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Matheus Mans, no Literatortura

O Haicai, poema de origem japonesa, é uma das coisas mais ambíguas e interessantes da literatura. Ele une, em pouquíssimas palavras, o simples e o complexo. O simples, pois é formado por apenas três linhas, sendo a primeira e a última constituídas de cinco sílabas e a intermediária de sete silabas. E complexo justamente por sua simplicidade. O poeta, ou haijin, deve passar tudo o que pretende expressar neste diminuto espaço. É um verdadeiro desafio.

Este estilo de escrita surgiu no Brasil no início da década de 1920 e popularizado através das mãos do poeta Guilherme de Almeida, que até mesmo sugeriu a forma de rima a ser realizada nos haicais a serem produzidos. Pela lógica do poeta, o primeiro e o terceiro verso devem rimar. Já o segundo, deve haver uma rima interna, entre a 2ª e a 7ª sílabas. Guilherme de Almeida, então, não apenas introduziu este estilo de poema, como o inovou.

Porém, o que mais chama a atenção do haicai brasileiro é a diversidade de temas que ele abrange. No oriente, berço dos haicais, a temática é única e exclusivamente ligada à natureza. Bashô, haijin do oriente mais conhecido, relatava a natureza de forma simples, quase apenas descritiva, como o exemplo abaixo:

Apesar do sol
Ardendo sem compaixão,
O vento de outono.

Ao chegar ao Brasil, porém, o haicai segue um rumo completamente diferente ao do oriental. Apesar de ainda haver temática ambiental, o haicai acabou por se diversificar no Brasil, tornando-se sua principal característica. Aqui, esta forma de poema exige não apenas o talento para poucas palavras e uma olhar descritivo razoável. É necessário haver sensibilidade para emocionar ou criticar socialmente, senso de humor afiado para os de temática humorística ou até mesmo ter sutileza para perceber pequenos detalhes em acontecimentos cotidianos para transformá-los em algo digno de um haicai que chame a atenção do leitor.

Além disso, vale frisar o rompimento total que é feito com a forma. Muitos haicais acabam por deixar de obedecer ao regulamento guilhermino. Apesar de se aterem às poucas palavras, alguns excedem ao número de sílabas ou até mesmo com um número menor ainda. Os três versos, porém, permanecem intactos durante todas as transformações ocorridas.

O haicai brasileiro e a natureza

Obviamente, o primeiro tema a ser tratado no Brasil foi a natureza, pois tentava-se ainda seguir a lógica oriental, de se tratar apenas de temas ligados ao ambiente. Assim como o oriental, o haicai brasileiro ligado à natureza possui um tom descritivo muito forte, porém, muitas vezes, adaptado ao cotidiano tupiniquim. Ainda assim, há algumas diferenças notadas, caso comparemos as duas origens. Os japoneses são quase totalmente descritivos de elementos naturais. Os brasileiros, porém, acrescentam a presença humana e de sentimentos, incrementando o poema.

Cortina de seda
O vento entra
Sem pedir licença

(Paulo Leminski)

Noite de silêncio
Uma moça na janela
Contempla a neblina

(Tânia Souza)

O haicai brasileiro e o humor

Outra temática frequente é o humor. O mais interessante deste tópico em especial é que, mesmo tendo um humor afiado e, ao mesmo tempo, sutil presente nas poucas linhas do poema, ainda há, na maioria das vezes, uma reflexão intrínseca ao riso.

Millôr Fernandes, mestre desse tipo de haicai, ilustra como ninguém a afirmativa acima. Quase todos os seus poemas mesclam a reflexão com o riso. Às vezes, inclusive, uma das duas reações é tão sutil que se demora a perceber a sua existência.

A vida é um saque
Que se faz no espaço
Entre o tic e o tac.

(Millôr Fernandes)

LAR

Espaço que separa

O Volkswagen

Da televisão.

(José Paulo Paes)

Viva o riso!

Só sabe rir quem tem

Dente do siso.

(Lêdo Ivo)

Outros, porém, buscam apenas o riso imediato, o que não desmerece nem um pouco a relevância do haicai. O fato de provocar o riso em três linhas é algo dificílimo e que exige muita presença de espírito. Um dos meus haicais preferidos é o que se encontra abaixo, de José Paulo Paes. Em apenas seis letras, consegue fazer, em minha opinião, o mais fascinante haicai humorístico.

CRONOLOGIA

AC

DC

WC

O haicai brasileiro e a política

O haicai também é um intenso meio de denúncia política e social. Através das três linhas, o haijin consegue fazer severas denúncias sobre algumas situações de sua realidade, seja no campo da política, economia, religioso ou social. Carlos Drummond de Andrade é um dos que mais abordavam a crítica em seus haicais. Abaixo, três exemplos provindos da obra de Drummond:

Não tenho dinheiro no banco,

Porém,

Meu jardim está cheio de rosas

***

Se o Papa ganha a Parada

Você me garante

Que a Amazônia será povoada?

***

O censor olhou-se

No espelho e censurou-o:

Que horror!

O haicai brasileiro e o concretismo

Por fim, iremos falar de uma modalidade de escrita de haicais. O concretismo é uma vanguarda europeia e que também foi adaptada aos haicais. Esse estilo de escrita brinca com a maneira que as palavras são dispostas, permitindo diferentes interpretações do que está escrito. Décio Pignatari, um dos maiores nomes do concretismo no Brasil, foi um dos pioneiros que introduziu esse modo de escrever aos pequenos poemas. Aliás, é interessante observar a predominância do tema “rã” nesse estilo.

VELHA

LAGOA

UMA RÃ

MERG ULHA

UMA RÃ

ÁGUA

ÁGUA

(Décio Pignatari)

o velho tanque

rã salt’

tomba

rumor de água

(Haroldo de Campos)

Salta a rã no lago
((((( o tremor da água se espalha )))))
mergulha em galáxias.

(Lena Jesus Ponte)

Enfim, o haicai é uma belíssima forma de expressão. Tal qual em uma fotografia, busca exprimir em um pequeno espaço algo que seja suficiente para cumprir sua função, seja ela rir, entreter, criticar, observar. Haicai é uma forma completa de escrita, apesar de seu tamanho, que permite que o leitor viaje completamente por suas linhas e palavras.

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