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Como planejar um ano de boas leituras – e fugir de algumas armadilhas

Danilo Venticinque, na revista Época

Um dos erros mais frequentes que leitores cometem no início do ano é exagerar em suas metas. Quantos livros você planeja ler em 2014? Cem livros no ano? Um livro por semana? Um por dia? Entusiasmados pelos excessos do fim de ano e envergonhados pelos livros que não lemos, imaginamos um futuro próximo em que nos empanturraremos de livros. O resultado desse otimismo exagerado é uma enorme ressaca literária. Um objetivo ousado demais pode transformar a leitura num martírio, em vez de um prazer.

Em teoria, definir o número de livros que pretendemos ler até o fim do ano é uma boa ideia. Muitos dos leitores com quem conversei no fim de 2013 fizeram promessas desse tipo. Os números variavam de metas modestas, como terminar um livro por mês, a grandes desafios, como acabar com os livros não lidos na estante ou ultrapassar a marca de cem títulos até o fim do ano. Resoluções como essas são um enorme incentivo para lermos mais. Mas será que elas nos fazem ler melhor?

Pensemos num exemplo extremo. Já escrevi aqui sobre a americana Nina Sankovitch, autora de O ano da leitura mágica, que virou notícia por ler um livro por dia, todos os dias, durante um ano. Conheço muitos leitores que sonham em fazer o mesmo. Cheguei a ter essa vontade. Passou. Nina é um exemplo de disciplina, mas quanto mais penso nos seus 365 dias de leitura, menos eles me parecem atraentes. Com um compromisso diário desses, a leitura se torna uma obrigação. Todos nós já passamos por momentos em que o cansaço mental nos impede de dedicar aos livros a atenção que eles merecem. Perseverar na leitura, nesses casos, é uma bobagem. Tanto o livro quanto o leitor merecem mais. O compromisso de terminar um livro por dia também nos privaria de pequenos prazeres, como ler apenas algumas páginas antes de dormir, ou prolongar de propósito a leitura para não nos despedirmos cedo demais de um livro que amamos. Em troca da satisfação de cumprir a meta de leitura, perde-se o direito de fechar e abrir o livro quando tivermos vontade.

Basta olhar a lista de livros lidos por Nina para deparar com outra falha em sua meta de leitura. Para cumprir sua tarefa diária sem enlouquecer, ela praticamente só leu livros curtos. Investiu em A morte de Ivan Ilitch, mas passou longe de Guerra e paz. Se fosse brasileira, talvez arriscasse Primeiras estórias, mas não chegaria nem perto de Grande sertão: veredas. Entre os clássicos da literatura há livros curtos e maravilhosos, mas também há milhares de livros extensos. Será que vale a pena passar um ano fugindo de todos eles?

O que vale para a meta ousada de Nina vale, também, para promessas menos ambiciosas. Comprometer-se a ler um livro por semana pode levar um leitor a abrir mão de livros mais extensos ou até a ler por obrigação. É a receita para perder o entusiasmo com a leitura.

A melhor maneira de planejar um bom ano de leituras é pensar não no número de livros que queremos ler, mas em quais são os livros que mais queremos ler, e como podemos organizar nosso cotidiano para lê-los. Separe na sua estante aqueles quatro ou cinco livros que você sempre quis ler, mas por algum motivo deixou para depois. Comece por eles, e deixe suas outras leituras em segundo plano. Nos dias em que não tiver muita disposição, avance apenas algumas páginas. Compense mergulhando na leitura quando se sentir mais disposto. E tente ler todos os dias, ao menos um pouco. A leitura é um prazer, mas também é um hábito.

Ao final do ano você certamente terá terminado os livros que se comprometeu a ler – e muitos outros que aparecerão no seu caminho, ou despertarão o seu interesse por algum motivo. Talvez seu total de livros lidos não supere o de quem sacrificou o prazer da leitura para apostar na quantidade. Pouco importa. Cumprir metas arbitrárias de leitura pode até ser gratificante, mas não se compara à sensação de terminar os livros que realmente queremos ler.

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