Luis Eduardo Matta no Segs

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Recentemente, após uma palestra ministrada em uma escola, uma professora me confidenciou que estava tendo dificuldade de se sentar para ler um livro. Segundo ela, os lançamentos eram inúmeros e nem sempre lhe era possível encontrar uma leitura que a arrebatasse. Muitos dos seus parentes e amigos a presenteavam com livros,  mas poucas dessas obras despertavam interesse; a maioria, inclusive, acabava intocada na estante.
Ela observou que embora as pessoas sejam bem-intencionadas, tratam os livros de maneira genérica, sem se dar conta das diferenças de gênero, estilo, linguagem. E, na hora de presentear, o problema fica evidente! Respondi-lhe que compreendia o drama, pois era vítima de situação semelhante. Lembro-me de ter acrescentado que tratar os livros como uma coisa só é o mesmo que se referir aos inúmeros pratos existentes da gastronomia mundial simplesmente como “comida”. Por essa lógica, se uma pessoa come, não há a necessidade de um cardápio quando se vai a um restaurante. Basta lhe servir “comida”. Suas preferências culinárias são secundárias.
Todo final de ano, ao ver as lojas começando a se enfeitar para o Natal – muitas vezes com mais de dois meses de antecedência –, uma ideia me vem à cabeça: nos tempos de hoje em que as famílias se veem menos do que seria o ideal e em que as pessoas estão cada vez mais fechadas em seus mundos, com os olhos e dedos grudados nos tablets e smartphones, o Natal tornou-se uma ocasião única para se trocar experiências positivas em relação à leitura.
Explicando melhor: o Natal apresenta uma oportunidade singular de os leitores da família contagiarem os parentes com suas experiências no mundo da leitura, mostrando-lhes o quão rico e mágico pode ser a imersão nas páginas de um livro. E, para isso, nada melhor do que avaliar o gosto de cada um e se basear nele para presentear com o livro. Em muitos casos, aquele que irá abrir a primeira porta, permitindo que logo a pessoa se sinta estimulada a dar novos passos por conta própria e, aos poucos, a abraçar a leitura, trazendo-a para o seu cotidiano. A proposta é inserir os livros na ceia de Natal!
Alguns poderão perguntar: mas como conhecer o gosto de cada um? É mais fácil do que parece. Todos necessitamos da ficção no nosso dia a dia e convivemos com ela de uma forma ou de outra, ainda que unicamente pelo formato audiovisual. Sempre que vou presentear ou mesmo apenas indicar um livro a alguém que não conheço o suficiente, pergunto antes quais perfis de filmes essa pessoa costuma assistir. Quase todo mundo, afinal, gosta de cinema. Se a resposta for, por exemplo, filmes de ação, ou de terror, ou comédias românticas, existe uma grande chance de ela vir a gostar de livros nesses mesmos gêneros.
Eu mesmo sou um exemplo disso. Anos atrás, ainda na adolescência quando eu era quase exclusivamente um leitor de livros policiais, assisti na televisão ao clássico “E o vento levou” e gostei tanto do filme que fui atrás do livro homônimo em que ele foi inspirado, escrito por Margaret Mitchell, e logo descobri que adorava romances históricos, gênero que eu, até aquele momento, sequer sabia que existia.
Existe um leitor em potencial dentro de cada um de nós esperando para ser estimulado. Para isso, contudo, às vezes é necessário contar com um empurrãozinho de fora.

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