No livro ‘101 funks que você tem que ouvir antes de morrer’, autor reúne os maiores sucessos do movimento carioca
Compilação traz, ainda, a história dos intérpretes e compositores de músicas emblemáticas, como ‘Feira de Acari’ e ‘Rap do Silva’
Autor de ‘Um tapinha não dói’ hoje canta funk gospel como MC Naldinho BP O Pacificador

Baile da Paz, no Clube Emoções, na Rocinha: o primeiro baile funk depois da pacificação Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Baile da Paz, no Clube Emoções, na Rocinha: o primeiro baile funk depois da pacificação Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Marina Cohen em O Globo

RIO – Mais do que uma lista de hits, o livro “101 funks que você tem que ouvir antes de morrer – O songbook do batidão” (Aeroplano Editora, R$ 30), de Julio Ludemir, recupera a memória do funk carioca. Em 270 páginas, a compilação traz as histórias dos compositores e intérpretes das canções mais representativas do gênero.

Resultado de dois anos de pesquisa, o livro narra as origens de canções emblemáticas como “Feira de Acari”, do MC Batata (que fez sucesso na trilha sonora da novela “Barriga de aluguel”, em 1990), “Rap do Silva”, do MC Bob Rum, e também de hits mais recentes, como “Boladona”, da Tati Quebra-Barraco, e “Fala mal de mim”, da MC Beyoncé. A seleção contou com outros dois curadores, além de Ludemir: o jornalista musical Rafael de Pino e o pesquisador Ecio Salles, criado em Olaria.

– A partir da curadoria deles, acrescentei meus pitacos. Quis incluir um representante da Batalha do Passinho e o Nego do Borel, por exemplo, que é um cara que eu adoro, eu me amarro – diz Ludemir, fazendo graça com o título da música que tornou famoso o funkeiro adepto das letras sobre ostentação.

Criador da Batalha do Passinho e da Flupp (Festa Literária das Periferias), Ludemir faz questão de passear pela trajetória dos bailes em “101 funks”, porque, para ele, não “existe funk sem o baile”.

– Tudo começou nos grandes bailes de subúrbio, nos anos 80, quando a juventude circulava pela cidade livremente – conta Ludemir, citando o “Rap do Pirão” (”Ô alô Pirão, alô, alô, Boa Vistão”) como um representante desta fase. – Já na década de 90, o funk foi para a favela e se ligou ao crime, criando letras em português a partir de batidas americanas. Foi a época do proibidão e dos MCs cantarem a realidade de suas próprias comunidades. Surgiram, então, os primeiros grandes letristas, como Claudinho & Buchecha e MC Leonardo.

Após passar por uma polularização nos anos 2000 (“A senhora Xuxa Meneghel teve um papel importante nisso”, diz Ludemir), o batidão finalmente chegou ao mainstream. Apesar de não carregarem mais o rótulo de funkeiros, os hoje popstars Anitta e Naldo também foram incluídos no livro financiado pelo Edital do Funk, da Secretaria de Estado de Cultura.

– Esse é um novo momento para o Brasil e para o funk, e ele não podia ficar de fora da compilação. Hoje, vemos grandes artistas falando para o mercado, como Anitta, Naldo e Koringa. Eles representam a entrada do funk no mercado formal, e ver a Anitta como garota-propaganda de supermercado e lingerie é o grande símbolo disso – analisa Ludemir, alertando para as possíveis consequências desse fenômeno: – Precisamos tomar cuidado para que não aconteça com o funk o que aconteceu com o samba, que foi apropriado pelas elites e, atualmente, exclui os próprios criadores da cultura, que não podem pagar ingressos de R$ 100 para assistir a um show. Hoje, o samba está na Lapa, mas não está na favela. Por enquanto, as comunidades ainda são funkeiras.

A história do funk através dos hits

A compilação “101 funks” ainda conta o que aconteceu com os “funkeiros de um hit só”. MC Créu, Deize Tigrona, Vanessinha, MC Frank e Menor do Chapa (intérpretes de “Ah, eu tô maluco”) são lembrados pelo livro. Naldinho, autor do sucesso “Um tapinha não dói”, por exemplo, chegou a gravar dez CDs pela Furacão 2000, lançou seis DVDs e, hoje, canta funk gospel como MC Naldinho BP O Pacificador.

– Não tenho vergonha nenhuma de falar sobre o meu passado e fico muito feliz de ter participado da história do funk carioca. Agora, estou gravando um CD gospel e, se o pastor permitir, quero misturar a influência funkeira ao som – afirma Naldinho.

O livro de Ludemir ainda recupera a história de personagens importantes para o gênero, como Andinho. Com uma vasta carreira no mundo do funk, o carioca responsável pelos sucessos “Já é sensação” e “Corpo nu” até hoje compõe músicas para intérpretes – Naldo e Marcinho entre eles. Muita gente não sabe, mas é dele também o hit “Baba”, de Kelly Key.

– Sinto um orgulho enorme só de saber que o funk está sendo lido, além de ouvido. É importante iluminar essa história, para que o funk passe a ser respeitado como um movimento – opina Andinho, que até hoje tem a agenda lotada de shows em casas de espetáculos, casamentos, festas de formatura e de debutantes.

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