bookmania

No próximo sábado, um evento promoverá o desapego literário em várias cidades do país

Danilo Venticinque na revista Época

O brasileiro lê em média seis minutos por dia. Metade dos brasileiros não leu nenhum livro nos últimos três meses. 75% dos brasileiros nunca pisaram numa biblioteca. Diante de dados como esses, o pessimismo deixa de ser uma escolha e, para alguns, se transforma numa obrigação moral. Ao leitor brasileiro, esse ser tão improvável, só restaria lamentar a ignorância do público em conversas com outros raríssimos leitores, nos mesmos bares e eventos de sempre, e continuar a caminhada silenciosa rumo à extinção.

Num terreno tão inóspito, só loucos acreditariam que ações de incentivo à leitura têm algum futuro. Volta e meia escrevo sobre alguns deles. Há os quatro ou cinco twitteiros que transformaram uma hashtag despretensiosa numa campanha nacional para doação de livros. Há quem venda livros a preços populares em estações de metrô. Há quem transforme bicicletas em bibliotecas itinerantes. Todos unidos na loucura de acreditar que os brasileiros podem ler mais.

Na última semana, deparei com mais um desses loucos, que atende pelo nome de Felipe Brandão. Ele é o criador da campanha “Esqueça um livro”, iniciada em abril de 2013. Participar dela é tão fácil que talvez você já o tenha feito sem querer: basta deixar um livro num lugar público para que outro leitor o encontre. A ideia é fazer com que os livros circulem em vez de voltar para a estante depois de lidos. O projeto é inspirado no BookCrossing, um projeto criado em 2001 nos Estados Unidos com um objetivo nada modesto: fazer do mundo uma biblioteca.

“Os dados sobre leitura no Brasil são assustadores em relação a outros países, mas no meu dia a dia tenho visto algumas mudanças”, diz Felipe. “As pessoas estão lendo mais. Um movimento como o ‘Esqueça um livro’ é pequeno, mas é o meu gesto. Tenho esperança de que o país pode melhorar por meio da leitura.”

A biblioteca de Felipe ainda é modesta, mas sua loucura já começa a dar resultados. Desde abril, ele diz ter “esquecido” cerca de 800 livros em vários pontos de São Paulo e outras cidades. Outras pessoas também aderiram. “Já recebi fotos de livros ‘esquecidos’ na Times Square, em Nova York, e no Cristo Redentor”, afirma Felipe.

No próximo sábado, aniversário da cidade, a campanha deve crescer. Ele reuniu 600 livros e promete deixá-los no ponto de ônibus em frente ao Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, as 14h. Outros leitores são convidados a levar seus próprios livros para “esquecê-los” no local, ou para encontrar suas próximas leituras. Leitores de outras cidades também podem participar e enviar fotos de seus livros “esquecidos” em qualquer lugar do Brasil. Antes de “esquecer” o livro, uma dica é escrever uma dedicatória explicando a campanha. “A ideia é que o livro continue circulando e seja esquecido novamente depois de lido”, diz Felipe.

Distribuir livros depois de ler em vez de guardá-los na estante é uma loucura. Abandonar livros em lugares públicos, longe das prateleiras de livrarias e bibliotecas, é loucura. Acreditar que outras pessoas vão seguir a mesma ideia é loucura. Que a loucura de Felipe tenha tanto sucesso quanto a de outros loucos por leitura – e que algum dia eles convençam os pessimistas a parar de reclamar.

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