Obra apresenta 171 imagens da coleção de mais de 30 mil itens da instituição
Nomes como Rembrandt, Goya, Piranesi e Callot estão na publicação

Le Antichitá Romane, obra do italiano Giovanni Battista Piranesi (1720-1778) Reprodução

Le Antichitá Romane, obra do italiano Giovanni Battista Piranesi (1720-1778) Reprodução

Nani Rubin em O Globo

Quando D. João VI partiu para o Brasil, trazendo, posteriormente, o acervo da Real Biblioteca esquecido no Porto de Lisboa, não foi apenas uma formidável coleção de livros que aportou no Rio de Janeiro. As milhares de caixas transportadas em três navios incluíam, além de partituras, mapoteca e generalidades como moedas e uma rica coleção de gravuras, com exemplares doados ou adquiridos ao longo dos anos pelos monarcas portugueses.

Guardada no setor de iconografia da Biblioteca Nacional, a coleção tem hoje mais de 30 mil exemplares, raramente exibidos ao público — em 2012, nos 200 anos da instituição, houve uma exposição comemorativa no Centro Cultural Correios. Agora, uma parte desse rico acervo ganha um livro, “Mestres da gravura — Coleção Fundação Biblioteca Nacional”, com lançamento nesta quarta-feira, às 18h30m, na Biblioteca Nacional.

Técnica e arte

O volume de 240 páginas, coeditado pela Artepadilla, Caramurê Publicações e Fundação Biblioteca Nacional, foi organizado pela pesquisadora e historiadora da arte Fernanda Terra, que trabalhou fazendo um recorte a partir do núcleo original da coleção, de obras do século XV ao século XVIII.

— Estudei os artistas mais importantes e delimitei em 78 gravadores, divididos em oito coleções. Em cada uma delas, eles aparecem em ordem cronológica. Conseguimos, assim, visualizar as mudanças técnicas da gravura através dos séculos — diz Fernanda.

São 171 gravuras, divididas nas coleções italiana, alemã, holandesa, flamenga, francesa, inglesa, espanhola e portuguesa. Nelas, há nomes importantes como o italiano Piranesi (1720-1778), que aparece com as séries “Le carcere d’invenzione” e “Le Antichità romane”. Albrecht Dürer (1471-1528), com a famosa série do Apocalipse e a bela “Adão e Eva” (1504), com uma imensa variedade de tons e texturas, na qual transparece o interesse do artista pelo estudo das proporções humanas.

Na coleção holandesa, destacam-se Rembrandt (1606-1669), com 12 gravuras, entre as quais quatro autorretratos, e Lucas van Leyden, cujas obras, retratando cenas cotidianas como uma ida ao dentista, são consideradas raríssimas, já que o artista, muito exigente, inutilizava as chapas que apresentassem um mínimo defeito. Na espanhola, há Goya (1746-1828) — o maior pintor do país no século XVIII era um exímio gravador, que deixou 300 peças do gênero. No livro, há nove da série “Os provérbios” e cinco que ilustraram uma edição de “D. Quixote”, de Cervantes. O francês Jacques Callot (1592-1635) surpreende pelo uso da perspectiva, em gravuras que descrevem “as misérias e as tristezas da guerra”.

— É uma coleção fantástica, um material muito valioso — diz Fernanda. — Com ela já no Brasil, foram sendo agregadas novas coleções, como a da oficina Arco do Cego, de Lisboa, e a do Conde da Barca. Já no fim do século XIX, D. Pedro II doou sua coleção particular, a Coleção Thereza Christina Maria, com mais de cem mil itens, que incluía 18.847 estampas.

Coleção no acerto de contas

A historiador Lilia Moritz Schwarcz, que assina um dos cinco textos do livro, observa que a coleção era tão valiosa que, na “famosa conta que o Brasil teve que pagar a Portugal pela sua independência, a biblioteca surgiu em segundo lugar, depois da dívida pública”:

— Dá para se mensurar a importância em dinheiro, mas havia a importância simbólica, de um país tão jovem como era o Brasil com uma biblioteca do tamanho dessa, só comparável, no continente, à dos Estados Unidos. Fazia parte do tecido de uma biblioteca, na época, que ela tivesse um setor de estampas como essa. E a da então Biblioteca Imperial e Pública da Corte tinha uma coleção invejável mesmo de grandes mestres da gravura.

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