‘Onda infinita’ se debruça sobre o catálogo contemporâneo da gravadora carioca, de 2001 para cá

Os artistas Gringo Cardia e Luiz criaram o visual da Blitz Divulgação

Os artistas Gringo Cardia e Luiz criaram o visual da Blitz Divulgação

Leonardo Lichote em O Globo

RIO – O livro tem formato quadrado (como o da embalagem de um LP), capa dura e impressão de alta qualidade, para fazer jus às belezas que traz em suas páginas — capas de discos e detalhes do projeto visual de alguns deles. Publicações do tipo não são raras. Mas a particularidade desta é que não cobre álbuns clássicos de bossa nova da Elenco ou de jazz da Blue Note, com capas consagradas como ícones da cultura do século XX. O livro “Onda infinita” (Zahar) se debruça sobre o catálogo contemporâneo da gravadora carioca Dubas, de 2001 para cá.

O olhar sobre a atualidade e o deslocamento — o fato presente apresentado em roupa de fato histórico —, mais que valorizar a identidade visual criada pelo selo de Ronaldo Bastos, levantam uma reflexão: como anda essa tradição, numa era em que as capas são muitas vezes reproduções minúsculas em celulares e tocadores de MP3?

A resposta não é simples, apesar de algumas percepções se evidenciarem. A primeira é a de que não há um traço estético forte, um nome que represente o seu tempo, que seja referência.

— Há uma diversidade grande, como na própria música — acredita o designer Beto Martins, sócio e diretor de criação da 6D, que assina as capas da Dubas. — Até o fim da década de 1980, ainda havia uma certa tendência, um norte do que era moderno se fazer. A partir dos 1990 isso se diluiu e, a partir dos 2000, com a enorme quantidade de informação que a internet trouxe e a pulverização da audiência, isso se intensificou.

Envelopes utilitários

O enfraquecimento do mercado fonográfico também foi fundamental para o cenário que Martins descreve. Toda a tradição das capas foi criada ao longo do século XX — como lembra Arthur Dapieve num dos textos de “Onda infinita” (outros são assinados pelo jornalista Antonio Carlos Miguel e pelo designer Rico Lins), “foi só a partir do trabalho do designer Alex Steinweiss no selo americano Columbia, na virada dos anos 1940 para os anos 1950, que cada disco passou a ser identificado de longe nas prateleiras da loja. Antes, capas eram apenas envelopes utilitários, padronizados”. E ao longo do século, esse processo foi sustentado por uma indústria fortíssima — realidade diferente da de hoje.

— O fato de a maioria dos discos ser independente permite que o artista faça o que quer. Artistas que, além de fazerem música, como Kiko Dinucci (também gravurista), Tulipa Ruiz (ela desenha), Romulo Fróes e Domenico (artistas visuais), conceituam e produzem as suas capas — identifica o fotógrafo Daryan Dornelles, nome frequente nas capas de disco hoje, seja de medalhões como Chico Buarque (“Chico”), João Donato (“O piano de João Donato”) e Erasmo Carlos (“Sexo”), até representantes da nova geração, como Clarice Falcão (“Monomania”), Marcia Castro (“De pés no chão”) e Marcelo Jeneci (“De graça”).

Identidades visuais mais marcadas

A existência de um profissional como Daryan não torna mais homogêneo o cenário. Suas fotos se prestam a obras de conceitos diferentes. Antes, aponta Martins, havia identidades visuais mais marcadas.

— Cesar Villela (responsável pela concepção visual das capas da Elenco), Elifas Andreato (autor de capas clássicas da MPB, de Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Chico Buarque, entre outros), Gringo Cardia (nome forte a partir dos anos 1980, com trabalhos como o da Blitz, ao lado de Luiz Stein)… Esses caras fizeram muitos trabalhos para construir sua identidade visual. Hoje é difícil um designer fazer assim, pela própria configuração do mercado, que tem menos dinheiro. Mas isso acabou tendo efeitos positivos. Não há um grande nome que sintetize este tempo, mas os independentes recuperaram uma liberdade perdida nos 1990.

Daryan nota que essa liberdade não rima com amadorismo — efeito colateral que os mais céticos identificam na era colaborativa digital:

— Fenômenos como o Instagram acabaram valorizando o fotógrafo profissional, a imagem que vale como imagem. O uso de filtros como os usados no Instagram deixa o trabalho com cara de amador, ninguém quer isso.

Pesquisador que já editou um livro sobre capas de disco (“Bossa nova e outras bossas — A arte e o design das capas dos Lps”, com Caetano Rodrigues), Charles Gavin acredita que a diminuição do formato tirou importância do aspecto visual dos álbuns.

— Se você percorrer os sites que vendem música perceberá que as capas dos discos são pequenas. O apelo visual está praticamente descartado, um erro na minha opinião. Será que alguém consegue apreciar alguma coisa naquele tamanho? E será que algum artista plástico, fotógrafo ou designer tem condições de desenvolver o trabalho naquele espaço?

A percepção de Gavin sobre a perda de poder da capa é compartilhada por outros observadores. Mas há outras camadas. Um dos designers mais citados por artistas da nova geração da MPB, Gabriel Martins assinou poucas capas — seu trabalho é celebrado sobretudo pelos pôsters de shows que circulam pela web, de artistas como Thiago Pethit, Alice Caymmi e Letuce.

— A capa perdeu um pouco de força, dando lugar para toda a identidade visual do álbum, que é explorada nas redes sociais, fanpages, instagram — nota Gabriel, que reforça o conceito de diversidade ao apontar a relação das capas de hoje com a tradição brasileira na área.

A produção dos anos 1960 e 1970, sobretudo a partir da bossa nova e da tropicália, definiu a estética das capas no Brasil. O diálogo com a produção atual é visto através da liberdade de expressão gráfica e experimentação visual, que podem ser explorados por softwares, remetendo a diferentes fases da produção dos antigos capistas, criando uma nova identidade: a não identidade. Uma mistura de estéticas e conceitos gráficos.

Ronaldo Bastos, ao falar do trabalho da Dubas na reedição de discos clássicos, propõe pensamento original na relação com a tradição. A gravadora costuma criar capas novas, partindo das originais, — como “It might as well be spring”, de Sylvia Telles, repensada pela 6D com a colaboração de Cesar Vilella, autor da lançada em 1965.

— Não penso: “Vou refazer essa capa porque ela é ruim”. — explica Ronaldo. — Mas as reedições da Dubas têm um cuidado no som, no encarte, no tratamento do disco como algo moderno. Por que não atualizar seu visual? A Dubas está no vértice entre o passado e o que está vindo. Não sou o Museu da Imagem e do Som, não seria natural um disco com o som novo, trazendo música que não é datada, reproduzindo capa antiga.

Para Mello Menezes, capista de clássicos como “Essa mulher”, de Elis Regina, as mudanças tecnológicas e o conceito de contemporâneo não tocam em algo que não muda:

— Mesmo no espaço maior do LP, sempre priorizei a simplicidade.

O conceito de simplicidade corta desde a Elenco até o recente “Efêmera”, de Tulipa Ruiz. Ronaldo, afinado com Menezes, sintetiza:

— A capa ideal para mim é a bandeira japonesa.

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