Alunos de Xangai fizeram maiores média do Pisa em matemática.
Para educador, método de ensino privilegia cálculo e prejudica criatividade.

Publicado no G1

Estudantes gritam frases como 'Eu preciso ir para a faculdade' e 'Pai e mãe, eu amo vocês' após uma palestra para elevar a moral dos alunos antes de exames em um colégio de Nanjing, na China. (Foto: Sean Yong/Reuters)

Estudantes gritam frases como ‘Eu preciso ir para a faculdade’ e ‘Pai e mãe, eu amo vocês’ após uma palestra para elevar a moral dos alunos antes de exames em um colégio de Nanjing, China. (Foto: Sean Yong/Reuters)

Primeiro lugar no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2012, a província de Xangai, na China, tem um exigente sistema de ensino que cria vantagens e deficiências na formação dos seus estudantes. Cálculo e memorização do conteúdo são as prioridades no ensino, deixando de lado a criatividade e a capacidade de análise e de expressão. Além de passar a manhã e a tarde na escola, os alunos da China estudam em casa quase três vezes mais que a média mundial. A maioria gasta em média 13,8 horas diárias fazendo lição de casa, segundo o governo chinês. A média mundial é de 4,9 horas.

Especialistas chineses ouvidos pela Agência Efe afirmam que por causa da forte competição da sociedade local, os alunos passam todo o tempo livre estudando, e que é preciso alcançar um equilíbrio saudável.

A China aparece dividida em províncias no relatório do Pisa. Xangai ficou em primeiro lugar nas três áreas avaliadas: matemática, leitura e ciências. Hong Kong e Macau, outras províncias do país, ficaram em terceiro e sexto lugares, respectivamente, na avaliação de matemática. O Brasil ficou na 58ª posição entre 65 países avaliados. A prova é aplicada a alunos de 15 anos de idade. Cerca de 6,4 mil alunos de 155 escolas de Xangai fizeram a prova do Pisa.

Estudante faz exercícios para treinar para a prova do 'Enem Chinês' (Foto: Reuters)

Estudante faz exercícios para treinar para a prova do ‘Enem Chinês’ (Foto: Reuters)

O relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que contou com a participação de meio milhão de adolescentes, serve de referência para os países estabeleceram políticas públicas de educação. No caso da China, vai servir também para uma reflexão sobre os caminhos nos quais os jovens estão seguindo.

Estudantes da China sofrem uma grande pressão de pais, professores e da sociedade em geral. Só quem alcança um sucesso acadêmico consegue competir por um bom emprego no país mais populoso do mundo. Para o professor de psicologia Sun Shijin, da Universidade Fudan de Xangai, as críticas que este método de ensino recebe do Ocidente “são razoáveis”.

Estudantes chineses em Pequim (Foto: Alexander F. Yuan/AP)

Estudantes chineses em Pequim (Foto: Alexander F. Yuan/AP)

Para o professor, a pressão que recebem, combinada a um grande número de horas de estudos que de tão intensa não deixa tempo livre para o jovem fazer outra coisa a não ser estudar, pode prejudicar o desenvolvimento saudável da sua personalidade e suas habilidades sociais.

“O ensino na Ásia em geral promove mais o cálculo e armazenamento de conteúdo em vez de desenvolver habilidades analíticas, imaginação e iniciativa pessoal “, admitiu Sun.  “O fato de Xangai tem tirado os melhores resultados nos testes do Pisa é uma boa notícia,  mas por outro lado , os estudantes chineses estão gastando mais tempo estudando do que outras partes do mundo, e estão fazendo um grande sacrifício.”

Alunos assistem ao lado da bandeira chinesa a cerimônia de graduação na Universidade de Fudan, em Xangai. (Foto: Aly Song/Reuters)

Alunos assistem ao lado da bandeira chinesa a cerimônia de graduação na Universidade de Fudan, em Xangai. (Foto: Aly Song/Reuters)

Estudantes chineses são forçados a tomar cuidado para ser muito bom em cálculo e memorização de conteúdos, mas eles não são ensinados a se expressar, a comunicar suas ideias ou a trabalhar em equipe. “Essas críticas são razoáveis, embora a opinião da sociedade está começando a mudar , porém ainda não é suficiente”, disse Sun . “Esta prova do Pisa faz sentido para uma sociedade em desenvolvimento industrial, mas não para uma sociedade informatizada e de serviços como começa a ser a China.”

Para Sun, em uma sociedade desenvolvida é muito mais importante fomentar as habilidades de criatividade e comunicação do que a de cálculo e memorização de conteúdo. O pesquisador acredita que a China logo vai tomar consciência disso.

enem chinês (Foto: Reuters)

Jovem segue para prova do ‘Enem chinês’
(Foto: Reuters)

‘Enem chinês’
Depois do ensino médio, os jovens chineses fazem o exame nacional de admissão para a universidade, o gao kao, uma espécie de “Enem chinês”.

O futuro dos jovens que terminam o ensino médio é definido por uma bateria de cinco provas nestes dois dias, cada um com nove horas de duração. Com a nota do exame, os alunos tentam entrar em uma vaga em uma das universidades chinesas. As universidades definem um número limitado de vagas de acordo com os cursos e as modalidades oferecidas.

Zhang Minxuan, presidente da Universidade de Professores de Xangai, coordenou as provas do Pisa na China. Ele diz que os estudantes traduziram bem problemas práticos reais em exercícios matemáticos, mas tiveram dificuldades para expressar e raciocinar sobre os resultados obtidos. “É bom ver que nossos estudantes fizeram o Pisa tão bem, mas vale a pensa penser se a gente precisa de tantos alunos tão bons em matemática.”

“É necessário um equilíbrio entre o estudo e o tempo livre para o desenvolvimento pessoal”, destacou Sun. Ele citou como exemplo a ser seguido o comportamento da Finlândia. “Consegue bons resultados no Pisa, mas não há uma competitividade tão forte entre seus alunos e não tem tanta carga de estudos. Eles respeitam o estudante, e é algo que a China ainda precisa aprender.”

Pais, professores e amigos se despedem dos alunos da escola Maotanchang, na província de Anhui, na China, que vão fazer o gao kao (Foto: China Daily/Reuters)

Pais, professores e amigos se despedem dos alunos da escola Maotanchang, na província de Anhui, na China, que vão fazer o gao kao (Foto: China Daily/Reuters)

Finlândia cai
A Finlândia, no entanto, caiu no ranking de matemática, de 5º lugar em 2009 (541 pontos) para 12º lugar em 2012 (519 pontos). A educação finlandesa já liderou o ranking dez anos atrás. A ministra da Educação da Finlândia, Krista Kiuru, alega que o declínio do desempenho do país está relacionado a uma falta de motivação dos alunos.

“Avaliações anteriores já sinalizaram declínio nos resultados da aprendizagem, onde as atitudes em relação à escola tornaram-se menos positiva entre os alunos e a sociedade”, disse a ministra. “Além de fortalecer a igualdade , devemos encontrar meios para melhorar e manter a motivação em aprender e estudar e tornar as escolas um bom ambiente para os alunos.”

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