Mario Vargas Llosa

Vargas Llosa: opção por uma peça linear, que tem no suspense seu principal alicerce

Fabricio Vieira, no Valor Econômico

Após um escritor receber o Prêmio Nobel de Literatura, crescem as expectativas em torno de seus próximos livros. Afinal, o premiado passa a fazer parte de uma seleta galeria na qual – ao menos, espera-se – estariam representados os maiores escritores do mundo. No entanto, não é raro que a produção pós-Nobel acabe ficando entre os trabalhos de menor relevância na obra de um autor.

É nesse caso que se enquadra o peruano Mario Vargas Llosa. Ganhador do Nobel em 2010, ele traz a público seu novo romance – infelizmente, um exemplar distante de seus momentos mais inspirados.

“O Herói Discreto” se estrutura a partir de dois núcleos narrativos. No primeiro está Felícito Yanaqué, dono de uma transportadora na cidade de Piura que certo dia recebe uma ameaçadora carta anônima que desestrutura seu cotidiano. Paralelamente, há a história de Ismael Carrera, empresário do ramo de seguros que, octogenário, decide se casar com sua jovem empregada, para escândalo da família e da sociedade de Lima. O autor constrói o romance alternando os dois polos, que apenas se combinarão próximo ao fim do livro.

A recusa de Yanaqué em pagar o suborno exigido na carta anônima para que seus negócios não sejam perturbados desencadeia a ação que forma os capítulos ímpares. Amparado no último conselho dado por seu pai (“Nunca se deixe pisar por ninguém”), Yanaqué não cede à pressão e, como consequência, vê a transportadora ser vítima de um incêndio criminoso e sua amante ser sequestrada: mesmo assim, permanece “heroicamente” firme.

Nos capítulos pares, o enredo se desenvolve a partir do casamento escandaloso de Carrera. Mas quem acaba por se tornar protagonista dessa parte de “O Herói Discreto” é Rigoberto. Funcionário de confiança de Carrera, Rigoberto aceita ser testemunha da união no cartório, passando a ser intimidado pelos filhos do empresário, sedentos pela herança do pai.

A parte centrada em Rigoberto tenta ganhar profundidade com uma pequena trama paralela em torno de Fonchito, seu filho. O adolescente recebe misteriosas visitas de um senhor com ares mefistotélicos, que despertam no jovem devaneios metafísicos, atormentando a paz familiar. Infelizmente, os episódios não conseguem alcançar a intensidade dramática desejada.

Fonchito (de "Elogio da Madrasta").

Fonchito (de “Elogio da Madrasta”).

Aos leitores habituais do romancista peruano, a entrada em cena de antigos personagens pode trazer interesse extra. Um deles é o sargento Lituma (de “Lituma nos Andes”), que surge como um dos policiais que investigam o caso de Yanaqué. Os outros são Rigoberto (de “Cadernos de Don Rigoberto”), sua mulher, Lucrecia, e o filho, Fonchito (de “Elogio da Madrasta”).

Distante da ousadia narrativa que compõe seus melhores escritos, Vargas Llosa opta por uma peça linear, que tem no suspense da trama seu principal alicerce. O resultado é um livro sem maiores desafios estéticos e carente de lampejos de genialidade linguística, no qual a segurança se sobrepõe à inventividade e que se lê até o fim só para conhecer os desdobramentos do enredo – muito pouco quando se pensa em grande literatura.

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