Larry Rohter, na Folha de S.Paulo

Em “Rock ‘n’ Roll”, peça de grande sucesso escrita em 2006, o dramaturgo Tom Stoppard examinava a relação entre música e política, alternando cenas entre a Inglaterra e a Tchecoslováquia durante um período de 25 anos.

Agora, em um novo trabalho, uma peça radiofônica de uma hora chamada “Darkside”, ele estreitou seu foco para abarcar um único álbum, o famoso “The Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd.

Encomendada pela BBC para celebrar o 40º aniversário de lançamento de um disco que vendeu mais de 50 milhões de cópias em todo o planeta, “Darkside” foi transmitida em agosto de 2013, e em novembro saiu em forma de CD (Pink Floyd Music).

Stoppard escreveu um texto sobre a música do álbum para ser recitado e, ocasionalmente, empregou as palavras de Roger Waters —um dos membros da banda— para comentar os acontecimentos.

O tema de “Darkside” será familiar para quem quer que tenha assistido a um curso de ética ou filosofia moral na universidade. O elenco, que inclui Bill Nighy e Rufus Sewell, encena experimentos hipotéticos famosos nesses campos, como o “dilema do prisioneiro” e o “vagão em alta velocidade”, acompanhados por muitos comentários sarcásticos e piadas sutis.

Em “Rock ‘n’ Roll”, Stoppard, 76, demonstrava formidável familiaridade com a música pop dos anos 60 e 70, e fazia referência aos Rolling Stones, Jimi Hendrix, Beach Boys, Grateful Dead, Velvet Underground, Doors e Queen.

Em entrevista por telefone, de sua casa na Inglaterra, ele conversou comigo sobre a origem de “Darkside” e seu gosto musical eclético. Seguem excertos editados dessa conversa.

O dramaturgo Tom Stoppard / Fernando Alvarado - 27.set.11/Efe

O dramaturgo Tom Stoppard / Fernando Alvarado – 27.set.11/Efe

Quais foram os desafios que o senhor viu inicialmente em adaptar esse disco a um formato teatral?

Tom Stoppard – Eu absolutamente não tinha ideia do que fazer com ele, o que me parece normal. Fiquei muito satisfeito com a coisa toda. É comum que as pessoas me recomendem algo porque se baseiam naquilo que já escrevi, quando a verdade é que você quer escrever sobre algo que não tenha escrito, de maneiras que ainda não tenha feito.

Ter de trabalhar com base no disco e com um tempo definido foi muito restritivo?

Por toda a minha carreira, desde o começo, creio que sempre gostei de receber parâmetros, fronteiras ou instruções. “Rosencrantz and Guildenstern are Dead” são um exemplo. Tive de trabalhar dentro da peça de Shakespeare. Trabalhar dentro do álbum do Pink Floyd é a mesma síndrome, na realidade.

Em última análise. “Darkside” me parece uma espécie de comédia sobre filosofia moral. O senhor concordaria?

Creio que seja uma definição justa. Eu estava usando coisas de minhas leituras, coisas que estava recolhendo há anos para uma peça. Isso já era algo sobre o que eu desejava escrever, e o álbum me pareceu um grupo de canções que estava como que pedindo que eu usasse parte desse material, em lugar de guardá-lo para uma peça de três horas de duração.

O senhor hesitou por ter de trabalhar em torno da letras de Roger Waters, e por ter de enxugá-las?

Na verdade, me incomodei menos com isso do que com escrever sobre a música. Conheço David Gilmour um pouco melhor do que conheço os demais membros da banda, e me preocupava com a possibilidade de ele se incomodar caso a música fosse empurrada para o fundo, onde seria ouvida apenas parcialmente, para que minhas palavras tivessem posição central. Por isso, liguei para ele, e ele não viu problema algum. Ele disse que eu podia levar a ideia adiante e que tudo estava bem. Convenhamos, “The Dark Side of the Moon” não está vulnerável a ser obscurecido por uma mera peça para o rádio. [Risos.]

Sabemos, pelas referências ao Pink Floyd em sua peça “Rock ‘n’ Roll”, que o senhor sente afinidade pela banda. Por que eles e não outros dos muitos grupos mencionados na peça.

Só acho que eles são um grupo excepcional de pessoas. Para mim, “The Wall” é uma obra-prima e quando transformei “Rosencrantz and Guildenstern” em filme, usei uma faixa do álbum “Meddle”, chamada “Fearless”. O que estou tentando dizer é que a BBC já estava a bem mais que meio caminho andado, sem saber, quando me contatou. Creio que, por causa da peça “Rock ‘n’ Roll”, eles imaginaram que eu seria a pessoa certa a procurar. E estavam certos.

O senhor pode nos falar sobre sua história pessoal com “The Dark Side of the Moon”?

Esse álbum, especificamente, eu ganhei de presente quando foi lançado, em 1973, de um amigo que me disse: “Tom, ouça esse disco. Você tem de fazer uma peça sobre ele”. Na época, eu estava escrevendo “Travesties”, e não quis me distrair pensando sobre o disco. Eu não era seguidor de Syd Barrett [o fundador do Pink Floyd]; conhecia os primeiros discos da banda, mas passei muito tempo sem ouvir “The Dark Side of the Moon”. Por isso, quando recebi uma carta da BBC a respeito, foi extraordinário. Como se um círculo se fechasse.

O senhor se aproximou do rock nos anos 60, quando pouca gente de sua idade e ainda menos intelectuais o faziam. O que explica esse interesse prematuro?

Só posso responder dizendo que não me lembro de um momento em que não ouvisse música pop, desde os 12 anos de idade. Eu gostava e pronto. Quando fiz 20 anos, em 1957, e você talvez diga que eu tinha idade suficiente para ter gosto melhor, me encantei com Buddy Holly. E amava bandas pop sem quaisquer pretensões intelectuais. Eu amava os Monkees. [Risos.]

Quando trabalhava como repórter em Bristol, de 1954 a 1960, o jornal recebia ingressos para os shows de todo mundo que tocava em um grande teatro do outro lado da rua, e por isso assisti a ótimos músicos. Os Everly Brothers, por exemplo. Quem não ama os Everly Brothers? Eu não ouvia a música com qualquer compreensão, melhor que eu deixe claro. Era uma resposta puramente imediata a um tipo específico de barulho, e para mim isso funcionava completamente.

Eu gostaria de perguntar sobre outras referências à cultura pop em “Darkside”, especialmente as citações de diálogos de cinema. Um dos filmes citados é “O Mágico de Oz”, o que decerto é uma brincadeira sobre a lenda urbana de que “The Dark Side of the Moon” foi composto como uma espécie de trilha clandestina para o filme.

Sim, realmente gosto de incluir piadas particulares no que faço, e não me incomoda que eu seja a única pessoa que sabe que estão lá.

Ou seja, o senhor estava piscando para nós, quanto a isso.

Piscando para vocês é a definição certa. [Risos.]

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