Olívia Freitas e Patrícia Trudes da Veiga, na Folha de S.Paulo

Como forma de incentivar o trabalho, a ocupação e a reeducação dos detentos nos presídios do Pará, a ONG Vaga Lume fez uma parceria com a Sisupe (Superintendência do Sistema Penitenciário do Pará) para que os internos fabriquem estantes de madeira certificada para as bibliotecas comunitárias mantidas pela organização na Amazônia.

Detido desde 2011, José Maria Machado, 51, trabalha como marceneiro no Centro de Recuperação do Coqueiro, enquanto aguarda seu julgamento. “Quem é interno tem uma necessidade de manter uma atividade para se manter vivo e se sentir útil”, conta ele, que divide o trabalho com outros três colegas.

Jovens e educadores mediam literatura infanto juvenil no assentamento São Joaquim, em Castanhal, no Pará / Na Lata

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“Desde o início do projeto buscamos um fornecedor para as estantes que fosse mais que uma marcenaria, que entrasse numa cadeia de transformação positiva em nossa sociedade”, conta a historiadora Sylvia Guimarães, 34, finalista do prêmio Empreendedor Social 2013, realizado pela Folha em parceria com a Fundação Schwab.

A Vaga Lume promove intercâmbios culturais por meio da leitura, da escrita e da oralidade, desenvolvendo o protagonismo dos moradores e das comunidades rurais da Amazônia. A ONG, que mantém 160 bibliotecas em parceira com as comunidades amazônicas, já produziu em torno de 250 estantes com a Sisupe e distribuiu 81.328 livros, sendo que mais de 50 internos de regime fechado já participaram do projeto.

Até o final de dezembro, os detentos entregaram 20 estantes, que devem seguir para 18 comunidades ribeirinhas. Para integrar a equipe de marceneiros, que é sempre trocada devido ao cumprimento da pena, é feita uma seleção com os responsáveis pelas áreas de assistência social, psicologia e segurança.

“Os detentos acham muito bom porque estão fazendo algo para crianças e que é dado valor ao trabalho desenvolvido por eles”, afirma a gerente da Divisão de Trabalho e Produção da Sisupe, Rita Nascimento. “É notório que restaura a dignidade e eles se sentem úteis.”

Machado concorda. “Como vai beneficiar comunidades distantes e pessoas carentes, me faz ter ânimo para levantar cedo e trabalhar”, diz. E tem planos para o futuro. “Eu tenho um sítio, gosto de trabalhar com frutas e verduras. É uma área que se pode trabalhar com pessoas carentes, penso em montar um projeto, para ter parceiros, não ser patrão.”

Os internos recebem uma remuneração de R$ 508,50. Deste valor, 1/3 é retido em poupança e só será liberado quando eles estiverem em liberdade. Além disso, também contam com contribuição previdenciária.

As bibliotecas da Vaga Lume chegam às comunidades rurais da Amazônia por manifestação de interesse da própria região. Em cada uma, na primeira leva, são entregues 300 livros de literatura brasileira e estrangeira para diversas faixas etárias.

“Nas condições que o país tem em educação, principalmente nesta região, onde as pessoas são muito carentes de conhecimento, esse projeto é como se a pessoa estivesse no escuro e voltasse a enxergar sozinho”, afirma Machado. “Ler é ter conhecimento de vida. É fantástico.”

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