Organização criminosa teria repassado gabarito por ponto eletrônico e SMS a candidatos em Barbacena
Informações foram repassadas por delegado à Polícia Federal, encarregada de apurar crimes relacionados ao exame do MEC

Publicado em O Globo

RIO — A quadrilha presa por vender vagas em faculdades de Medicina mineiras e fluminenses também está sendo investigada por fraudar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Segundo a Polícia Civil de Minas Gerais, responsável pela Operação Hemostase, que levou ao indiciamento de 36 pessoas desde o início de dezembro, a mesma organização criminosa que violou vestibulares privados também repassou o gabarito do exame do MEC a candidatos em Barbacena (MG). As respostas encaminhadas pelos suspeitos seriam referentes ao caderno de questões amarelo do Enem.

As informações sobre a investigação foram repassadas, nesta quinta-feira (19), pelo delegado de Caratinga, Fernando José Barbosa Lima, que presidiu o inquérito policial. Ele entregou os resultados da apuração ao delegado federal regional de Investigação de Combate ao Crime Organizado, Paulo Henrique Barbosa, já que a atribuição para investigar indícios de crime relacionados ao Enem cabe à Polícia Federal.

Segundo explicou o delegado da Polícia Civil, pessoas classificadas pelo grupo criminoso como “pilotos” faziam a prova — para garantir o índice de 75% de acerto das questões — e saíam rapidamente dos locais dos exames, fornecendo o gabarito aos coordenadores da organização que, por sua vez, o repassavam para os candidatos, via SMS ou ponto eletrônico. O preço pago pelos candidatos à quadrilha variava de R$ 70 mil a R$ 100mil.

Gravações

Entre as informações e documentos repassados pela PCMG à Polícia Federal estão dois cadernos amarelos que foram apreendidos com um dos chefes da organização criminosa, José Cláudio de Oliveira, de 41 anos, em Barbacena, durante a Operação Hemostase, no dia 3 de dezembro. Com a PF também estão cerca de 30 gravações de conversas entre José Cláudio e o aposentado Quintino Ribeiro Neto, de 63 anos, que também liderava a quadrilha. Há ainda mensagens de SMS contendo parte dos gabaritos e outras em que eles comemoram o índice de acerto das provas.

O inquérito da Polícia Civil chega a quase 3 mil páginas, resultantes de cerca de nove meses de investigação. Segundo a PCMG, o delegado federal Paulo Henrique afirmou que “há fortes indícios de fraude pontual no Enem”. Ele disse que a PF vai agora iniciar um trabalho visando identificar os candidatos que se beneficiaram do golpe, além de dimensionar a amplitude do crime.

O superintendente de Investigações e Polícia Judiciária da Polícia Civil de Minas Gerais, Jeferson Botelho, acrescentou que o trabalho colaborativo da PCMG no inquérito prossegue normalmente, ficando a instituição à disposição da Polícia Federal no que for preciso. “O Quintino e o José Cláudio continuam presos em Caratinga, assim como outros três envolvidos na fraude nas universidades particulares”, disse o superintendente.

A operação que resultou no esclarecimento da fraude foi denominada “Hemostase” em referência aos procedimentos realizados nos processos cirúrgicos destinados a estancar hemorragia.

Inep diz que candidatos que usaram ponto serão eliminados

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) informou, por meio de nota, que está acompanhando, juntamente com a Polícia Federal, os desdobramentos da Operação Hemostase.
O Inep reforça que as investigações devem ocorrer com todo rigor necessário. Segundo a nota, os candidatos identificados, que tiverem utilizado aparelhos eletrônicos durante as provas, serão eliminados, conforme prevê o edital do exame.

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