Ideia para criar a obra nasceu quando o pai foi colocar o filho para dormir

Bia Reis, no Estadão

O escritor norte-americano William Kennedy coleciona, aos 85 anos, uma lista invejável de textos publicados em suas mais variadas formas. São romances, reportagens, peças de teatro e roteiros de filmes, além de livros infantis – estes até agora desconhecidos do público brasileiro.

Divulgação Imagem do livro

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Pelas mãos da editora Cosacnaify, chega ao Brasil o primeiro infantil de Kennedy, o surreal Charlie Malarkey e a Máquina de Umbigos. A história, publicada originalmente em 1986, havia sido construída alguns anos antes, a quatro mãos – ou duas cabeças –, em uma parceria com seu filho Brendan Kennedy, hoje com 43 anos.

“Graças à imaginação de uma criança de 4 anos, terminamos a história. Eu não poderia ter feito isso sozinho”, contou Kennedy, vencedor do Prêmio Pulitzer por Ironweed, em entrevista por e-mail ao Estado, da qual também participou Brendan.

No livro, William conta a história de Charlie, um menino que um dia acorda sem seu umbigo. Com a mãe e um amigo, ele revira a casa, mas nada de encontrá-lo. Nem o médico consegue achar uma explicação. Até que toca a campainha um homem que trabalha na área de umbigos, vendendo exemplares novos e usados. É a pista para Charlie e o amigo descobrirem o paradeiro do umbigo desaparecido, e de muitos outros.

Em Charlie Malarkey e a Máquina de Umbigos, o senhor conta a história surreal de um menino que um dia acorda sem seu umbigo. Como nasceu a ideia de contar essa fantástica história?
Kennedy:
Eu contava ou lia histórias para o meu filho desde que ele tinha 2 anos. Uma noite, quando ele tinha quase 4 anos, seu umbigo estava aparecendo fora do pijama e eu tive a ideia: e se ele acordasse pela manhã e seu umbigo tivesse desaparecido? Eu comecei a história, segui o quanto pude e falei que continuaria. Voltei para ela na noite seguinte, depois na seguinte e finalmente decidi que era uma boa história, que eu deveria escrevê-la. Mas tinha sérios problemas com o enredo. Chamei o Brendan ao meu escritório e disse que precisava de sua ajuda. Nós trabalhamos por algumas semanas juntos e, graças à imaginação de uma criança de 4 anos, terminamos a história. Eu não poderia ter feito isso sozinho.

O senhor tinha a ideia de uma história na cabeça e contou com o auxílio de uma criança de 4 anos para desenvolvê-la. Imagino que esse processo de criação tenha sido completamente diferente de tudo o que o senhor já havia feito até então…
Kennedy:
Eu aprendi a pensar como um escritor e um leitor de 4 anos. A mente de Brendan era rápida e o seu pensamento, muito original.
Brendan: Grande parte do processo envolveu perguntas que ele me fazia – “E então, o que acontece?”. E eu respondia com o que vinha à minha cabeça. Nós desenvolvemos a história e à medida em que ela avançava, resolvíamos os problemas, inventávamos a linguagem e ríamos com o que aparecia.

O senhor começou a carreira como jornalista, se tornou um escritor de ficção e publicou livros para crianças. Qual tipo de texto é mais desafiador?
Kennedy:
Não importa qual gênero o escritor usa, a criação da história e dos personagens é o mais difícil. Eu também escrevi roteiros e peças para o teatro, ambos muito diferentes do romance e dos livros infantis, cada gênero com um conjunto muito complexo de ferramentas, formatos, limitações e expectativas. Pode demorar – e geralmente demora vários anos – para que o escritor domine qualquer um dos gêneros, mas o desafio, interminável, é o mesmo: alcançar uma história e personagens originais e vitais que possam surpreender o leitor.

Aqui no Brasil, é comum vermos livrarias lotadas de crianças aos fins de semana. A literatura destinada às crianças cresceu de forma expressiva nas últimas décadas, tanto em número de livros vendidos como em de bons autores. Mas, pelo menos no Brasil, ainda há parte dos escritores que a considera um gênero menor. Como os senhores veem a questão?
Kennedy:
Eu não acho que uma literatura que inclua obras de Maurice Sendak e Lewis Carroll possa ser considerada menor.
Brendan: Sempre vai existir pessoas que torcem o nariz para a ideia da literatura infantil, mas essas pessoas perdem o ponto. Se o trabalho de um autor inspira as crianças a gostarem de ler e a se desenvolver, ninguém pode golpeá-lo. J.K. Rowling recebeu críticas por seus livros da série Harry Potter, mas ela inspirou uma nova geração de jovens leitores que de outra forma poderia nunca ter pegado em um livro, muito menos uma série com mais de 500 páginas.

O senhor acha que a tecnologia vem mudando a forma como as crianças interagem com livros?
Brendan:
Minhas três filhas interagem com os livros do mesmo modo que eu. Apesar de a tecnologia oferecer oportunidades para uma experiência de leitura digital, ela nunca substituirá verdadeiramente os livros de papel. Eles são duráveis, tangíveis, trazem um senso de permanência que as obras lidas no iPad ou no Kindle ou em outros gadgets digitais falham em oferecer. E eles nunca ficam sem baterias. Uma biblioteca com livros reais é uma forma de riqueza, realização e prazer estético. Talvez menos para as novas gerações, que substituíram isso por downloads e média social, mas uma enorme quantidade de leitores ainda pensa assim. Ainda assim, o mundo dos livros está sem dúvida encolhendo e eu sinceramente temo o dia em que eles se tornarão item de colecionador.

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