José Rodrigues é professor revisor do Centro de Atendimento ao Deficiente Visual do Acre (Foto: Rayssa Natani/ G1)

José Rodrigues é professor revisor do Centro de Atendimento ao Deficiente Visual do Acre (Foto: Rayssa Natani/ G1)

José Rodriguez perdeu a visão em um acidente de trabalho, aos 47 anos.
Homem trabalhava como mestre de obras em SP e virou professor no AC

Rayssa Natani no G1

Em 1997, o paulista José Rodriguez tinha somente o Ensino Fundamental e era mestre de obras quando perdeu a visão em um acidente de trabalho, aos 47 anos. Hoje, formado em letras com habilitação em português aos 63 anos, o professor revisor do Centro de Atendimento ao Deficiente visual do Acre (CEADV) relembra sua trajetória e atribui à cegueira a maior parte das mudanças positivas em sua vida, entre elas, a retomada aos estudos.

“Se eu não tivesse ficado cego, não teria estudado. Consegui desenvolver um bom trabalho na construção civil com um salário que não era lá essas coisas, mas dava para me manter. Na verdade, eu não sentia falta dos estudos”, comenta.

Rodriguez conta que trabalhava em uma construção em São José do Rio Preto (SP), quando um pedaço de arame perfurou seu olho direito causando uma infecção que afetou também o esquerdo. Segundo ele, a fase inicial de adaptação para quem enxergou durante toda a vida não foi nada fácil. “Os primeiros anos foram bastante difíceis. Eu chorava muito”, admite.

Um ano depois do acidente, José buscou aprender o Braille no centro de atendimento aos cegos de sua cidade natal. Mas, foi ao se mudar para o Acre em 2001 que ele decidiu se dedicar à leitura e aos estudos com mais afinco. “Aprender o Braille não é difícil. O difícil é fazer uso dele. E eu não me interessava. Quando eu vim para cá e conheci o CEADV, eu descobri que podia estudar e me dediquei”.

Pai de três filhos do primeiro casamento, o professor relembra que já conhecia o Acre desde 1984 quando foi mestre de obras durante a construção de um banco no estado. Naquele ano, conheceu a segunda mulher, se casou, e foi para São Paulo. “Voltei para o Acre depois de cego, à pedido da minha esposa. E foi uma importante decisão”, afirma.

Aos 52, ele retomou o Ensino Médio e aos 59 ingressou em uma faculdade à distância com a ajuda de um programa sonoro de informática. Chegou a dar aula para alunos do Ensino Fundamental, também cegos, mas hoje trabalha como revisor de materiais em Braille e áudio livros produzidos para estudantes com deficiência visual do sistema público de educação atendidos pelo CEADV.

Vida normal
Apesar de não ter nascido cego, José garante que hoje está perfeitamente adaptado à sua realidade e leva uma vida normal.  Se locomove todos os dias sozinho pela cidade, com o auxílio de bengala e utiliza telefone celular e computador com softwares desenvolvidos especialmente para portadores de deficiência visual. Ele acredita, ainda, que depois da cegueira passou a enxergar coisas que antes não conseguia.

“Eu passei a ver, depois de cego, que poderia estudar. Vejo o quanto a vida é muito boa, a gente é que não sabe usar. Hoje em dia eu nem percebo que sou deficiente. Me formei, e posso dizer com toda a certeza que estou muito bem casado com uma esposa maravilhosa e levo uma vida feliz”, conclui.

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