Quem nunca leu um livro completo? Existe muito mais gente do que você imagina

Emilly Miranda no Diário da Manhã

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O nível de analfabetismo em nosso País ainda é grande. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o analfabetismo no Brasil, que vinha em queda constante desde 1998, voltou a crescer no ano passado. Foram identificadas 13,2 milhões de pessoas que não sabiam ler nem escrever, o equivalente a 8,7% da população total com 15 anos ou mais de idade. Em 2011, eram 12,9 milhões de analfabetos, o equivalente a 8,6% do total. Em 2004, a taxa de analfabetismo brasileira chegava a 11,5%. Os dados estão na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2012). O levantamento consultou 147 mil domicílios em todo o Brasil.

Esse crescimento foi observado pelos números nas regiões Nordeste e Centro-Oeste. O Nordeste concentra 54% do total de analfabetos do País. Já no Centro-Oeste, região que nos abriga, a taxa de analfabetismo alcançou 6,7% em 2012, acima dos 6,3% observados no ano anterior.

O mais interessante é que o nível de escolarização no Brasil cresceu em 2012, ainda segundo informações do IBGE. O número de estudantes com nível superior completo chegou a 14,2 milhões, aumento de 6,5% frente aos dados de 2011. Entre as pessoas com 25 anos ou mais de idade, 12% tinham tal nível de escolaridade. Antes, em 2011, essa proporção era de 11,4%.

É fato que existem pessoas que nunca tenham lido sequer poucas palavras, por não ter aprendido a ler. Existem, ainda, aquelas pessoas que aprenderam a ler, foram alfabetizadas, formaram, exercem hoje uma profissão, mas admitem que nunca tenham lido um livro por completo. Como é o caso do jovem herdeiro de uma fortuna estimada em U$ 30 bilhões, Thor de Oliveira Fuhrken Batista, primogênito de um dos homens mais rico do mundo e da eterna rainha do Carnaval, o ex-casal Eike Batista e Luma de Oliveira.

Thor Batista já admitiu em entrevista à revista Veja que nunca leu um livro. O universo por onde o jovem vive é, de fato, um mundo paralelo, onde a lógica tradicional se encontra suspensa. Sua estreia à frente dos negócios aconteceu antes mesmo de ele ter concluído o curso superior. Ele se matriculou no curso de economia do Ibmec, mas logo no primeiro ano trancou sua matrícula, porque segundo ele, achou o ritmo muito puxado. Apesar de ser fluente em inglês e alemão e ter estudado em uma das escolas mais tradicionais do Rio de Janeiro, o jovem cursou supletivo para concluir o ensino médio. Ler, definitivamente, não está entre suas preferências. De acordo com ele, gosta apenas de textos sobre carros e fisiculturismo. Costuma se informar sobre negócios em um caríssimo serviço online fornecido pela agência americana Bloomberg, ao custo de U$ 5 mil. Algo, além disso, nem pensar. “Nunca li um livro inteiro”, admite e completa: “na época da escola, copiava os resumos da internet para fazer as provas”. No entanto, Thor, geralmente diz que a falta de aplicação nos estudos é compensada por um aguçado tino para investimentos. “Comprei o Aston Martin com o dinheiro que ganhei na bolsa”, afirma o jovem.

Mais do que se imagina.

Fora Thor Batista, existe muito mais gente que nunca tenha lido do que você imagina. Muitas pessoas nunca leram um livro completo por falta de incentivo, vontade, oportunidade ou preguiça mesmo.

Uma pesquisa foi realizada com 2 mil participantes no Reino Unido e se constatou que a maior parte das pessoas, cerca de 60%, admitiu mentir sobre ter lido os clássicos da literatura. A intenção, obviamente, é parecer mais inteligente. Mais da metade dos entrevistados confessou exibir em suas prateleiras livros que nunca leu. Outras táticas usadas pelos entrevistados para denotar inteligência incluem mudar a aparência, corrigir erros de gramática cometidos por terceiros, usar citações famosas em conversas e dizer ter um nível de fluência em idiomas estrangeiros maior que o verdadeiro.

O DMRevista entrevistou algumas pessoas e pôde constatar que realmente muitas delas não têm interesse por leitura. Tatiane Teixeira, 26 anos, afirmou que quase não lê por não ter afinidade com livros. “Não gosto, não sinto vontade de ler”, disse Tatiane. Quando perguntamos sobre sua preferência entre livros e filmes ela afirmou: “prefiro filmes, porque eles geralmente conseguem prender minha atenção e os livros não”, completa a jovem.

Patrícia Silva, 32 anos, já pegou livros para ler e não concluiu a leitura até o final. “Algumas vezes não terminei de ler por preguiça, porque na maioria das vezes o início da história me desanima e daí não consigo ir até o fim”. Ela afirmou que somente um livro chamou sua atenção e prendeu a leitura até o final. “Só consegui ler até o fim a trilogia dos 50 Tons de Cinza. Minhas amigas até comentavam o quanto fiquei curiosa”, reafirma Patrícia.

Livros digitais

A Agência Brasil publicou uma matéria recentemente sobre livros digitais, na qual uma pesquisa feita pela  Câmara Brasileira do Livro (CBL) apontou que o mercado deste tipo de livro cresceu mais de 350% de 2011 para 2012. Mesmo assim, ainda não alcança 1% do faturamento das editoras no País. Segundo a diretora da CBL, Susanna Florissi, o livro digital, ou eBook, já é uma realidade, mas tanto o mercado editorial como os consumidores ainda precisam se adaptar à nova plataforma de leitura.

Esse setor ainda está engatinhando em nosso País, no início de seu desenvolvimento, mas boa parte do mundo já está acostumada com os e-book’s. De acordo com a pesquisa da CBL, 68% das editoras comercializam livros digitais, sendo que 59% ainda estão inseguras quanto ao formato a ser utilizado. Do total que respondeu a pergunta, 58,7% usam plataformas dos canais de venda e 52,4% usam distribuidoras digitais. A maioria das editoras, 70%, vendem o arquivo com DRM, um tipo de bloqueio que não permite que sejam feitas cópias.

Segundo Câmara Brasileira do Livro, grandes corporações como Apple Store e Google Play são os principais meios de venda do livro digital. Outra prova da tendência da digitalização dos livros é o sucesso do Portal Domínio Público, do Ministério da Educação (MEC). Criado em 2004 com 500 obras, hoje são 171.311 obras disponíveis, a maioria de textos, mas também há imagens, sons e vídeos.

Entre os destaques do Domínio Público estão a obra completa de Machado de Assis, disponibilizado por ocasião do centenário de morte do escritor, em 2008, poemas de Fernando Pessoa, peças de William Shakespeare, Sófocles e Gil Vicente, livros de Joaquim Nabuco, Aluísio Azevedo, Eça de Queiroz, Miguel de Cervantes e Julio Verne, além de literatura infantil, música erudita brasileira, hinos e a coleção História Geral da África. Os arquivos são disponibilizados em formato PDF para textos e MP3 para áudios.

Adriano Herrero, 27 anos, empresário no ramo da tecnologia, afirma que opta pela leitura de e-book’s pela praticidade. “O mundo da tecnologia está se unificando, e hoje é possível ter a liberdade de continuar sua leitura em qualquer lugar que você esteja, e a partir de qualquer dispositivo eletrônico. Isso é muito prático”. De acordo com Adriano, a única desvantagem desse tipo de leitura é a ausência do livro físico. “Quando iniciamos a leitura no e-book é diferente de uma leitura em um livro normal. Com o livro físico sentimos o cheiro das páginas novas, o que nos faz lembrar inconscientemente daquela época da escola, do romance com o aprendizado, da paixão com o primeiro livro”, completa o empresário.

Quero ler, e agora, por onde começar?

O DMRevista preparou algumas dicas para você entrar nesse universo:

Não exija demais de si mesmo no início, o ideal é buscar obras fáceis e descomplicadas. À medida que avança na leitura, comece a pesquisar palavras desconhecidas no dicionário. Ler devagar também é essencial para absorver e assimilar a história. Não tenha pressa, tudo bem se você demorar meses para chegar à última página, a leitura, como muitas coisas, é um hábito, adquiri-lo exige perseverança: aí a importância de não desistir no meio do caminho.

Abaixo segue uma pequena lista de boas opções de livros, considerados clássicos:

  • Bíblia Sagrada
  • Do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa
  • A Divina Comédia, de Dante Alighieri
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis
  • Fausto, de Goethe
  • Madame Bovary, de Gustave Flaubert
  • Os Sertões, de Euclides da Cunha
  • O Príncipe, de Maquiavel
  • As Viagens de Guliver, de Jonathan Swift
  • Dom Quixote, de Miguel de Cervantes
  • Robinson Crusoé, de Daniel Defoe
  • Moby Dick, de Herman Melville
  • O Processo, de Franz Kafka
  • Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski
  • Coração das Trevas, de Joseph Conrad
  • Hamlet, de William Shakespeare
  • Os Miseráveis, de Victor Hugo
  • Orgulho e Preconceito, de Jane Austen

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