Mitologia da música se torna atraente para editoras, que lançam de tudo

Jotabê Medeiros, no Estadão

Epitácio Pessoa/ Estadão De Iron Maiden a Yoko Ono

Epitácio Pessoa/ Estadão
De Iron Maiden a Yoko Ono

Inibidas no Brasil pela legislação, as biografias de astros da música internacional inundam as livrarias neste final de ano, mostrando que há um mercado crescente para o gênero.

Tem de tudo: de mega artistas como o escocês Rod Stewart (Rod, a Autobiografia) ao metaleiro Bruce Dickinson (Os altos voos com o Iron Maiden e o voo solo de um dos maiores músicos do heavy metal, de Joe Shooman), passando por estrelas indie do passado (Syd Barrett) e até um ensaio místico-acadêmico sobre Jim Morrison (O Poeta-Xamã, de Marcel de Lima Santos).

Black Sabbath, a Biografia – Destruição Desencadeada, escrita pelo jornalista e músico Martin Popoff (com prefácio de Andreas Kisser), lançada em outubro, foi a biografia musical que lançou aqui a DarkSide Books.

O Brasil vai ficando na rabeira desse movimento. Protagonista de uma grande aventura musical brasileira, Gerson Conrad, dos Secos & Molhados, teve coragem de publicar uma biografia, mas Meteórico Fenômeno veio retalhada. Também saiu Tudo de Novo, de Vanessa Oliveira, a biografia oficial do Roupa Nova.

Shine on You Crazy Diamond foi a música que o Pink Floyd fez para homenagear seu cantor e guitarrista original, Syd Barrett, uma das influências mais marcantes do rock psicodélico moderno. Barrett, de meteórica genialidade, foi afastado pelo grupo em 1968 por excessos com ácido e dificuldades crônicas de seguir com qualquer atividade humana, ainda mais uma banda de rock. Morreu em 2006.

E embora Crazy Diamond, de Mike Watkinson e Pete Anderson, seja o título mais modesto do lote de biografias musicais que desemboca nas livrarias brasileiras desde agosto, é um dos que carrega mais interesse. A lenda de Barrett continua maior do que o interesse em sua gênese artística. O livro emoldura os boatos, como os de que ele vivera num apartamento acima do homem que trouxera o LSD pela primeira vez para o Reino Unido.

Seu comportamento errático é revelado em todas as nuances. Uma vez, parou seu carro Mini no trânsito, deixou um colega no banco do carona estupefato e fugiu correndo pelas ruas de Londres. “Ele tinha uma bolsa de roupas que fedia a quilômetros de distância. A bolsa estava cheia de dinheiro, pois ele tinha feito uma enorme retirada de sue banco em Londres”, contou um colega.

Barrett influenciou metade da música que ouvimos a seguir, como o grupo australiano Tame Impala, mas morreu refugiado na casa da mãe (como José Agrippino de Paula) diabético, com diagnósticos diversos como o de portar a síndrome de Asperger e esquizofrenia, entre outros.

A maior parte das biografias publicadas recentemente tem como foco não a produção artística, mas a vida dos músicos. Mesmo os que não tiveram uma existência de pura doideira, como Bruce Dickinson, ganha interesse justamente por seu papel de selfmademan, segundo Joe Shooman (autor do livro da Gutenberg Editora).

Shooman, articulista da Metal Hammer e da Mix Mag, conta as aventuras de Dickinson como piloto da companhia aérea comercial Astraeus, o que incluiu uma missão de resgate de ingleses que moravam em Beirute em 2006 – o vocalista também esteve no comando de um Boeing 757 batizado como Ed Force One durante a turnê da banda de 2008-2009.

A editora Benvirá traz talvez o esforço de maior fôlego da temporada, o livro Nothin’ to Lose, de Ken Sharp (com ajuda dos roqueiros Paul Stanley e Gene Simmons). O livro trata dos anos da gênese da banda, entre 1972 e 1975, abordando os fatos que fariam a fama de uma das maiores bandas do hard rock mundial.

Outros títulos são John Lennon, Yoko Ono e Eu, de Jonathan Cott (Zahar Editora), uma compilação de entrevistas e conversas com o jornalista da Rolling Stone que foi amigo do casal; Eu Dormi com Joey Ramone, de Mickey Leigh (irmão de Joey, que esteve recentemente no País lançando o volume) e Legs McNeil. Trata da gênese do punk e é lançamento da Editora Dublinense.

Rod, a Autobiografia (Editora Globo), é a cara de Rod Stewart: um relato fanfarrão, divertido, sexista e um pouco oficioso demais de sua trajetória desde o subúrbio.

Restrito às biografias autorizadas, o mercado nacional definha. Mesmo assim, a editora BestSeller lançou um volume de fôlego com a história da banda pop carioca Roupa Nova, que mantém a mesma formação desde 1980. Milton Nascimento escreveu um pequeno prefácio para a obra, da jornalista (e fã desde os 8 anos) Vanessa Oliveira.

Outra história que chega às livrarias agora é Inezita Barroso: a história de uma brasileira (Editora 34). Inezita, que apresenta há mais de 30 anos o Viola, Minha Viola na TV Cultura de São Paulo, também autorizou o texto, escrito por Arley Pereira (1935-2007), amigo da cantora.

“Da menina prodígio que cantava e tocava violão em salões da sociedade paulista desde os 7 anos até a estrela da TV Record nos anos 1950; da jovem que aprendeu a viola caipira nas fazendas da família até a experiente pesquisadora de nosso folclore; da mulher que usou sua beleza e sua potente voz de contralto para divulgar nossa cultura popular até a madrinha dos músicos sertanejos da atualidade”.

O jornalista Ricardo Alexandre, veterano em cobertura de música, saiu pela tangente: reuniu 50 causos e episódios do rock brasileiro entre 1993 e 2008, como testemunha privilegiada dos acontecimentos, nas memórias Cheguei bem a Tempo de Ver o Palco Desabar, da Arquipélago Editorial.

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