Há cem anos, um escritor francês descobria o passado em uma xícara de chá

Luis Antônio Giron na revista Época

 

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A primeira parte do romance Em busca do tempo perdido (À la recherche du temps perdu), de Marcel Proust (1871-1922), foi lançada em Paris no dia 14 de novembro de 1913 pelo editor Grasset. O volume levava o titulo de O caminho de Swann (Du côté chez Swann), e era dividido em três seções: “Combray”, “Um amor de Swann” e “Noms de pays: Le nom”. Trata-se do primeiro de um romance em sete volumes que iriam ser publicados até 1927, cinco anos após a morte de seu autor. A Recherche, como é conhecida universalmente a obra, tornou-se o primeiro clássico do século XX – ou, segundo alguns críticos, o derradeiro do século XIX. É impossível resumi-la sem incorrer em banalidade. Isso porque ela resulta de um processo de escritura no qual um narrador persegue seu passado e tenta fixá-lo no papel, sem matá-lo. A única maneira de fazer isso é usar a memória como arma da imaginação O passado surge ao narrador de forma concreta, como um susto, no instante em que ele mergulha a madeleine em uma xícara de chá, e de lá saltam episódios, cheiros e pessoas que ele não pensava mais em recordar, e talvez nem quisesse. Ao longo dessa pungente expedição mental, ele converte a própria vida em uma obra de ficção – ou, como diríamos hoje, de autoficção, uma mistura de fatos reais, imaginados, sonhados e elaborados. É um livro tão intenso que hoje, cem anos depois, o leitor sente as palavras de Proust pulsarem como um organismo vivo.

Além de precursor da autoficção, Proust antecipou os escritores de fan-fiction do século XXI em pelo menos um ponto: a autopublicação. Ele enviara as 712 páginas manuscritas do livro em 1912 a três editores. Os três se recusaram a publicá-lo. O parecerista da primeira editora para a qual enviou o manuscrito então intitulado Temps perdu (Tempo Perdido), Fasquelle, Jacques Madeleine, ficou irritado ao ler o manuscrito, mas, mesmo assim, tentou resumir o enredo, como se isso fosse possível: “Um homem tem insônia. Revira-se na cama, reconstitui impressões e alucinações do período de sonolência, algumas das quais tem a ver com a dificuldade para adormecer quando criança no quarto da casa de campo dos pais em Combray. Dezessete páginas! Uma frase (no final da página quatro e na página cinco) se estende por quarenta e quatro linhas”. Pobre Madeleine (ele tinha de ter esse sobrenome?)… Passou a história como um obtuso, como se portam muitos leitores até hoje, incapazes de “perder tempo” com as digressões proustianas.

O autor não esmoreceu. Fez estampar trechos do livro em jornais e revistas, enquanto buscava outros editores. Enviou uma versão datilografada, dividida em vários cadernos e intitulada Le temps retrouvé (O tempo reencontrado), sob o título geral da obra de Les intermitences du coeur (As intermitências do coração) ao editor Gaston Gallimard. Nova recusa – que custaria mais tarde ao prestigiado Gallimard a pecha de insensível. No início de 1913, enviou o livro às Éditions Ollendorf, cujos pareceristas também não entenderam nada. Foi então que Proust pediu ao amigo René Blum que recomendasse o livro ao editor Grasset. Em março, Proust fechou contrato com Grasset. Ficou combinado que Proust pagaria toda a produção do volume.

Só no começo de março de 1913, quando revisou as primeiras provas, ele chegou ao título definitivo da série: À la recherche du temps perdu. Até outubro, mais três provas foram impressas. Proust revisava obsessivamente seu texto. Ele havia planejado a obra ao longo de quase vinte anos. Seu primeiro livro publicado, a coletânea de contos Les plaisirs et les jours (Os prazeres e os dias), de 1896, já continha o gérmen de tramas e personagens da Recherche. Seu romance inacabado, Jean Santeuil, escrito entre 1896 e 1901 (e publicado postumamente em 1952), esboça personagens que se parecem com protagonistas da Recherche, como Madame Verdurin e suas manias musicais, o inseguro dândi Charles Swann e o escritor Bergotte. Este último foi baseado em Anatole France, autor querido de Proust e hoje injustificadamente fora de moda.

Proust cuidou também da divulgação da Recherche. Na antevéspera do lançamento do livro, Proust concedeu estrategicamente uma entrevista a Élie-Joseph Bois, do jornal (repare no nome) Le Temps. As declarações de Proust são reveladoras e ajudam a explicar seu projeto. Na entrevista, anuncia que Du Côté chez Swann é o apenas o recorte de uma obra extensa: “Sou como alguém que tem uma tapeçaria grande demais para os apartamentos atuais e que foi obrigado a cortá-la”. O romance, afirma, não é fundado na psicologia plana, mas na psicologia no tempo. Ele deseja que fatos e personagens do livro ganhem a pátina do tempo ao final da leitura. É um livro dominado, explica, pela distinção entre memória involuntária e memória voluntária. Segundo ele, a memória voluntária, racional, é mais fraca que a involuntária, aquela que surge “de um cheiro, um sabor encontrados em circunstâncias diferentes, que recordam em nós, apesar de nós, o passado, e nos faz sentir como o passado era diferente daquilo eu acreditávamos lembrar, e que nossa memória voluntária pintava, como os maus pintores, com cores sem verdade”. Seu livro pretende revelar, por meio de “uma dosagem exata de memória e esquecimento”, um universo peculiar e único.

O livro não foi entendido, e obteve poucas críticas. Proust passou o resto da vida revisando, reescrevendo, reinventando o seu passado. Finalmente conseguiu que publicassem três partes da Recherche sem que precisasse pagar por isso: À l’ombre de jeunes filles em fleur (1918), Le chemin de Guermantes (1921-1922) e Sodome et Gomorre, lançada em 14 de novembro de 1922, quatro dias antes da morte de Proust. Em 1921, a obra, mesmo em andamento, ganhava reconhecimento universal. Quando morreu, por se recusar a tratar uma bronquite que degenerou em pneumonia, deixou três volumes para ser publicados: La prisionère, lançado em 1923, Albertine disparue, em 1925, e o último, Le Temps retrouvé, incompleto, em 1927. Resumir esses livros seria como tentar sintetizar uma existência inteira.

Que mensagem final nos deixa Proust? Talvez a de que lembrar é um exercício sem fim cujo resultado artístico, quando existe, só pode ser um fragmento, uma ruína. Ele carrega o leitor pelos descaminhos de suas memórias que vão surgindo como espantos súbitos. E assim nos faz recordar de repente de coisas que gostaríamos de esquecer para não nos comovermos com elas. No final, o passado terá se transformado dentro de nós mesmos. A memória se fixa numa emoção incontrolável. Será uma deslembrança, uma criação involuntária e em perpétua metamorfose. Ao virar a última página da Recherche, quando olharmos em torno, Proust não estará mais lá. Ele nos abandonou ao nosso próprio esquecimento.

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