chuva

Publicado por Diego Quinteiro

Era uma manhã chuvosa de quarta feira quando cheguei na escola para fazer a prova de literatura. Já na sala, respondendo as perguntas, meu colega sussurrou:

– Psiu! Quem é Capitu?

– Caramba, você não leu o livro? – sussurrei de volta.

– Cara… eu mal consigo ler a prova.

Estávamos no primeiro colegial.

Em outra manhã, havia chegado para cumprir uma grade de 5 aulas: uma de educação física, duas de matemática e duas de química.

Entrei na aula de educação física e fui jogar bola, quando logo fiquei sabendo que a professora de matemática tinha faltado. Como a escola também não tinha mesmo nenhum professor de química, ao fim da pelada resolvi pular o muro da escola e voltar para casa.

Tomei uma advertência.

Minha professora de matemática fazia tripla jornada e era comum que ela faltasse algumas vezes no mês. Nesses dias, sobravam duas opções: ou não tinha aula nenhuma, ou tínhamos aulas com um professor substituto.

Certa vez, estava o substituto corrigindo um exercício meu. Nunca fui bom aluno, mas gostava de matemática e estava bem convencido de que o perímetro do círculo era π vezes seu diâmetro. Já o professor achava que era π vezes o quadrado do raio.

– Professor, isso é a área! – disse.

– Ah! Se você insiste, deve estar certo. Eu não sou formado em matemática.

Ele era formado em artes. Quando a professora de matemática teve um filho e tirou licença, foi ele quem nos deu aula até o final do semestre.

Todas essas histórias são verdadeiras e aconteceram comigo, entre 2002 e 2003, em uma escola pública da rede estadual de São Paulo, considerada uma das melhores da zona norte da capital.

Com tantos problemas de infra-estrutura, organização e capacitação, de que me serviram esses anos na escola?

Não aprendi geometria, nem as leis de Newton, nem inglês, nem a história das grandes guerras, nem sobre o clima da Ásia. Não aprendi a conjugar o verbo haver, nem onde pôr as malditas crases. Não aprendi a resolver equações, nem calcular a trajetória de um projétil.

Da grade curricular, aprendi realmente muito pouco.

Já se foram mais de 10 anos, e desde então venho praguejando não ter aprendido nada na escola. Foi só hoje, olhando para trás, que percebi o quanto fui tolo, que não existe experiência na vida que não lhe ensine nada.

Para mim e para qualquer um dos jovens que estudaram ao meu lado ou nas mesmas condições que eu, não existia qualquer motivação para estudar. Víamos nossos próprios mestres passarem dificuldades, aqueles que deveriam ser nosso maior exemplo de como os estudos poderiam melhorar nossas vidas.

Muitos professores tinham se formado ainda na ditadura militar e desde então não tinham tido a oportunidade de se atualizarem. Precisavam dar aula em mais de uma escola para complementar a renda e viviam a galopante desvalorização de seus salários congelados por já uma década.

Não havia alegria na escola. Todo mundo estava cansado e frustrado. Só depois de adulto entendi que é impossível ser feliz quando seu trabalho não resulta em nada. Um professor jamais será feliz se a estrutura e o sistema em torno dele fizer seus alunos desistirem de aprender.

A monitora que cuidava de nós nos intervalos e infindáveis aulas vagas era uma senhora de 80 anos que, por Deus, deveria estar curtindo sua merecida aposentadoria, mas por motivos financeiros era obrigada a cuidar de uma multidão de crianças e adolescentes que não queriam estar lá.

O prédio era feito um presídio: cinza, sem acabamento, com grandes portões de metal, grades nas janelas e arames farpados sobre os muros. E é exatamente assim que nos sentíamos, como presidiários de regime semi-aberto, deixando a escola todo dia lamentando termos que voltar no seguinte. Não por acaso, por diversas vezes os alunos planejaram fugas e arrombamentos dos portões da escola.

Entediados, sem aulas, sem lazer, maltratados e presos. Esse é o ambiente no qual se espera que um jovem desenvolva seu potencial?

No Brasil, se tiver dinheiro, você pode pagar para seu filho estudar em uma escola que não tem nenhum desses problemas. Conheço gente que, ainda no ensino médio, tinha aulas de piano. Que tinha professores doutores. Colégios com piscina olímpica, quadras de piso emborrachado e bosques. Tinham plantonistas de dúvidas depois do horário. Tomavam aulas de computação. Ganhavam até fitas VHS com filmes que tratavam dos temas estudados em sala de aula.

Minha família não tinha dinheiro nem para comprar um videocassete.

Posso não ter aprendido matemática ou química, mas aprendi que na vida nem todos tem as mesmas oportunidades ou mesmo oportunidades parecidas. Que inclusive alguns não tem nenhuma oportunidade.

Quem estudou comigo foram os filhos dos trabalhadores que moravam nas favelas e os filhos da classe média, como eu, que tinham sido vítimas da irresponsabilidade econômica neoliberal que se praticou no Brasil na segunda metade da década de noventa. Esses foram meus amigos e, na verdade, esses eram todas as pessoas que eu conhecia.

A primeira vez que nossas vidas cruzaram com as dos jovens da elite foi no vestibular. Chegamos desarmados para brigar com outros que estavam há anos se armando para nos enfrentar. Éramos amadores, como um time de várzea desafiando o campeão da série A – estávamos certos da derrota.

O vestibular é a barreira definitiva da segregação social. Nele não é testado sua capacidade de cursar a faculdade, mas sim a sua origem. Aqueles que tiveram que contar com o ensino público não tem chance, pois os testes irão cobrar uma miríade de conhecimentos que são ensinados apenas nas escolas particulares.

Sim, por fim eu passei no vestibular, com esforço. Alguns irão se apressar em argumentar que sou um exemplo de que as oportunidades são dadas, e justificar assim jogar nas costas do indivíduo a responsabilidade por ele não ter conseguido um lugar ao sol nas trevas dos nossos abismos sociais – o que é uma imaturidade. Sempre é imaturo julgar os indivíduos.

Tenho o pé no chão e vivência para entender que meu feito foi consequência de muitas condições favoráveis, em grande parte por conta de meus pais terem tido sucesso em incentivar e prover recursos para que desenvolvêssemos nossa intelectualidade. O envolvimento de ambos meus pais com a militância política tiveram grande participação na minha capacidade de compreender coisas e, em consequência, me tornar autodidata – o que me capacitou para brigar por minha vaga na universidade.

Ainda assim, tive que pagar um curso pré-vestibular com meu primeiro emprego para preencher as lacunas do ensino público que me reprovaram em 2005 em minha primeira tentativa. Com muita sorte e muita ajuda, consegui entrar na USP em 2006.

Lembro-me bem que a escola pública foi o último lugar na minha vida que frequentei onde a proporção de negros presentes era coerente com a proporção de negros da cidade. De lá para cá, superada a barreira da segregação do vestibular, fui passando a freqüentar espaços elitizados, como a própria universidade, as empresas de engenharia e os eventos de tecnologia. Cheguei até a ter um programa de televisão. Todos esses espaços são dominados por homens brancos. Não consigo deixar de pensar que se eu fosse negro ou mulher, talvez isso fosse suficiente para que eu não tivesse as condições favoráveis que tive para ocupar esses espaços.

O que aprendi na escola pública? Aprendi sobre injustiça e desigualdade. Sobre o mundo real, sobre a vida ser dura. Sobre preconceito, racismo, machismo e sobre barreiras intransponíveis. Aprendi a ter a humildade de saber que se hoje tenho uma vida melhor é porque tive mais sorte do que mérito. Sorte daqueles que tem, pois os que não tem não tiveram escolha.

Aprendi que todos mereciam uma chance de brilhar, mas que nem todos terão.

Essas coisas que tomo como óbvias e me formam como pessoa e como cidadão, não posso assumir que sejam óbvias para todos. Nenhum texto nem nenhuma imagem consegue substituir a experiência.

O que aprendi na escola pública não ensinam nas melhores escolas particulares e, diferente das fórmulas de matemática, são coisas que levo para a vida toda.

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