Empresa vendeu, desde o começo do ano, um livro a cada 30 minutos em média
Sediada em São Paulo, empresa também publica Machado de Assis, Euclides da Cunha e outros autores em domínio público

Maurício Meireles em O Globo

A página de venda do ebook 'Mein Kampf' na Amazon Reprodução

A página de venda do ebook ‘Mein Kampf’ na Amazon Reprodução

RIO – A edição digital do livro-manifesto de Hitler, “Mein Kampf” (minha luta, em português), no qual ele expressou suas ideias de supremacia racial e lançou os fundamentos ideológicos do nacional-socialismo, teve um aumento súbito de vendas nas principais livrarias digitais do mundo, atingindo destaque nas lojas da Amazon nos Estados Unidos e na Inglaterra. E, no meio desse sucesso, está uma pequena editora brasileira, a Montecristo, sediada em São Paulo, que vendeu 509 livros desde o dia 1º de janeiro, o que dá, em média, um exemplar a cada 30 minutos.

Até o fechamento desta edição, o “Mein kampf” da Montecristo estava em primeiro lugar entre os ebooks mais vendidos da categoria “propaganda e psicologia política” na lista de mais vendidos da Amazon americana. Na lista geral da mesma livraria, com todas as obras, o livro estava em 837º. Já na versão britânica da livraria, o manifesto de Hitler figurava em 14º entre os mais vendidos na categoria “política e ciências sociais”. A obra sai por US$ 0,99, nos EUA, e £ 0,99, no Reino Unido.

O fato foi antecipado, na tarde de ontem, pelo site Vocativ.com, do jornalista americano Chris Faraone. A Montecristo, com capital social no valor de R$ 3 mil, tem como sócios o advogado Alexandre Pires Vieira e sua mulher, Renata Russo Blazek. Procurado pelo GLOBO, o advogado, que criou a editora há dois anos e vende só livros em domínio público, ficou surpreso com a notícia.

— Não estava sabendo dessas vendas. Eu só recebo relatórios da distribuidora digital a cada 60 dias. Criei a Montecristo meio informalmente, há dois anos, com vários livros em domínio público — diz Vieira. — Da primeira vez que tentei vender “Mein Kampf” na loja da Apple, eles se recusaram a vendê-lo. Recebi um email dizendo que contrariava as normas da iBookstore, por se tratar de propaganda nazista.

Alexandre Pires Vieira que escreveu para a empresa contestando a posição de proibir a venda da obra.
— Se você tomar ao pé da letra, até é propaganda nazista. Mas minha ideia é que as pessoas leiam e vejam quão absurdo eram as ideias de Hitler — afirma Vieira, lembrando que nenhuma outra loja digital (ele também a vende na Kobo) se recusou a disponibilizar a obra.

Perguntado sobre o porquê de ter escolhido publicar uma obra tão polêmica, Vieira diz que escolheu o que achava “mais interessante”, mas ressalta que não compactua com as ideias expressas na obra.
O advogado diz ainda que o livro costumava vender no máximo 30 cópias por mês. O mesmo que medalhões da literatura brasileira publicados por ele, como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Lima Barreto, entre outros. A Montecristo tem 50 títulos em domínio público disponíveis em ebook.

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