J. D. Salinger em um jipe, na libertação de Paris, na Segunda Guerra Mundial - uma parte considerável do novo livro conta as experiências do escritor na guerra, na qual atuou como agente de contrainformação Denise Fitzgerald / Divulgação

J. D. Salinger em um jipe, na libertação de Paris, na Segunda Guerra Mundial – uma parte considerável do novo livro conta as experiências do escritor na guerra, na qual atuou como agente de contrainformação Denise Fitzgerald / Divulgação

Obra nega que escritor fosse recluso, conta seus traumas de guerra e detalha as polêmicas relações com adolescentes

Mauricio Meireles em O Globo

RIO – J. D. Salinger (1919-2010) teria odiado a pesquisa de Shane Salerno sobre sua vida, que chega neste sábado às livrarias, pela Intrínseca, e no dia 14 de fevereiro aos cinemas, em sua versão documentário. “Salinger”, escrito em parceria com David Shields, é uma investigação que custou dez anos e US$ 2 milhões a Salerno. Como resultado do trabalho, os autores revelam fatos que um dos mais famosos reclusos da literatura mundial preferiria manter em segredo. O livro contesta visões clássicas sobre o autor de “O apanhador no campo de centeio”, com fotos e documentos inéditos, e revela que ele deixou instruções para a publicação de novos livros já a partir do ano que vem. Salerno diz ter contado, no começo da pesquisa, com a colaboração em off de alguém da família Salinger.

Biografia e documentário dividiram a crítica internacional. Alguns saudaram as revelações da pesquisa; outros condenaram a invasão da privacidade de um dos maiores ídolos literários do século XX. Salerno foi acusado de representar a vingança da cultura da celebridade contra um homem que sempre se opôs a ela. Mas para essa crítica ele tem uma resposta na ponta da língua.

— O “New York Times” foi um dos que escreveram isso. Engraçado, porque, durante meses, eles me imploraram, literalmente, para ter exclusividade sobre as revelações do livro. Tenho todos os e-mails. É hipócrita. Eles publicaram centenas de reportagens sobre a vida de Salinger quando ele estava vivo — diz Salerno, cujo livro é escrito na forma de depoimentos, o que atrapalha a fluência da leitura.

Contos sobre a família Caulfield

Até hoje, as principais fontes sobre a vida do autor eram os livros “Salinger — A biography”, de Paul Alexander, e “Salinger — Uma vida” (editora Leya), de Kenneth Slawenski. Além das memórias de sua filha, Margaret (“Dreamcatcher”), e de sua ex-mulher, Joyce Maynard (“Abandonada no campo de centeio”). Salinger excluiu a filha da herança por causa do livro.

Após lançar “O apanhador no campo de centeio”, em 1951, o autor se afastou gradualmente da vida pública. Publicou seu último texto em 1965, na revista “New Yorker”. Mas seguiu escrevendo. E uma das missões que Salerno se impôs foi descobrir o quê. O biógrafo afirma que Salinger deixou instruções para que seus inéditos sejam publicados entre 2015 e 2020.

Um dos livros é “The Glass family”, que reúne contos antigos e inéditos sobre a família Glass, recorrente na obra do escritor. Outro trará contos sobre a família Caulfield, à qual pertence Holden, o protagonista de “O apanhador…”. Há ainda duas obras passadas na Segunda Guerra e outra de contos inspirados no vedanta, religião indiana seguida por Salinger.

Além dessa revelação, Salerno defende que alguns conceitos sobre Salinger são mitos. O primeiro é a ideia de que ele foi recluso.

— Recluso? Recluso era o Howard Hughes (bilionário americano que se isolou da vida pública nos anos 1950)! — diz. — Ele e seus amigos costumavam rir dessa fama. Um recluso não aparece nos bastidores da Broadway e se apresenta como Salinger para as atrizes.

O escritor ia todos os dias à agência de correio perto de sua casa buscar as cartas que trocava com pessoas do país inteiro — mulheres muito mais novas em especial. Salinger também frequentava o jantar de domingo da igreja, e há relatos de que viajava para visitar garotas com quem trocava cartas — e até se decepcionou ao descobrir que uma delas não era nenhuma Lolita ao vivo.

Algumas revelações polêmicas do livro, aliás, dizem respeito ao envolvimento de Salinger com adolescentes. Uma delas, Jean Miller, veio a público pela primeira vez na biografia. Quando se conheceram, ela tinha 14 anos. Ele, 30. Os dois chegaram a dormir juntos. Mas ela diz que só perdeu a virgindade com o escritor aos 20 anos. Ele a rejeitou no dia seguinte. Salinger se encantava, de certa forma, com a pureza infantil. Não à toa, era amigo das crianças de Cornish, cidade onde se escondeu dos holofotes.

Para Shane Salerno, os problemas do escritor — ele sempre se afastava das garotas depois de ir para a cama com elas — vinham da vergonha que sentia pelo fato de ter apenas um testículo. Segundo o biógrafo, Salinger teria confessado o problema a Hemingway, quando os dois se encontraram na Segunda Guerra Mundial, na qual ambos serviam.

— Ninguém questiona a veracidade das informações, mas dizem que eu não devia tê-las publicado. Eu devia trancar tudo num armário? — questiona Salerno. — Nada do que eu conto diminui o escritor extraordinário que Salinger foi. Mas é claro que nem todas as suas atitudes podem ser elogiadas.

Algumas revelações ficaram de fora

Uma parte considerável do novo livro conta as experiências de Salinger na guerra, na qual atuou como agente de contrainformação. Salerno defende que essa experiência marcou toda a obra dele. Salinger foi um dos primeiros a entrar no campo de concentração de Dachau, no Sul da Alemanha, onde viu as pilhas de corpos deixados para trás.

Após o fim do conflito, o escritor se internou num hospital psiquiátrico — o suficiente para seus biógrafos concluírem que ele sofria de estresse pós-traumático. Ao sair, em vez de ir para casa, se alistou de novo, desta vez para ajudar na “desnazificação”. Ironicamente, casou-se com uma alemã, Sylvia, que os biógrafos concluem ter sido informante da Gestapo. Mesmo no período do front, ele enviava contos para revistas literárias avaliarem.

Salerno diz que deixou algumas revelações de fora, para não comprar uma “grande briga”. Vai divulgá-las algum dia?

— Ainda não sei. Nem sei o que diriam de mim se eu tivesse publicado tudo.

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