Cadão Volpato, na Folha de S.Paulo

A morte de Lou Reed, em 27 de outubro último, colocou um ponto final numa era. Um clarão de lucidez saltou do noticiário naquela manhã de domingo: o mundo havia perdido um de seus artistas mais importantes.

O fundador do Velvet Underground esteve no centro dos períodos mais rebeldes, estranhos e energéticos que a música jovem viveu nos últimos 50 anos.

Ele é um dos vértices do triângulo apresentado no excelente “Dangerous Glitter – Como David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop Desceram ao Inferno e Salvaram o Rock’n Roll”, escrito por Dave Thompson, um jornalista inglês autor de cem livros sobre cultura pop.

David Bowie (esq.) e Lou Reed se encontram no Dorchester Hotel, em julho de 1972 (Divulgação)

David Bowie (esq.) e Lou Reed se encontram no Dorchester Hotel, em julho de 1972 (Divulgação)

Thompson cruzou os caminhos dessas três figuras, contando suas trajetórias desde o princípio e levando-as ao ápice de seus movimentos selvagens –o tempo de muita purpurina, salto alto, penteados horrorosos, maquiagem de travesti e androginia de butique conhecido como “glitter” ou “glam rock” nos anos 1970.

Ele entrevistou diversas testemunhas ao longo do tempo, falou com as estrelas e soltou a mão com senso de humor e inteligência.

O resultado é um livro de caráter histórico, ainda mais com o desaparecimento de um de seus protagonistas.

“Dangerous Glitter” nos leva ao interior da Factory, a central nova-iorquina de Andy Warhol onde o Velvet Underground –ainda uma banda barulhenta e estilosa– encontrou o seu ninho.

Lá, Lou Reed é apresentado a Nico, a modelo-cantora alemã que seduziu a todos –de Jim Morrison e Alain Delon a Iggy Pop– e com quem viveu um romance.

Lou é o catalisador das forças que levaram o rock cheio de flores do verão do amor de 1967 para o inferno das drogas e do excesso do “glam rock”.

“The Velvet Underground & Nico”, o clássico “disco da banana”, lançado no ano do apogeu hippie e também de “Sgt. Peppers”, dos Beatles, já deixava claro que os subterrâneos eram bem mais cabeludos do que supunha a filosofia da paz e do amor.

Seus temas eram o sadomasoquismo, as drogas pesadas, a prostituição, o tráfico, tudo embalado em barulho, microfonia e uma viola (tocada por John Cale) cujo som lembrava uma motosserra.

Por trás de tudo vinha a poesia barra-pesada e lírica de Lou, que havia estudado literatura e fora amigo do escritor Delmore Schwartz, autor de “Nos Sonhos Começam as Responsabilidades”.

Bowie era fã de Lou e não tinha nenhum sucesso na manga, a não ser “Space Oddity”, que havia gravado certeiramente em 1969, o ano em que o homem pisou na Lua.

Também era fã de Iggy, um baixinho enfurecido que comandava o Stooges, uma das bandas mais ensandecidas de todos os tempos.

O livro traça esses destinos improváveis até o momento em que os três se transformam em estrelas tão exageradas que, mesmo sem purpurina, como no caso de Iggy, acabariam atraindo a ação e a reação de um movimento que recolocaria o rock em sua selvageria inicial: o punk.

O que teria sido do gênero sem Iggy Pop e Lou Reed –e sem David Bowie como contraponto? O livro de Dave Thompson responde a essa e outras perguntas com louvor.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments