Charles Isherwood, na Folha de S.Paulo

Pobres dos professores de inglês atuais, que precisam encarar salas lotadas de adolescentes que passam o tempo atualizando seus status no Facebook, usando o Snapchat ou fofocando via SMS sobre a mais recente perfídia de um falso amigo.

Tentar instilar nos estudantes um interesse apaixonado (ou mesmo passageiro) por Shakespeare jamais foi a tarefa mais fácil para os professores. Com todas as distrações digitais agora existentes, o desafio de despertar o interesse dos estudantes pelas peças do dramaturgo com certeza se tornou mais difícil.

O discurso abreviado estimulado pelas mensagens de texto e pelo Twitter fica muito distante dos densos monólogos shakespearianos. Um divertido cartum de Roz Chast, publicado anos atrás pela revista “New Yorker”, brincava com a distância entre as gerações atuais e Shakespeare. Na versão de Chast, Romeu e Julieta conversam por meio de mensagens de texto, e a cena da sacada termina assim:

Julieta: xoxoxoxo fui t vjo dpois
Romeu: xoxoxoxo xau

Um novo projeto chamado WordPlay Shakespeare tenta aproveitar a aptidão dos estudantes para as novas tecnologias, e seu apego a elas, para ajudá-los a se envolver mais facilmente com as peças. Criados pela New Book Press, os livros eletrônicos de US$ 9,99 podem ser baixados no iTunes e por enquanto estão disponíveis em diversos formatos para Mac e iPad.

Os livros combinam o texto integral das peças a versões em vídeo produzidas especificamente para a série. Quando você abre o “livro”, uma página de texto aparece na metade esquerda da tela, como aconteceria em um livro convencional. Na metade direita, basta clicar para assistir a um vídeo da cena em questão.

Retrato de William Shakespeare, maior dramaturgo de língua inglesa / Associated Press

Retrato de William Shakespeare, maior dramaturgo de língua inglesa / Associated Press

Alexander Parker, o editor chefe da New Book Press, disse que vê esse formato como maneira ideal de aumentar a capacidade dos estudantes para compreender a complexidade da linguagem de Shakespeare. “O tablet”, ele diz, “serve muito bem para combinar mídias que antes não se combinavam”, no caso texto e vídeo. “Se você tem o texto e uma cena um ao lado do outro, as duas experiências se reforçam mutuamente”.

Até o momento, a editora lançou apps para “Macbeth” e “Sonho de Uma Noite de Verão” —duas das peças de Shakespeare que costumam ser tema mais frequente de trabalhos escolares. Outra dupla de peças que muitas vezes serve como primeiro encontro entre estudantes e Shakespeare —”Romeu e Julieta” e “Júlio César” — estão em pré-produção.

Um teste breve me convenceu dos méritos do projeto, ainda que haja aspectos que requeiram alguma familiarização. O app é enxuto, bem produzido e fácil de operar. Se você clicar na metade direita da tela branca, verá atores vestidos em roupas modernas dando vida às palavras —no caso de “Macbeth”, com discretos toques visuais escoceses. (Coincidentemente, Francesca Faridany, que trabalha em uma remontagem de “Macbeth” em cartaz na Broadway, como a feiticeira Hécate, interpreta Lady Macbeth na versão WordPlay da peça.)

Mesmo para adultos, a linguagem de Shakespeare pode ser desafiadora, e as inúmeras notas de pé de página que algumas edições de seu trabalho apresentam podem intimidar. A cada vez que a pessoa encontra uma palavra ou frase que desconhece, ela deixa a peça de lado para que possa pesquisar o significado. Depois, é preciso retomar o texto do ponto em que a leitura foi suspensa. Para os estudantes, é claro, isso pode ser ainda mais incômodo, e faz de Shakespeare uma tarefa tão cansativa que trigonometria parece brincadeira de criança, em comparação.

Mas boa parte do sentido das falas de Shakespeare pode ser iluminado facilmente pela interpretação dos atores, ainda que parte da linguagem continue a ser remota. A sintaxe que parece confusa e impenetrável lida no papel, subitamente adquire significado ao ser interpretada por um ator, e o WordPlay Shakespeare oferece aos estudantes a oportunidade de assistir ao espetáculo movendo apenas um dedo. Muitas das obscuridades do discurso de Shakespeare podem ser esclarecidas quando a interpretação oferece contexto.

Ainda que seja muito fácil de usar, o WordPlay Shakespeare também pode frustrar. Se um monólogo ou cena se estende por mais de uma página (como é muito comum), e você estiver assistindo à cena, os atores subitamente desaparecem quando chegam à fala na qual a página se encerra. É preciso deslizar a tela para a próxima página e ativar o vídeo de novo para continuar a assistir.

Obviamente, isso é bem menos satisfatório dramaticamente do que assistir a um dos grandes monólogos de Macbeth na íntegra. Por enquanto, não há maneira de apertar o botão de “começar” e ver o texto correndo na íntegra automaticamente, sem que o usuário tenha de adiantá-lo página a página.

Como os livros foram projetados de forma a permitir que os estudantes leiam o texto e o ouçam, os atores muitas vezes declamam lentamente diálogos altamente dramáticos que, no palco, seriam feitos com mais urgência. Quando, em “Macbeth”, a notícia da morte do rei se espalha pelo castelo, não sentimos a sensação de caos, horror e medo que é possível ver em uma encenação teatral, para mencionar um exemplo.

Mas Parker enfatiza que o objetivo do projeto não é produzir entretenimento —afinal, existem inúmeras peças e filmes sobre as obras de Shakespeare já disponíveis—, mas sim ajudar os estudantes a compreender a linguagem que ele usa.

“Não estávamos interessados em representações vistosas ou espetaculares”, ele diz. “Para o nosso interesse, em uma primeira aproximação com a obra de Shakespeare, a ênfase deve estar na linguagem. O objetivo do projeto é ter como foco a dicção, significado e clareza da linguagem, e creio que os nossos atores cuidem bem disso”.

Eu concordo com a avaliação: embora ninguém vá esquecer sua interpretação favorita de “Macbeth” ou “Sonho de Uma Noite de Verão” ao assistir aos vídeos, os atores (a maioria dos quais, mas não todos, norte-americanos) falam a linguagem das peças com a lucidez de atores clássicos bem treinados. Por mais vívida e quente que seja, uma interpretação como a de Al Pacino para o Shylock de “O Mercador de Veneza” provavelmente não ajudaria os estudantes que estão simplesmente tentando conectar linguagem e significado, em Shakespeare.

SHAKESPEARE DIGITAL

O trabalho da WordPlay Shakespeare não é a única tentativa de criar versões “vitaminadas” de suas peças para consumo em novas mídias. A Luminary Digital Media, em colaboração com a editora Simon & Schuster e com a biblioteca Folger Shakespeare Library, criou uma série de peças de Shakespeare para o iPad que combinam texto e gravações em áudio. Os títulos disponíveis incluem “Macbeth” e “Sonho de Uma Noite de Verão”, bem como “Otelo” e “Romeu e Julieta”. (“Hamlet” está em produção.)

As versões, vendidas a US$ 11,99, tem a vantagem de permitir que você leia (ou ouça) cenas inteiras, ou mesmo a peça inteira, de uma vez, sem interrupção. Elas também oferecem funções de redes sociais, permitindo que o leitor faça anotações e as compartilhe com seus amigos no Facebook. (Fico imaginando quantas pessoas apertarão o botão “like” para algo assim, mas deixemos para lá.)

Como no caso das peças do WordPlay Shakespeare, ouvir as palavras pode ajudar a esclarecer o significado, mas não gostei nada da barra cinzenta que mostra as palavras que estão sendo ditas. Ela mais distrai que ajuda, mas, se você está mais ouvindo que lendo, e quer começar e largar a leitura só nos trechos que lhe interessam, o indicador visual pode ser útil. Além disso, se você estiver só lendo e ouvindo em modo contínuo, fique atento à função sleep do iPad, que desativa a tela depois de certo tempo, já que você não estará virando páginas manualmente.

Com apenas dois títulos até o momento, o projeto WordPlay Shakespeare não está tão avançado quanto o concorrente, mas Parker diz que as reações foram positivas. “A resposta que encontramos é que nosso trabalho torna as peças muito mais compreensíveis, mas sem dilui-las”, ele diz.

E embora a inspiração do projeto seja pedagógica —antes de aceitar emprego na New Book Press, Parker foi “tecnólogo da educação” na Universidade Harvard por 12 anos—, o produto obviamente não tem rotulação de idade. Estudar as peças de Shakespeare é um esforço que dura a vida toda, e o WordPlay Shakespeare pode servir muito bem a pessoas que deixaram a escola há muito tempo. Os apps podem encontrar audiência maior nas salas de estar, ocupadas por pessoas cada vez mais familiarizadas com a tecnologia, do que nas salas de aula.

“Alguns adultos a quem mostrei o app tiveram reação parecida: ‘Como eu queria ter tido algo assim quando estava estudando Shakespeare'”, diz Parker, acrescentando que ele mesmo compartilha do sentimento.

Embora eu ocasionalmente me incline ao desânimo diante da influência cada vez mais pesada da tecnologia nova sobre a literatura, tenho de admitir que sinto a mesma coisa. A molecada de hoje, para quem datilografar em uma máquina de escrever seria provavelmente considerado um exercício fatigante, realmente não faz ideia de quanto as coisas são fáceis hoje em dia.

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