Colégio pediu a mãe de aluno que cortasse cabelo “black power” do garoto.
Diretora da escola de Guarulhos se defendeu das acusações de racismo.

Publicado por G1

1A direção do colégio particular Cidade Jardim Cumbica, de Guarulhos, na Grande São Paulo, negou as acusações de racismo por ter pedido a um de seus alunos que diminuísse o comprimento do corte de cabelo e por ter afirmado que o estilo “black power” não era “usado pelos alunos” na escola.

Segundo os relatos da mãe e da escola, o impasse começou em agosto, quando a família recebeu a recomendação de cortar o cabelo do filho. Mais de dois meses depois, em 3 de dezembro, Maria Izabel procurou a Polícia Civil após não ter conseguido fazer a rematrícula do aluno. Ela alega racismo, enquanto a escola diz que a mãe perdeu o período encerrado em 14 de novembro.

De acordo com Alaíde da Cintra, diretora da escola, “a instituição tem diversos alunos negros, orientais, de todas as raças e, nos 23 anos de fundação, nunca houve preconceito”.

Já a administradora Maria Izabel Neiva, mãe do garoto Lucas Neiva, de 8 anos, é enfática ao afirmar que a rematrícula do garoto foi vetada por racismo.

Segundo Maria Izabel, o filho estuda no colégio há três anos e, até então, nunca tinha enfrentado problemas, pois não costumava o usar o cabelo comprido. Foi em 2013 que o garoto adotou o novo visual. Ela conta que Lucas faz aulas de teatro e realiza trabalhos no meio artístico, inclusive comerciais. Devido a um contrato com uma produtora, ele não pode cortar o cabelo, pois isso mudaria seu perfil, de acordo com a mãe.

Recado escrito por professora diz que o próprio aluno reclamou do cabelo (Foto: Reprodução/TV Globo)

Recado escrito por professora diz que o próprio
aluno reclamou do cabelo
(Foto: Reprodução/TV Globo)

Bilhete na agenda

Os desentendimentos entre escola e família começaram com um bilhete na agenda escolar do garoto, escrito em 15 de agosto. Nele, a escola pedia que o comprimento do cabelo crespo do garoto fosse cortado.

“Pedimos que o Lucas tivesse o cabelo cortado, pois, no horário do intervalo, ele corria, suava e depois ficava coçando muito a cabeça. A professora viu que o garoto estava incomodado e alertou a mãe. O cabelo dele estava maior do que foi mostrado na reportagem e acabava atrapalhando a visão também”, afirmou a diretora. A mãe do garoto diz que, realmente, o cabelo de Lucas estava maior que atualmente, mas que isso não justifica a postura da escola.

Além da acusação de racismo, a mãe de Lucas diz que o garoto passou a sofrer com brincadeiras de mau gosto de colegas de classe depois que foi retirado da sala, no meio da aula, para conversar com a diretora a respeito do cabelo. Por conta das piadas, a criança teria até pedido à mãe para trocar de colégio.

'Corte não é usado aqui no colégio', diz professora de Lucas (Foto: Reprodução/TV Globo)

‘Corte não é usado aqui no colégio’,
diz professora de Lucas
(Foto: Reprodução/TV Globo)

“Eu disse pra ele [Lucas] que era preciso enfrentar a situação. Depois, com o tempo, as zoações foram diminuindo. Mas isso, pra mim, foi bullying. Um bullying que partiu da direção do colégio”, relatou a administradora.
A diretora se defendeu: “Isso não existe. Se as brincadeiras acontecem e passam a se repetir, a criança normalmente reclama para a professora. E nós temos profissionais pedagógicos preparados para prestar todo o apoio à família e ao aluno caso houvesse uma situação dessas. Uma coisa que eu não entendo é porque ela só informou isto agora. Até então, não tínhamos nem conhecimento”, alegou a diretora.

A diretora disse que a escola fez seu papel de cuidar do aluno ao escrever um bilhete sobre o tamanho do cabelo. “A mãe interpretou tudo errado. Nem em sonho me passa isso, de racismo. Ela está sendo muito cruel. Se o garoto sofre racismo e bullying aqui por que ela ainda queria rematriculá-lo?”, indagou.

Rematrícula

Para a mãe Maria Izabel, a rematrícula do garoto foi negada porque ela não acatou ao “pedido discriminatório”. A diretora do colégio classificou como “absurda” a hipótese de que a falta de vaga para o aluno tenha alguma relação com o pedido feito no começo do segundo semestre. “Não há relação”, rebate a diretora.

Quanto à tentativa frustrada da mãe de renovar a matrícula de Lucas para o ano seguinte, Alaíde explica que, por meio de uma circular entregue aos alunos, todos os pais foram informados que teriam até o dia 14 de novembro para efetuar a rematrícula. Depois da data, eles estariam sujeitos à disponibilidade de vagas. Segundo a diretora, a escola não tem como fazer checagens individuais com cada família para questionar sobre a decisão de não fazer a rematrícula.

“O período da manhã, para a idade do Lucas, é um dos mais procurados. Somos uma escola particular e, como qualquer empresa, precisamos de clientes, no caso, alunos. Não negaríamos matrícula a um aluno, ainda mais um com histórico tão bom como o Lucas. A questão é que não havia mais vagas para aquela turma. O que sugerimos é que a mãe preenchesse o formulário para a lista de espera, afinal, sempre tem a possibilidade de alguém se transferir e abrir uma vaga. Ela se irritou e começou a gritar na secretaria”, completou.

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