Mariana Versolato na Folha de S.Paulo

Crianças que saboreiam pratos repletos de legumes, dormem no mesmo horário todos os dias sem reclamar e não matam os pais de vergonha com ataques de birra em público podem parecer um sonho para muitos pais.

Não na França, onde essa é a regra, e não a exceção –ao menos segundo dois livros lançados neste ano no Brasil e que retratam as crianças francesas como exemplo de boas maneiras e alimentação.

Para os pais que sentem que os filhos tomaram as rédeas da casa, as obras podem parecer uma tábua de salvação, a julgar pelos títulos.

“Crianças Francesas Não Fazem Manha” (R$ 29,90, 269 págs., ed. Fontanar), da jornalista americana Pamela Druckerman, e “Crianças Francesas Comem de Tudo” (R$ 44,90, 320 págs., Editora Alaúde), da canadense Karen Le Billon, tratam do choque cultural que essas duas mulheres sentiram ao se mudarem para a França e criarem seus filhos no país.

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A professora de francês Corinne Alexandre e seus dois filhos, Lorenzo, 5, e Leonardo, 1 ano e 10 meses, em sua casa em São Paulo

Druckerman, que é mãe de três crianças e vive na França há dez anos, explica que há uma crise global nas famílias de classe média, todas com medo de dizer “não”.

“Os pais do mundo todo estão em busca de alternativas à ‘criação intensiva’, que dá tanta atenção e poder aos filhos. Os franceses não são perfeitos, mas são um contraponto a esse modelo porque são mais conservadores e pragmáticos”, disse à Folha.

Em 2014, será lançado no Brasil o novo livro de Druckerman, “French Parents Don’t Give in” (algo como “Pais franceses não cedem”, ainda sem título definido em português).

A base das orientações é impor limites, e um dos conceitos-chave é o que a autora apelidou de “pausa”: não socorrer a criança imediatamente sempre que ela chamar e ensiná-la a esperar a vez –não interromper os pais quando estão conversando, por exemplo. A “pausa” ajuda os pequenos a desenvolver o autocontrole e lidar com a frustração.

Ela ressalta que muitos desses conceitos não são novos nem tão “franceses”, mas diz que as famílias da França são boas em manter o que funciona. “Muitas das ideias `francesas’ parecem simplesmente baseadas em bom senso.”

ORIGEM DA TIRANIA

Para a psicanalista Marcia Neder, autora de “Déspotas Mirins”, o segredo da criação francesa está na importância que os adultos dão para a relação amorosa.

“O casal não se torna ‘papai’ e ‘mamãe’. A criança é importante, claro, mas ela deve se adaptar à vida dos pais, e não o contrário. Em muitos países, incluindo o Brasil e os EUA, nada é mais importante que o filho, e por isso ele ganha tanto poder”, afirma.

No Brasil, diz ela, a renúncia à vida amorosa está ligada ao sacrifício que as mulheres precisam fazer para provar que são boas mães.

“A raiz da tirania dos filhos está numa idealização da maternidade de que é preciso amar o filho acima de nós mesmos. Se ele chora, você precisa sair correndo ou será considerada relaxada e egoísta. Não é permitido ter raiva ou exigir muito da criança.”

Segundo a filósofa Tania Zagury, professora da UFRJ e autora do livro “Limites sem Trauma”, a ideia de que os limites poderiam causar problemas emocionais aos filhos deixou os pais inseguros. “Há cerca de 30 anos os pais diziam “não” sem problemas. Hoje, sentem-se monstros quando fazem isso.”

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À MESA

As regras e os limites também aparecem à mesa. Parece mentira, mas no livro “Crianças Francesas Comem de Tudo”, a canadense Karen Le Billon conta que as comidas preferidas de sua filha Sophie, 7, são beterraba, alho-poró e mexilhões.

Antes de ela e a família irem para a França o jantar era um “purgatório”, mas depois aprenderam o que ela chama de “regras de ouro”. Uma delas é não separar “comida de adulto” e “comida de criança”. A outra é fazer refeições em família e desfrutar desse momento.

“Para nós, o prazer de comer é primordial. Comer não é só nutrir; é um momento de relaxar e compartilhar”, diz Sophie Deram, nutricionista do ambulatório de obesidade infantil do Hospital das Clínicas da USP que mora há 14 anos no país.

A diferença na alimentação entre Brasil e França foi o que mais chamou a atenção da professora de francês Corinne Alexandre, 40, mãe de Lorenzo, 5, e Leonardo, de 1 ano e dez meses, que mora em São Paulo.

“As comidas são muito doces e há muito sal. Bebida açucarada na refeição também não faz parte da nossa cultura. Para os brasileiros, acho que pareço rígida. Às vezes é um pouco frustrante porque tentamos fazer o melhor com as nossas referências.”

Já a consultora da indústria farmacêutica Katherine Alter, 44, que mora no Brasil há dois anos com o marido e os dois filhos, se assustou com a quantidade excessiva de comida.

“Fico incomodada com festas nos bufês infantis porque em três, quatro horas são servidos muitos alimentos calóricos e refrigerante à vontade”, diz ela. Na festa de quatro anos do filho dela, na França, o momento da refeição era bem definido. Todas as crianças dão uma pausa na atividade que estão fazendo para sentar-se à mesa e desfrutar dos quitutes.

Todas elas, no entanto, criticam o estereótipo da criança francesa que sempre come e se comporta bem. “É como dizer que toda mulher francesa é magra”, diz Deram.

Katherine também faz críticas à tão elogiada educação francesa. As escolas de lá, por exemplo, podem ser muito críticas e tratar as crianças de forma ríspida, afirma.

“Na França, espera-se que as crianças se comportem em restaurantes e quem sai da linha é criticado. Isso pode ser positivo, mas pode ter efeitos negativos na autoestima delas. É um alívio chegar em um restaurante no Brasil com dois meninos pequenos e ser cumprimentada por pessoas felizes em ver crianças.”

Para especialistas, livros como esses não devem ser necessariamente copiados em casa, mas podem servir de inspiração para uma vida em família menos caótica.

“Em vez de importar as regras de outra cultura, o ideal é construir seu próprio modelo. Os pais precisam entender que o papel deles não é deixar o filho feliz o tempo todo, mas garantir uma formação para a vida. A partir daí, é confiar na própria intuição”, afirma Zagury.

 

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