Versão brasileira estará disponível a qualquer pessoa, segundo fundação.
Site tem exercícios e aulas de matemática, com relatórios de desempenho.

A professora Leandra Oliveira com seus alunos do quinto ano Eric e Maria Eduarda, que começaram neste ano a ter aulas de matemática com vídeos e exercícios online (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

A professora Leandra Oliveira com seus alunos do quinto ano Eric e Maria Eduarda, que começaram neste ano a ter aulas de matemática com vídeos e exercícios online (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Ana Carolina Moreno, no G1

Página inicial da plataforma da Khan Academy em português (Foto: Reprodução/Fundação Lemann)

Página inicial da plataforma da Khan Academy em
português (Foto: Reprodução/Fundação Lemann)

A nova plataforma da Khan Academy, lançada no início do segundo semestre, ganhará uma versão oficial em português a partir de janeiro de 2014. O anúncio foi feito na tarde de terça-feira (12), no lançamento de uma versão ainda em fase de testes. Além das videoaulas elaboradoras pelo cientista da computação e matemático americano Salman Khan, a plataforma tem exercícios e ferramentas para que os professores acompanhassem o progresso dos alunos em matemática.

Em março, quando começou a usar uma plataforma inspirada na de Khan, e elaborada pela Fundação Lemann, a professora Leandra Marques Rodrigues Oliveira estava “resistente” sobre o que poderia acontecer com os 32 alunos da sua turma de quinto ano do ensino fundamental. Mas, a um mês do fim do ano letivo, ela se diz satisfeita com o resultado do sistema. Leandra fez parte de um projeto-piloto implantado pela Lemann em seis cidades brasileiras. No ano que vem, o objetivo da entidade é expandir o projeto dos 12 mil alunos atendidos atualmente para 50 mil, além de abrir o acesso gratuito ao site para qualquer escola, professor e aluno do país, com conteúdos do ensino fundamental ao médio.

O site surgiu após a popularidade que os vídeos de Khan fizeram no YouTube. Há mais de oito anos, ele começou sem querer uma carreira como professor virtual, por meio de videoaulas produzidas como reforço escolar de matemática para uma sobrinha. Em 2011, lançou a plataforma que, além das aulas online, também trazia exercícios e maneiras de registrar a evolução do desempenho de cada estudante. A ideia, segundo ele, era que o sistema fosse usado em sala de aula para ajudar os professores a entenderem facilidades e dificuldades específicas de cada aluno em cada conteúdo ensinado.

De acordo com Denis Mizne, diretor executivo da Fundação Lemann, as escolas podem se candidatar a receber o projeto em suas salas de aula desde que ofereceram a internet de banda larga e os computadores. Além das 50 mil crianças que participarão da próxima fase do projeto Khan nas escolas, a expectativa é que pelo menos outros 50 mil acessem por conta própria a plataforma online, que será de uso gratuito. Ele afirma que o custo do projeto é de menos de R$ 3 por aluno por mês e estima que a Khan Academy é a “tecnologia que vai ser testada em maior escala no Brasil em sala de aula”.

Eu consigo saber se o aluno realmente fez a atividade, assistiu ao vídeo, se é capaz de ensinar o conteúdo para outro aluno”
Leandra Marques Rodrigues Oliveira,
professora

‘Diferenciação pedagógica’
Depois de dez meses usando regularmente a plataforma em suas aulas, combinada com outras abordagens para complementar o ensino, Leandra, que dá aulas na Escola Municipal de Educação Fundamental M’Boi Mirim 3, contou ao G1 que essa ferramenta de acompanhamento é o principal ponto alto da Khan Academy por possibilitar a “diferenciação pedagógica” entre os estudantes. “Eu consigo saber se o aluno realmente fez a atividade, assistiu ao vídeo, se é capaz de ensinar o conteúdo para outro aluno”, explicou ela.

Além de conseguir saber onde cada aluno precisa de ajuda, Leandra explica que é possível também permitir que os estudantes que conseguem terminar os exercícios com mais rapidez possam seguir avançando no seu próprio ritmo. “É diferente da lousa, que eu só posso apagar depois que o último aluno terminou de copiar. [A plataforma] possibilita que mais alunos alcancem o conteúdo esperado.”

Como resultado, segundo a professora, dos 32 alunos da sala, dois deles já terminaram todas as etapas da plataforma previstas para o quinto ano –como se tivessem “zerado” o jogo, já que cumprir as atividades rende aos alunos medalhas de esforço, velocidade e mérito. Outros oito, segundo ela, estão perto do final e podem acabar os conteúdos ainda nesta semana, a um mês do fim do ano. Ela acredita que os demais chegarão na mesma situação até meados de dezembro, com exceção de 10 alunos, que, de acordo com Leandra, chegaram ao quinto ano com defasagem em relação aos colegas, ou apresentam algum tipo de problema que afeta seu desempenho cognitivo.

Assistentes da professora
Eric Leandro Moreira da Silva e Maria Eduarda Souza Silva têm dez anos e estudam na classe da professora Leandra desde o início do ano. A quatro semanas das férias, os dois já terminaram todo o conteúdo previsto na plataforma e agora praticam de outra forma: são monitores dos colegas de classe. “A professora deixou, se a gente quisesse podia [fazer os exercícios por conta própria]”, explicou Eric, que passou a usar o tempo livre em casa para estudar matemática no computador e, segundo o pai, Luiz Antonio Silva, chega a passar horas seguidas na plataforma.

A mãe de Maria Eduarda, Cassandra Silva Souza, afirma que, no quarto ano, a garota reclamava da “chatice” na escola, já que ela terminava os exercícios com rapidez e depois precisava esperar os demais colegas para prosseguir. “Ela estava desmotivada, e eu vi que o projeto a estimulou mais”, diz Cassandra. Maria Eduarda decidiu juntar dinheiro durante cerca de três meses e comprou um tablet no qual estuda matemática.

Bárbara passou de aluna para monitora dos colegas de classe (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

Bárbara passou de aluna para monitora dos
colegas de classe (Foto: Ana Carolina Moreno/G1)

A aluna conta que não foi fácil realizar todas as atividades, mas que com muita dedicação e horas investidas no tempo livre, em casa e na própria escola. Como resultado, conseguiu terminar o conteúdo previsto para o ano todo ainda em outubro, pouco depois do Dia das Crianças.

Em sua classe do quinto ano na Emef Vinicius de Moraes, em Santo André, na Grande São Paulo, Bárbara Heloise Lopes também acabou virando assistente da professora quando o assunto são os exercícios de matemática da Khan. Segundo a garota, durante as aulas ela sempre é procurada pelos colegas para tirar dúvidas sobre algum tema.

Os vídeos da plataforma de Salman Khan não fizeram com que matemática ficasse mais fácil para ela, que diz sempre ter sido boa aluna na matéria. Porém, o site deixou o estudo do tema “mais legal”, diz Bárbara, que também ganhou permissão de sua professora para praticar em casa, onde ela usa o computador do avô emprestado para acessar a plataforma.

Não substitui a sala de aula física
Professores que já têm experiência com o uso da tecnologia desenvolvida por Salman Khan na sala de aula aprovam a plataforma, mas sugeriram melhorias ao próprio americano, que participou de uma conversa virtual com alunos e professores na terça-feira. Leandra, por exemplo, citou a acessibilidade como um dos desafios para a inclusão de alunos com necessidades especiais. Khan disse que para os alunos surdos há a opção de legenda nos vídeos, mas há casos em que ainda não existe uma solução inclusive, como o dos estudantes cegos.

Outras melhorias técnicas também foram sugeridas, como a criação de espaços de bate-papo virtual em tempo real para que professores troquem dicas e tirem dúvidas uns dos outros, a inclusão de conteúdo de matemática para o ensino superior e a possibilidade de controlar que conteúdos os alunos acessam no sistema.

Segundo Leandra, uma das dificuldades encontradas durante as aulas foi justamente a disciplina dos alunos para que realizassem os exercícios recomendados por ela. A professora explica que alguns alunos decidiam pular etapas por conta própria sem cumprir atividades anteriores que, apesar de mais fáceis, contêm conteúdos importantes e devem ser feitas antes de avançar.

Em conversa com os professores, Khan lembrou que a plataforma não tem como pretensão substituir a sala de aula física, já que há uma série de atividades presenciais enriquecedoras e essenciais ao aprendizado, como o diálogo entre professores e alunos e a interação entre um aluno e outro, por exemplo. “Não achamos que um dia poderemos fazer o que a sala de aula física faz, o que queremos é liberar o tempo da sala de aula física” para que as outras atividades e projetos possam ser feitos.

Aos professores que se preparam para introduzir os conteúdos da Khan Academy em suas aulas a partir de 2014, Leandra diz que a maior dica “é tentar conhecer o máximo a plataforma antes de começar a trabalhar com os alunos”. Ela não nega que os docentes possam sentir o mesmo medo que ela sentiu nos primeiros dias. “Tudo o que é novo causa medo, então não digo para não ter medo, mas para vencer o medo. Superar esse medo é o mais importante”, afirmou.

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