O episódio teria ocorrido no início do ano, de acordo com relato de alunos. Desde então, estudantes têm medo de ir ao banheiro

Publicado na Gazeta Online

Reprodução / Google Maps

Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Heloísa Abreu Judice de Mattos, no bairro Bela Vista, em Vitória

A coordenadora de uma escola municipal de Vitória encontrou um meio no mínimo polêmico para evitar que os alunos pedissem para ir ao banheiro: com um algodão e “sangue” no nariz, ela se passou por Mulher de Algodão, para tentar evitar as saídas frequentes dos estudantes da sala de aula.

O episódio teria acontecido no início deste ano, de acordo com relato de alunos aos pais, na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Heloísa Abreu Judice de Mattos, no bairro Bela Vista, em Vitória. Desde então os alunos do terceiro ano estão com medo de ir ao banheiro. A coordenadora nega e diz que tudo não passa de boato.

A denúncia foi feita pela mãe de uma aluna que estuda no terceiro ano na escola. “Minha filha começou a ficar estranha. Por uma semana, ela só conseguia dormir se fosse comigo. Não ia ao banheiro, também. Quando perguntei o motivo, ela disse que a coordenadora colocou um algodão no nariz, com algo parecendo sangue, e disse para ninguém ficar pedindo para ir ao banheiro. Caso contrário, iria aparecer a mulher de algodão”, conta Fabiana Agostinho da Silva Lourenço, 34, mãe da estudante, que tem 9 anos.

Fabiana, que é professora, conta que, inicialmente, não deu muita importância ao método utilizado pela coordenadora. “No começo, pensei que era mais uma brincadeira de criança”. Entretanto, ao perceber a mudança de comportamento da filha e o medo que permanecia com o passar do tempo, ela foi à escola e reclamou com a coordenadora, que teria se desculpado e dito que corrigiria a falha. Mas a mãe também perguntou a outra criança o motivo da agressividade da filha em casa, e descobriu outro problema.

“A menina me contou que, depois da minha reclamação, a minha filha foi ameaçada. Ela e a minha sobrinha foram trancadas em uma sala. E foram avisadas que se elas contassem em casa o que acontecia na escola, ficariam sem recreio”.

Mãe de outra estudante, Fernanda Portilho também ficou revoltada ao ver a filha em pânico não conseguir explicar o que aconteceu durante o período escolar. A menina tem deficiência mental e chegou em casa chorando. Depois de ser acalmada, pela mãe, ela contou o que havia acontecido.

“Achei que ela havia apanhado de um coleguinha. Ela estava gaguejando, não falou o que aconteceu. Depois, explicou que a coordenadora ficou no banheiro fazendo medo nas crianças, se vestindo de mulher de algodão. No outro dia fui à escola para ‘quebrar o pau’. E ela me confirmou que fez isso, mas que foi boa intenção”, diz Fernanda.

A mãe reclama do tratamento dado aos alunos. “É um absurdo. Minha filha não dormiu por um bom tempo, tendo pesadelos. A coordenadora, como funcionária de uma escola e que se especializou para isso, fingir que é uma mulher de algodão é um absurdo”, questiona.

Crianças ficam sem recreio ou merenda como castigo

Outro aluno, da mesma turma, também chegou em casa com medo da Mulher de Algodão. A mãe dele, Eliana Benevitz, de 32 anos, informou que ficou assustada ao perguntar o motivo do medo do filho. “Nós sempre temos problemas com a escola. Meu filho chegou em casa com medo e disse que as crianças pediam muito para fazer xixi. Então uma coordenadora assustava os alunos com algodão no nariz. Só que isso gerou um medo grande e o assunto se espalhou. As mães reclamaram e a coordenadora ficou aborrecida”.

Eliana disse, ainda, que só não retira o filho da unidade de ensino pela dificuldade em conseguir vaga em outra escola. A mãe denuncia castigos constantes às crianças, que ficariam proibidas de participar do recreio. “Ninguém resolve nada lá. Às vezes eles deixam a criança sem merenda, ou sem recreio. Eles têm dado castigo de não participar de recreio e da Educação Física”.

“Eu acredito no meu filho. Isso aconteceu sim. Tanto que o meu filho começou a me pedir para sair da escola. E disse que assim que o problema ficou maior, a coordenadora pediu desculpa aos alunos e disse que não aconteceria novamente”, diz a mãe.

Pais fazem abaixo-assinado para mudar coordenação

Com os problemas enfrentados na escola, pais de alunos se reuniram e fazem um abaixo-assinado pela mudança na coordenação da escola Heloísa Abreu Judice de Mattos. Fabiana Agostinho diz que demorou a perceber a gravidade do problema. Mas que o problema ainda traz consequências.

“Quando vi o comportamento da minha filha mudando, percebi que era realmente era muito grave. Eu mesma não tinha ideia do tamanho do problema. E uma advogada me mostrou no Estatuto da Criança e do Adolescente que um episódio como esse interfere na vida da criança”.

Fabiana procurou o Conselho Tutelar em Vitória, e também pretende comunicar oficialmente a Prefeitura de Vitória, por meio da Secretaria Municipal de Educação, para informar sobre o problema. “Vou até o fim. Pois estou precisando obrigar minha filha a ir estudar, já que ela não tem vontade nenhuma de ir para a escola”.

Coordenadora e PMV negam acusações

A coordenadora da unidade de ensino, que preferiu não se identificar, negou que tenha colocado pedaços de algodão com líquido semelhante a sangue no nariz. Ao atender a ligação da reportagem, ela informou apenas que o assunto já foi superado e que houve um boato que partiu dos próprios alunos.

“Ocorreu uma situação sobre isso aqui na escola, mas foi no começo desse ano. E essa situação já foi resolvida. Foi uma conversa que surgiu entre os próprios alunos. Não teve nada de me vestir de mulher de algodão ou assustar as crianças”, resumiu.

A Secretaria Municipal de Educação de Vitória (Seme) informou, por meio de nota, que fez mediação junto à escola e não só a coordenadora de turno negou a ocorrência do episódio, como os colegas de trabalho também afirmaram que esse episódio não existiu.

Sobre uma possível conduta inadequada por parte da coordenadora com relação a restrições do horário do recreio e aulas de educação física condicionadas ao rendimento escolar, “a Seme já fez o contato com a servidora e orientou sobre as atribuições do cargo”, informa a nota.

Divulgação

Imagem do filme “Mulher de Algodão”

Por fim, a prefeitura informou que a orientação é que casos como esses não aconteçam, embora os colegas de trabalho da coordenadora confirmem que ela não adota os comportamentos descritos nas denúncias.

Mulher de algodão

A história da Mulher de Algodão é famosa desde a década de 70 e, segundo diz a lenda, o fantasma feminino assombra o banheiro de escolas. A aparição seria de uma mulher vestida de branco e com algodão na boca, no nariz e nos ouvidos, e suja de sangue.
Versão de lenda urbana de uma mulher que assombra os banheiros de escolas

A história da lenda chegou a ser abordada por um curta-metragem capixaba, dirigido por Mauricio Junior, em 2004. O filme fez sucesso e chegou a receber vários prêmios em uma mostra competitiva de cinema. 

Fonte: GAZETA ONLINE

dica da Rina Noronha

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