Jesus expulsa os cambistas e os vendedores do templo, em pintura em madeira de Lucas Cranach, o Velho Latinstock

Jesus expulsa os cambistas e os vendedores do templo, em pintura em madeira de Lucas Cranach, o Velho Latinstock

Historiador traça perfil polêmico de camponês nascido fora do casamento que se tornou um revolucionário

Daniela Kresch em O Globo

TEL AVIV – Revolucionário ou conservador? Defensor da guerra ou da paz? Pregador da moral e dos bons costumes ou um profeta do Apocalipse? Há dois mil anos a Humanidade tenta desvendar o mistério de Jesus de Nazaré, que se tornou Jesus Cristo para bilhões de fiéis. A fascinação pelo morador da Galileia levou a numerosas construções e desconstruções do mito. Obcecado pela vida real do homem carismático cujas pregações o levaram à crucificação, o historiador americano Reza Aslan, de 41 anos, dedicou os últimos 20 a escrever “Zelota, a vida e a época de Jesus de Nazaré” (Ed. Zahar), cujo original em inglês já vendeu 320 mil exemplares nos EUA e está na lista de best-seller do “New York Times” desde o lançamento, em julho.

Após se debruçar sobre os Evangelhos, escritos apócrifos e de relatos históricos, Aslan, mestre em Teologia e doutor em Sociologia, chegou à conclusão que permeia seu livro: a de que Jesus de Nazaré é tão ou mais interessante do que Jesus Cristo (o “ungido”). Para ele, o homem que inspirou uma das maiores religiões do planeta é uma figura extraordinária, independentemente da crença sobre sua divindade. O livro lança teses polêmicas, como a que José não teria existido e que Maria teria engravidado sem estar casada.

“Dois mil anos depois, o Cristo da criação de Paulo totalmente subjugou o Jesus da História. A memória do revolucionário que atravessou a Galileia reunindo um exército de discípulos com o objetivo de estabelecer o Reino de Deus na Terra, o pregador excepcional que provocou a autoridade do sacerdócio do Templo em Jerusalém ficou quase totalmente perdida. Isso é uma pena”, escreve o autor.

Em entrevista ao GLOBO por telefone, de Washington, Aslan aprofunda essa visão:

– Quando se fala de Jesus de Nazaré, falamos sobre um camponês pobre, analfabeto, dos confins da Galileia, que, por meio do poder de seu carisma e seus ensinamentos, lançou um movimento para os pobres e os despossuídos, que ameaçou as autoridades da época e levou à sua crucificação como um criminoso – afirma Aslan. – Acreditando ou não que ele foi Deus, você tem que admirar o que fez enquanto ser humano.

Jesus defendia preceitos do judaísmo

Para o autor, é impossível entender o que ele diz sem saber o que acontecia na Judeia e na Galileia sob o jugo romano. Aslan descreve Jesus como “zelota”, um pregador que “zelava” pelos preceitos religiosos do judaísmo do século I, imbuído da missão de proteger sua fé em meio à turbulência da Terra Santa sob ocupação romana.

“Na época, havia um sentimento, especialmente entre os camponeses e os pobres devotos, de que a presente ordem das coisas estava chegando ao fim, de que uma ordem nova e de inspiração divina estava prestes a revelar-se”, escreve Aslan. Como religião e política se misturavam, sua defesa da fé foi encarada como subversiva por Roma, principalmente depois que Jesus provocou alvoroço em Jerusalém, derrubando as mesas dos cambistas e expulsando os vendedores do Templo.

O historiador analisa detalhes sobre o que se sabe a respeito de Jesus. Ele sustenta que os Evangelhos não foram escritos para relatar o que realmente aconteceu, mas sim para propagar uma ideia. Nesse sentido, quando os autores dizem que Jesus nasceu em Belém, o objetivo é mostrar apenas que ele cumpriria os pré-requisitos para ser o Messias. Mas o verdadeiro Jesus, o pobre camponês judeu, nasceu numa pequena aldeia varrida pelos ventos, Nazaré.”

Aslan também discute o nascimento virginal e a ideia de que Jesus nunca se casou. Essas não são teorias novas, mas o autor vai além com ideias ainda mais polêmicas, como a de que Jesus era filho de Maria, mas não de José, uma figura que desaparece rapidamente dos Evangelhos. “O consenso é que José morreu enquanto Jesus era ainda criança. Mas há aqueles que acreditam que José nunca realmente existiu, que ele era uma criação de Mateus e Lucas – os dois únicos evangelistas que o mencionam. Essa ausência levou a uma grande dose de especulação sobre se a história do nascimento virginal foi inventada para mascarar uma verdade desconfortável sobre a paternidade de Jesus, ou seja, que ele nasceu fora do casamento.”

Afirmações como essas transformam “Zelota” num livro polêmico, principalmente por causa de um detalhe da biografia de Reza Aslan: ele é muçulmano nascido no Irã. Sua família, pouco religiosa, emigrou para os EUA em 1979, quando ele tinha apenas 7 anos. Na juventude, o historiador chegou a se converter ao Cristianismo para se sentir mais “americano”.

– Quando eu tinha 15 anos, descobri os Evangelhos. Era uma história incrível do Deus do céu e da Terra descendo em forma de um bebê e morrendo pelos nossos pecados. Foi transformador – conta Aslan. – Foi depois que comecei a estudar que me deparei com a figura histórica de Jesus, não o Cristo. Fiquei ainda mais fascinado.

Aos poucos, Aslan descobriu que acreditava mais na figura humana do que na religiosa. Voltou a ser muçulmano e escreveu livros sobre o Islã. Sua fé pessoal e história familiar foram o suficiente para que ele fosse atacado numa polêmica entrevista na Fox News, a rede de TV conservadora americana, na qual a entrevistadora Lauren Green questionou como ele, um seguidor do Islã, ousou escrever um livro sobre Cristo.

– Ela parecia acreditar que o livro é um ataque ao Cristianismo, o que não é verdade – explica Aslan. – Quando pilares de uma fé são questionados por historiadores, há quem se irrite. Mas não é necessário que isso aconteça. Alguns pensam que, por que trato Jesus sem o viés da divindade, digo que ele não era especial, único. Ao contrário. Pensar nele como um homem o transforma em uma figura mais revolucionária e extraordinária – afirma.

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