendo, mas tenho ideias.

 

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