Roberto Mardones, gerente da Fundação Presidente Pinochet junto a um quadro do general em Santiago, no Chile Foto: Tomas Munita / NYTNS

Roberto Mardones, gerente da Fundação Presidente Pinochet junto a um quadro do general em Santiago, no Chile Foto: Tomas Munita / NYTNS

Avaliada em aproximadamente US$ 3 milhões, a compilação continha cerca de 50 mil livros

Simon Romero no Zero Hora

A Biblioteca Augusto Pinochet Ugarte, no chão polido da academia militar local, recepciona os visitantes com um retrato a óleo do próprio ditador chileno em trajes militares. A pintura de Pinochet, cujo governo assassinou ou desapareceu com mais de 3 mil pessoas e torturou quase 40 mil outras, fica acima da escrivaninha do bibliotecário.

Em menos evidência, entre as estantes da biblioteca, existem volumes da sua biblioteca pessoal, partes da qual ele doou para a academia antes de renunciar em 1990 após 17 anos no poder. Alguns títulos como “De Tarapacá à Lima”, o relato de 1914 por Gonzalo Bulnes sobre o Chile humilhando as forças peruanas na Guerra do Oceano Pacífico no século 19, ainda estão rotulados em homenagem ao seu infame doador.

O Chile consolidou uma democracia florescente nas décadas desde que Pinochet relutantemente entregou o poder a um sucessor eleito. Ainda assim, as novas revelações sobre o ditador, cujo governo rígido ainda é abertamente admirado por alguns chilenos, continuam a assombrar e até mesmo, de forma mórbida, a fascinar a nação.

As revelações da era Pinochet, que começou em um golpe de Estado em 1973, incluem terríveis violações de direitos humanos e contas bancárias secretas no exterior. Entretanto, a descoberta de que Pinochet secretamente usava dinheiro público para acumular uma vasta biblioteca pessoal — entre as maiores da América Latina contendo as mais valiosas coleções de livros — é particularmente surpreendente, deixando muitos por aqui intrigados com a motivação da sua obsessão.

— Pinochet era atormentado por um intenso complexo de inferioridade, com o qual tentou lidar colecionando livros — disse Cristóbal Peña, jornalista investigativo cujo livro de 2013, “The Secret Literary Life of Augusto Pinochet” (A Vida Literária Secreta de Augusto Pinochet em tradução livre, ainda sem título no Brasil), explora a evolução da biblioteca do ditador, que continha aproximadamente 50 mil livros e foi avaliada de forma conservadora, por especialistas em livros raros, em aproximadamente US$ 3 milhões.

Pinochet, filho de um inspetor alfandegário e um aluno mediano da escola militar, era frequentemente ofuscado por colegas brilhantes como o General Carlos Prats, ministro do interior e comandante-chefe do Exército durante o governo de Salvador Allende.

Contudo, enquanto Pinochet raramente era admirado por seu intelecto, ele veio a ser temido por seus instintos maquiavélicos. Após substituir Prats como chefe do Exército chileno em 1973, ele liderou o golpe que destituiu Allende, e depois começou a eliminar os rivais como Prats, que foi assassinado junto com a esposa no bombardeio de um carro em Buenos Aires orquestrado pela Agência Nacional de Inteligência do Chile em 1974.

Enquanto supervisionava tais operações, Pinochet constantemente colecionava livros, frequentemente fazendo o pedido dos volumes através de uma pequena rede de livrarias no centro velho de Santiago ou pedindo aos funcionários diplomáticos, encarregados das missões chilenas no exterior, que encontrassem certas obras. Durante todo esse tempo, ele pagou pelos livros com fundos discricionários sob o seu controle.

A biblioteca de Pinochet poderia nunca ter vindo à tona não fossem as investigações das contas bancárias secretas do ditador em várias instituições financeiras, inclusive algumas nos Estados Unidos, onde os investigadores acreditaram ter passado mais de UR$ 20 milhões. Ele enfrentou acusações de peculato e sonegação de impostos, além de batalhas legais sobre abusos de direitos humanos, antes da morte em 2006, aos 91 anos.

Examinando as posses de Pinochet, os investigadores descobriram a biblioteca, que tinha escapado à atenção porque foi distribuída casualmente entre várias das suas casas, uma fundação criada em sua homenagem e uma biblioteca da academia militar.

Embora a era Pinochet geralmente seja lamentada, o general ainda tem os seus defensores nas posições conservadoras.

— Tive o privilégio de conhecer o General Augusto Pinochet intimamente e de apreciar as suas qualidades como um homem justo. Ele sempre expressou grande admiração pela vida e obra de Napoleão — declarou Roberto Mardones, gerente da Fundação Presidente Pinochet, a organização sem fins lucrativos que recebeu partes da biblioteca de Pinochet.

Pinochet colecionou muitas obras da época de Napoleão, inclusive uma edição de 1841, no original em francês, “Études Sur Napoléon”, de Marie Élie Guillaume de Baudus, e outros títulos traduzidos para o espanhol.

Pinochet também adquiriu raros tomos coloniais, como os escritos de Alonso de Ovalle, padre jesuíta e cronista da história do Chile no século 17, e volumes do século 18 de “La Araucana”, o poema épico de Alonso de Ercilla sobre a insurreição dos índios araucanos no Chile no século 16.

Complementando os seus livros ligados à História chilena, que também incluíram os diários da prisão de Benjamín Vicuña Mackenna, escritor e político chileno do século 19, Pinochet acumulou obras sobre insurreições de guerrilhas e teóricos marxistas como Antonio Gramsci, o filósofo italiano aprisionado pelo governo fascista de Benito Mussolini.

A sua vasta biblioteca com dezenas de milhares de livros não continha quase nada de poesia ou de ficção, uma exceção sendo “The Rigor of the Bugle” (O Rigor da Corneta em tradução livre), um romance sobre a vida militar chilena escrito no século 19 por Arturo Givovich. Como um legado do governo de Pinochet, as forças armadas do Chile estão entre as mais bem financiadas da América Latina.

Na Biblioteca Pinochet dentro da Academia Militar, os cadetes estudam para provas em um edifício moderno que não seria impróprio no campus de uma universidade nos Estados Unidos. As aquarelas nas paredes da biblioteca falam da busca de lazer: jogos de polo, pesca com mosca e caça às raposas.

Como jovem oficial, Pinochet trabalhou como auxiliar de professor na Academia e foi editor da revista da instituição. Ele também deu aulas de política e de geografia militar, lançando a base para um de seus próprios livros, “Geopolítica”, publicado em 1968 antes de ascender ao ranque de general.

Embora a descoberta da biblioteca de Pinochet tenha levado muitos aqui a argumentar que ele foi uma figura mais complexa do que se possa supor, outros afirmam que a existência de uma coleção de livros não é motivo para reavaliar as suas capacidades intelectuais, expressando dúvida se ele de fato leu muitos dos livros que chegou a possuir.

— Pinochet era medíocre intelectualmente, porém muito astucioso, geralmente escondendo os olhos atrás de óculos escuros — declarou Heraldo Muñoz, de 65 anos, funcionário sênior das Nações Unidas no governo de Allende, antes do golpe de 1973. O seu livro de memórias de 2008, “A Sombra do Ditador”, retrata o Chile pós-Allende e avalia Pinochet e o seu legado.

Muñoz, que possui uma cópia autografada de “Geopolítica” de Pinochet e não é um grande admirador, disse que o general era capaz de alguns erros absurdos. Na primeira edição, Muñoz disse:

— Ele confundiu o estado de Washington com Washington, D.C.

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