A artista americana borda fragmentos de textos e cria uma enigmática arte visual

Alice Sant’Anna em O Globo

Aos 26 anos, Francesca cria inusitados experimentos entre bordados e literatura Divulgação

Aos 26 anos, Francesca cria inusitados experimentos entre bordados e literatura Divulgação

RIO – Quando nos deparamos com uma página, imediatamente procuramos decifrar o que está escrito. Mas e quando estamos diante de um fragmento em outra língua? Ou em outro alfabeto? O trabalho da artista americana Francesca Capone, de 26 anos, procura embaralhar essas ideias: ao costurar na tela um bloco do que seria a mancha gráfica do texto, ela transforma a área ocupada por palavras em peça de arte visual. Assim, quem observa o bloco deve ao mesmo tempo olhar o texto e ler a imagem.

— Procuro levar em conta a natureza modular dos alfabetos, os blocos de textos, os parágrafos, as manchas e o modo como usamos as frases e os espaços para compor nosso alfabeto em palavras, frases, poemas, ensaios — explica Francesca. — A linha entre o desenho e a grafia é tão tênue que me interessa explorar em um só trabalho a mudança consciente que acontece quando reconhecemos um texto em oposição a quando reconhecemos uma imagem.

Como resultado desses experimentos, Francesca lançou o livro “Weaving language” e inaugurou uma exposição homônima no início deste ano na galeria End of Century, em Nova York. Trata-se de um dicionário visual e textual que procura explicar suas escolhas: quais estruturas bordadas servem para os verbos, quais cores são usadas para os substantivos e os adjetivos, quais tramas são costuradas para as preposições etc.

— Sou descendente de italianos, e as mulheres da minha família aprenderam o alfabeto a partir do bordado. Minha bisavó era capaz de bordar qualquer texto no tecido, incluindo diferentes fontes, e até em itálico. O conhecimento dela da linguagem era usado principalmente para o tecido, e não para a literatura.

Formada pela RISD (Rhode Island School of Design) em Têxtil, Francesca está cursando o mestrado em Literary Arts na Universidade Brown, nos Estados Unidos. Para comemorar o aniversário de 250 anos desta instituição, a artista foi convidada a elaborar um painel de seis metros de largura, que será exposto em janeiro. Ela vai trabalhar sobre um poema dos americanos Keith e Rosmarie Waldrop — ao reproduzir o texto à exaustão, o resultado final será um borrão ilegível.

— É uma homenagem a Keith e Rosmarie, figuras de importância imensurável na poesia americana desde o início da década de 1960. O poema “Light travels” contém muitas noções sobre passagem de tempo, tanto no conteúdo quanto na forma. É enumerado, e em toda sequência a estrofe da seção anterior se repete na seguinte, numa estrutura de movimento, desenvolvimento e repetição. Esses temas aparecem quando manipulo o texto, a tal ponto que o poema se torna uma obra visual, repetido até se apagar.

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