Jackie na Viking: estilo discreto, mas impecável de se vestir no trabalho Alfred Eisenstaedt

Jackie na Viking: estilo discreto, mas impecável de se vestir no trabalho Alfred Eisenstaedt

Aos 46 anos, após a morte do segundo marido, ela ingressou no mercado de trabalho

Fernanda Baldioti em O Globo

RIO – Jacqueline Kennedy Onassis pode até ter deixado de lado um pouco do glamour das grandes recepções na Casa Branca ou dos festões ao lado de Aristóteles Onassis, mas poucas como ela seriam capazes de mobilizar um batalhão de fotógrafos para registrar seu primeiro dia de trabalho. Sim, a ex-primeira dama dos Estados Unidos largou o conforto de seu apartamento de 15 cômodos com vista para o Central Park, em Nova York, para se esquivar rotineiramente dos paparazzi que batiam ponto como ela na entrada do edifício 625 da Avenida Madison. Foi aos 46 anos, após a morte de seu segundo marido e com os filhos crescidos, que ela entrou no mercado de trabalho e deu início a uma carreira como editora de livros. Sem dúvida, a vida prévia como primeira-dama dos EUA, heroína trágica ou mulher de milionário interessava muito mais aos vários autores que escreveram biografias não autorizadas sobre ela. Por conta disso, a faceta profissional de Jackie acabou relegada a um papel secundário. Agora, essa fase pouco conhecida da vida de uma das mulheres mais famosas do mundo é contada no livro “Jackie editora”, da Record, que acaba de ser lançado no Brasil.

E não foi um período curto: Jacqueline passou 19 anos atuando como editora (de 1975 até a sua morte, em 1994), primeiro na Viking e depois na Doubleday, e publicou cerca de cem livros, alguns best-sellers.

— Ela fez livros que foram sucessos como “Dancing on my grave” (sobre as memórias da minha ex-mulher, a bailarina Gelsey Kirkland), “Moonwalk” (a autobiografia de Michael Jackson) e vários títulos com o jornalista Bill Moyers. Essas obras possibilitaram que Jackie assumisse outros projetos menos comerciais — afirma o autor Greg Lawrence, que teve três de seus livros editados por Jackie e entrevistou mais de 125 antigos colaboradores dela.

Se a experiência lhe faltava quando assumiu o cargo — anteriormente, ela só havia trabalhado como fotógrafa do “Washington Times-Herald” —, os contatos e o peso de seu nome eram atributos inegáveis. Fora que durante muitos anos, Jackie foi uma fervorosa colecionadora de livros, especialmente os de arte. No início da década de 1970, ela comprava livros quase todos os dias, centenas por ano.

Logo nas primeiras semanas de trabalho, além dos fotógrafos, fãs e curiosos costumavam provocar agitação na entrada do escritório. Um homem chegou a anunciar que carregava dinamite preso ao peito. E os telefones tocavam sem parar. O furacão Jacqueline fez também com que os funcionários da editora escolhessem as melhores roupas para se adequar a ela, ainda a grande referência de moda e estilo entre os americanos. Ela, por sua vez, costumava usar apenas calça preta (de cashmere) e camisas (de seda) na tentativa de se aproximar dos colegas. Nada espalhafatoso, porém de corte impecável.

— No trabalho, Jackie era geralmente muito casual, com uma elegância discreta. Não era uma referência fashion como as pessoas achavam que ela seria por conta de seu passado glamouroso — conta Lawrence.

A decisão de trabalhar com os livros não foi tomada por razões financeiras. Ao contrário, dinheiro não foi o que a motivou a arregaçar as mangas das camisas de grife. Jackie herdou uma boa quantia de JFK e recebeu mais US$ 26 milhões de Onassis. Além do mais, na Viking, ela foi contratada para receber 200 dólares semanais para trabalhar meio expediente quatro dias por semana. O que a ex-primeira dama queria mesmo era uma motivação. Tanto que jantava em casa com os filhos para, em seguida, passar o resto da noite trabalhando em sua biblioteca.

— A gama de interesses de Jackie era de tirar o fôlego. Ela se destacou em obras de ficção e de não-ficção e fez livros sobre a história da Rússia, política, direitos civis, arquitetura, design de interiores e fotografia, para citar alguns dos assuntos sobre os quais ela era mais apaixonada — afirma Lawrence.

A moda, claro, não poderia ficar de fora. A amizade com Diana Vreeland rendeu livros, claro. “In the Russian style” foi, inclusive, um dos dois únicos títulos que ostentavam o crédito “editado por Jacqueline Onassis”. Para não aparecer mais do que os autores, ela fazia questão de manter o anonimato em relação às obras.

A saída da Viking não foi amistosa. Jackie pediu demissão por conta de uma obra fictícia e polêmica inspirada nos Kennedy publicada pela editora. O período em que esteve desempregada, como não poderia deixar de ser, foi noticiado pela revista “Time”, que trazia no título: “Procura-se colocação, referências oferecidas”. Ela acabou fechando contrato com a Doubleday para trabalhar três dias por semana com um salário anual de 20 mil dólares.

A atitude modesta com os colegas de trabalho lhe valeu o apelido de “sandálias”. Claro que para Jackie era natural, em muitas circunstâncias, pular processos, atuando às margens dos trâmites das empresas por ter acesso direto ao donos. Até porque frequentavam os mesmos círculos sociais.

— Ela fazia seu próprio café e recebia pessoalmente seus visitantes na sala de espera em vez de mandar um assistente. Na saída, os encaminhava até o elevador. Jackie era a imagem final da graça — derrete-se Lawrence.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments