Raquel Cozer na Folha de S.Paulo

A cortesã mineira dona Beja ajudou François Dumont, futuro avô de Santos Dumont, num plano para fazer fortuna no século 19. Anos antes, o francês desembarcara no país para expandir os negócios do sogro, dono da joalheria parisiense Gerbe d’Or.

Ok, essas são versões dos fatos. Se levarmos a história ao pé da letra, podemos dizer só que Beja e Dumont (o avô) viveram na mesma época na mesma região de Minas. E que o sogro dele era joalheiro, mas não da Gerbe d’Or.

Quem preencheu com ficção as lacunas factuais até formar uma trajetória crível de quase 600 páginas foi Alberto A. Reis, 66, no romance “Em Breve Tudo Será Mistério e Cinza”, lançado pela Companhia das Letras.

Editoria de Arte/Folhapress

A obra integra uma seleção de bons títulos recentes que têm em comum o mergulho numa seara pouco explorada pela literatura nacional —a de romances que retratam Brasil Colônia e Império.

Outros exemplos são “Quatro Soldados” (Não Editora), de Samir Machado de Machado, cuja trama revê o Sul dos anos 1750, e “O Bibliotecário do Imperador” (Biblioteca Azul), de Marco Lucchesi, no Rio do fim do século 19.

Há ainda “A Máquina de Madeira” (Companhia das Letras), de Miguel Sanches Neto, sobre o padre paraibano que criou, no século 19, o protótipo da máquina de escrever. O livro, de 2012, concorreu em 2013 aos prêmios São Paulo e Portugal Telecom.

No geral, esses romances tiveram repercussão tímida e ainda não esgotaram as tiragens iniciais, de 3.000 cópias —num país em que livros de história (Laurentino Gomes, Leandro Narloch etc.) saem às centenas de milhares.

“Muitos veem o romance histórico como algo do passado. Parece que não é literatura”, diz Sanches Neto, 49.

No caso nacional, não chega nem a ser coisa do passado. Quando o romance histórico deslanchou na Europa no século 19, com “Ivanhoé” (1819), do escocês Walter Scott, e “Os Três Mosqueteiros” (1844), do francês Alexandre Dumas, mal havia romancistas por aqui.

Os grandes nomes do país surgiram na segunda metade daquele século, com destaque para José de Alencar, com “Iracema” (1865), cuja trama se passa 200 anos antes.

Mas logo o olhar para o passado minguou no país, com exceções como “O Tempo e o Vento” (1949-1961), de Érico Veríssimo, e “Viva o Povo Brasileiro” (1984), de João Ubaldo Ribeiro. No Reino Unido, por sua vez, Bernard Cornwell, Hillary Mantel e outros ainda fazem sucesso.

“No geral, o romance histórico decaiu no século 20. Não em interesse, porque Dumas continua sendo lido, mas em prestígio a ficção toma outro rumo, mais moderno”, diz Jefferson Cano, especialista em literatura e história.

A extensão do passado também influi no desinteresse nacional. “O romance histórico europeu volta à Idade Média, o que não temos aqui”, diz o professor da Unicamp Mário Frungillo.

FRONTEIRAS

Mas foi a ideia da “Idade Média brasileira” que fez Samir Machado de Machado, 32, investigar conflitos de índios, espanhóis e portugueses nas fronteiras sulinas do século 18, em “Quatro Soldados”.

“Entre o descobrimento do Brasil e a chegada de d. João 6º, há um período em que o país é meio abandonado. É vago o bastante para liberar a imaginação”, diz.

O crítico Luís Augusto Fischer lembra que o autor não está isolado no esforço de reconstruir um Sul ficcional. É conterrâneo de Tabajara Ruas e Luiz Antonio de Assis Brasil, que já recontaram a história pela ficção. “O pensador italiano Franco Moretti escreveu que romances históricos tendem a vir de regiões de fronteira. Pertencer ou não ao Brasil está sempre em causa na literatura do Sul”, diz.

No geral, esse olhar ficcional é permeado de ironia —é um país que nasce com mais pompa que circunstância.

“Em Breve Tudo Será Mistério e Cinza” é o mais debochado, ao tratar da aclimatação de Dumont ao país, constrangido pelo fascínio que sente por escravas. Alberto A. Reis trata, ainda, de debates atuais, como o tamanho do Estado na economia. “A ficção não é real, mas tem de soar verdadeira.”

Esse é, para Sanches Neto, o diferencial de romances históricos recentes. “Não quero ensinar história, quero discutir a sociedade atual a partir do que esquecemos.”

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