Publicado por Folha de S.Paulo

Turin, Itália – Um romancista preza a solidão. Já os reality shows, a vida alheia. Então o que acontece quando o ato de escrever vira um espetáculo público?

Essa pergunta está sendo respondida na televisão italiana, que no mês passado lançou “Masterpiece”, programa em que escritores aspirantes se enfrentam em desafios literários, até um deles ganhar um grande contrato de publicação, acompanhado de um nível de publicidade que poucos conquistam em toda uma vida de trabalho.

Estão presentes todas as convenções dos programas de talentos na televisão: a possibilidade sedutora da fama, a exposição dolorosa e o júri de especialistas. Há até uma sala em que os participantes podem expressar sua angústia (em um vídeo, é claro).

Se “Masterpiece” fizer sucesso, os produtores poderão levar o conceito a outros países. É provável que essa perspectiva assuste a indústria de livros, mas também desperte seu interesse. Muitos consideram o conceito crasso, mas com que frequência romances são mencionados no horário nobre da televisão?

Para o canal Rai 3 e a FremantleMedia, que produz franquias de reality shows em todo o mundo, o desafio foi criar um programa interessante e, ao mesmo tempo, evitar o tom de farsa.

Durante as filmagens de um episódio, em outubro, o júri –formado pelos romancistas Andrea De Carlo, Giancarlo De Cataldo e Taiye Selasie– ficou sentado diante de uma mesa, enquanto maquiadores corriam de um lado a outro.

Diante dos jurados, quatro participantes escreviam em um teclado. Cada palavra que digitavam era projetada em um telão, enquanto um cronômetro ao alto fazia contagem regressiva e câmeras filmavam closes dos rostos dos concorrentes.

Depois da sessão, Maria Isabella Piana, 66, professora aposentada da Sicília, esperou nos bastidores pelo veredito sobre seu trabalho: uma anotação em um diário, feita do ponto de vista de uma pessoa que ficou cega.

Piana se candidatou ao programa depois de não conseguir encontrar uma editora interessada em publicar o livro que escreveu, relatando a vida de um grupo de italianos dos anos 1960 até o presente. “Com um pouquinho de visibilidade, talvez eu tenha alguma chance”, comentou. Os jurados a eliminaram.

Alessandro Ligi, advogado romano de 49 anos que escreveu um romance (ainda sem editora) sobre amor fracassado, achou difícil trabalhar diante das câmeras. “Eu nem tolero que alguém olhe meu computador”, revelou. O trabalho pedido a ele foi o relato, de uma página, de um homem obrigado a ver sua amante se casar com outra pessoa.

Os jurados decidiram que Ligi poderia permanecer no programa até o próximo desafio. No dia seguinte, ele tentaria “vender” seu romance a uma celebridade convidada para o show.

O selo Bompiani vai publicar o romance do vencedor em maio, com tiragem inicial de 100 mil exemplares. É um número enorme na Itália, onde um primeiro romance que venda 10 mil exemplares é visto como sucesso.

Em um primeiro momento, a escritora britânica Taiye Selasi, radicada em Roma, teve reservas em relação a aparecer na televisão italiana, notória por dar destaque a homens mais velhos cercados por dançarinas jovens.

Ela disse que “Masterpiece” não vai necessariamente identificar o melhor autor-revelação. O programa se propõe apenas a identificar o melhor entre os que ousam participar. E, disse ela, é preciso um pouco de ousadia para fazer sucesso como escritor.

“Quer você seja tímido, quer não”, explicou, “se você quiser ser um autor publicado, terá que se expor de alguma maneira.”

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