Paula Chouza no El País

1386272463_638640_1386273073_noticia_normalO primeiro livro do brasileiro Otávio César de Souza Júnior saiu do lixo. Ele tinha oito anos e todos os dias passava ao lado de um campo de futebol do Complexo do Alemão, uma das regiões mais violentas do Rio de Janeiro. Ali se criou com o sonho de ser jogador de futebol, mas os adolescentes que ocupavam o local não deixavam que ele participasse das partidas.

Um dia, revirando o lixo, encontrou uma caixa com brinquedos e um livro. Enquanto seus amigos brigavam pelos melhores itens, ele pegou a publicação e foi para a casa, embora não tenha voltado a revê-la até o dia em que o velho aparelho de TV de sua casa deixou de funcionar. “Passei a noite maravilhado com aquele novo mundo que acabava de descobrir, e no dia seguinte perguntei à professora por que a biblioteca da escola estava fechada. Ela a abriu e desde então eu era o único que lia ali”. Quando a biblioteca do colégio ficou pequena para ele, passou a conquistar a de sua região. “Caminhava 40 minutos da minha favela para chegar”.

Otávio Júnior tem hoje 30 anos e, além de escritor, ator, contador de histórias e produtor teatral é fundador e coordenador do projeto “Ler é 10-Leia favela”, que tem como objetivo a abertura de bibliotecas no Alemão. A missão do programa é mostrar a crianças -80% dos participantes- e jovens que os livros podem abrir portas que a injustiça social e a ausência do Estado se empenham em fechar. Ele também ganhou o Prêmio Nacional “Madre Teresa de Calcutá 2012”, na Argentina, pelo serviço à comunidade.

“Vivia em uma comunidade muito violenta, com uma realidade muito difícil, com narcotraficantes e confrontos constantes com a polícia. Lembro que ficava muito triste porque os traficantes eram vistos como heróis no Rio: compravam as melhores roupas, os melhores sapatos, tinham os carros mais caros”. De modo que decidiu “inverter os valores” através da literatura.

“Quando disse que queria ser escritor meus amigos riram de mim: nunca vai conseguir, me disseram”. Começou andando pela comunidade carregando uma mala com livros, estendia um tapete e convidava as pessoas que se aproximavam a ler. Hoje a comunidade conta com uma biblioteca fixa e outras itinerantes para tratar de fomentar a leitura e “promover o desenvolvimento da liberdade de pensamento”. O projeto inclui também atividades culturais fora da comunidade: visitas à Biblioteca Nacional no centro do Rio -a oitava maior do mundo-, idas a livrarias, passeios culturais ou cinema. “Muitos desses meninos não tinham dinheiro para isso, de forma que, através da literatura, também tentamos fazer com que saiam de seus limites geográficos. Em sua opinião, o programa, “que foi crescendo na medida em que os jornalistas o divulgaram”, ajudou a mudar a realidade social do local.

Nesta quinta-feira, em palestra no âmbito da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, Otávio Júnior se emocionou ao lembrar o início difícil e narra como em 2007 chegou a participar de um reality show para arrecadar fundos. Após caminhar sobre a corda bamba, ganhou 5.000 dólares (11,8 mil reais) que doou ao projeto. “A princípio me consideravam uma espécie de Dom Quixote, me conheciam como o louco dos livros”. Após o reconhecimento internacional, ele fala orgulhoso: “Minha história é um conto de fadas em uma favela”, conclui.

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