Série do GNT e livro reúnem histórias do autor que vão da conquista à separação

1461376_559883744092036_983552578_n

Maurício Meireles em O Globo

PORTO ALEGRE – Até que, para quem está casado há 50 anos com a primeira mulher que namorou pra valer — “A verdadeira Lúcia Verissimo”, nas palavras do marido —, Luis Fernando Verissimo tem experiência com o amor. Um tema recorrente em seus textos, que ele escreve há mais de 40 anos, afinal, são os casais se apaixonando, convivendo ou se desfazendo. Agora, parte dessas histórias vai virar livro e série de TV. O GNT lança, dia 8 de janeiro, às 22h30m, “Amor Verissimo”, dirigida por Arthur Fontes, com 13 episódios inspirados em textos do autor que tratam de relacionamentos. No dia 15 do mesmo mês, a editora Objetiva, inspirada pela série, lança um livro homônimo, com 50 textos. São histórias sobre sedução, traições, obsessões, sexo, taras, corações partidos — e até os apelidinhos íntimos (e ridículos) dos casais.

Colunista do GLOBO e vencedor do último Prêmio Jabuti (com “Diálogos impossíveis”), Verissimo abriu sua casa, em Porto Alegre, anteontem, para uma sessão dos primeiros episódios da série. E falou do novo livro e de suas experiências com o amor. Quer dizer, falar não é bem o forte do autor gaúcho. Dono de uma timidez já conhecida, suas frases são marcadas por um falar manso e silêncios compridos. Dá até para fazer um estudo matemático de sua timidez: a entrevista propriamente dita teve 50 perguntas, que Verissimo respondeu em 40 minutos — menos de um minuto por resposta. Isso sem contar os silêncios.

Amores que não dão certo

Tudo bem, a vida de Luis Fernando Verissimo é um livro entreaberto, mas de onde vem toda essa experiência com o amor, depois de 50 anos casado?

— Até chamaram a minha atenção para o fato de eu escrever muito sobre casais se desfazendo. Não tem nada de autobiográfico — diz Verissimo, 77 anos, lembrando que hoje não circula muito por aí, mas que, jovem, teve “bastante experiência” com o amor.

A primeira foi aos 7 anos. Ele se apaixonou por uma garota da escola em que estudava, em Los Angeles, onde a família morava. Para se aproximar da jovem paixão, o escritor roubou uma pulseira de casa (“Nada de valor”). A história está contada na crônica “A pulseira”, incluída no livro.

— Mas eu entreguei a pulseira e saí correndo! Nunca nos falamos, ela não entendeu nada. Minha vida no crime foi por amor — diz o autor, que sentiu medo de, na hora da declaração, se confundir com o inglês e acabar dizendo “My love is name and I Luis you.”

Coisa séria mesmo só com Lúcia Verissimo (a verdadeira, vale lembrar), com quem começou num namoro de escritório, outro tema clássico de suas histórias. Eles trabalhavam juntos e estavam “ficando”. Um dia, o escritor venceu a timidez, comprou uma aliança e deu um ultimato: ela tinha cinco minutos para decidir. Verissimo ainda lembra o dia: 22 de novembro de 1963 — dia do assassinato de Kennedy. Lúcia disse sim.

— Acho que eu disse algumas palavras. Algumas frases, pelo menos, tenho certeza. Estávamos mais ou menos namorando. Estamos juntos há 50 anos. Pelo visto o casamento vai dar certo — brinca Verissimo.

A diferença entre os dois também é marcante. Ela é falante, extrovertida; ele, o caladão de sempre. Mas Verissimo se defende, e diz que não fala muito porque Lúcia não deixa espaço.

— Estou há 50 anos esperando uma brecha para falar — ri.

Verissimo se esquiva na hora de falar de sua vida amorosa antes de Lúcia. No livro “Conversas sobre o tempo”, uma entrevista que ele e Zuenir Ventura deram a Arthur Dapieve, em 2010, ele menciona a história de uma húngara que…

— Eu contei a história da húngara?! Não me lembrava. Ela era masoquista — diz o tímido, meio espantado consigo mesmo.

Pois é, contou. Aos 23 anos, Verissimo foi com a família à Europa, pela primeira vez, onde passaram quatro meses. Um dia, começou a conversar com uma húngara em um café, rolou um clima e os dois foram para o quarto. O caso não deu certo porque a húngara queria apanhar.

Também há a história de quando Verissimo era um Odair José gaúcho. Ele se esquiva da pergunta — e Lúcia, que está presente, prefere sair da sala (“Eu não me meto nesse assunto”) —, mas confirma que costumava se apaixonar por garotas de programa na juventude.

— Tinha um pouco daquilo de “Quero tirar você dessa vida”. Mas também não fui muito disso — afirma Verissimo, lembrando que, embora fosse romântico, não teve nenhum grande amor naquela época.

O escritor gaúcho assistiu a “Amor Verissimo” com um sorriso no rosto. Achou que o diretor, Arthur Fontes, conseguiu explorar o humor de uma forma parecida com o Porta dos Fundos, do qual é fã.

— Achei que o programa ficou um pouco na linha do que eles fazem. Essa interpretação mais sutil, com aqueles silêncios. Gosto dessa coisa de nem sempre buscar a gargalhada. Às vezes um sorriso basta — defende Verissimo.

O diretor do programa afirma que buscou textos do autor nos quais “coisas estranhas” acontecem. Como “História de verão — Uma leve brisa”, em que um dos personagens apresenta a nova namorada aos amigos, que ficam boquiabertos com a beleza, simpatia e inteligência da mulher, interpretada por Luana Piovani. Não bastasse isso, a tal ainda tem uma brisa “mágica” que sopra nos seus cabelos. “Ela parece um show da Beyoncé”, define um dos personagens.

— Adoro essas histórias com coisas inexplicadas. Costumo chamar essa veia do Verissimo de surrealismo light. Também prefiro dirigir as histórias com mais pausas e silêncios — diz Arthur Fontes.

Sem apelidinhos

Na série “Amor Verissimo”, a narrativa é entrecortada com depoimentos dos personagens e de casais reais, interpretados por atores, como Fernanda Paes Leme, Letícia Colin e Gabriela Duarte, em um sofá. As histórias de amor, roteirizadas a partir de entrevistas, são uma homenagem ao diretor Eduardo Coutinho e a seu “Jogo de cena” (2007).

No livro, a galeria de personagens é ainda maior: Don Juan, a grávida que chora por pena do detergente que não lava mais branco e o Corno Lírico, entre outros. Os apelidinhos dos casais, como “bituquinha” ou “pituxo”, também são uma das marcas dos textos do autor sobre a vida a dois. Mas qual seria o apelido de Verissimo no casamento? Ele jura que não tem.

Trecho retirado da crônica “Sexo, sexo, sexo”, do livro “Amor Verissimo”, que a Objetiva lança no dia 15 de janeiro

“Rudi Mentar, analista de sistemas. ‘Língua na orelha. Decididamente, língua na orelha. O resto é para não iniciados.’

(…)

Flora Medicinal, motorista. ‘Gostava muito mais do método antigo de reprodução humana. Lembra como era? Tiravam uma costela do homem, por cesariana, sem anestesia, e faziam outra pessoa. A mulher ficava só na vida mansa, não era nem com ela. Depois mudou tudo e hoje é a mulher que sofre para dar cria.’

(…)

Mara Zul, nutricionista e vidente: ‘Usar sexo só para reprodução é como só sair com o carro para levar na oficina’

(…)

Manuela Bacal, bibliotecária. ‘Todo mundo conhece o sadismo, que é o sexo feito à maneira do Marquês de Sade, e o masoquismo, que é o sexo como gostava o Barão de Masoc, mas pouca gente sabe que existem outras taras sexuais ligadas à literatura. Por exemplo: o Jorge Luís Borgismo, quando o homem só chega ao orgasmo sendo açoitado por uma estudante de linguística dentro de um labirinto. O Ernest Hemingwayismo, que é quando o homem só se satisfaz transando com uma mulher e atirando num leão, ou vice-versa, ao mesmo tempo.’”

Maurício Meireles viajou a convite do GNT

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments