Daniel Galera durante a mesa na Flip 2013 (Foto: Flavio Moraes/G1)

Daniel Galera durante a mesa na Flip 2013 (Foto: Flavio Moraes/G1)

O conto e a novela são gêneros que propiciam a experimentação, libertam o autor desconhecido a correr mais riscos e facilitam a autopublicação

Daniel Galera no O Globo

Na última terça, o site Posfácio publicou um artigo de Arthur Tertuliano chamado “Novos escritores e suas narrativas breves”. Por meio de um apanhado de bons livros de contos e duas novelas curtas de autores estreantes, ele procura fazer contraponto à ideia de que seria equivocado iniciar uma carreira literária em prosa com um livro de contos, crônicas ou mesmo uma novela. Para quase todos os editores e agentes, é um truísmo: as formas breves não têm público suficiente para fazer um novo autor engrenar. O público lê romances. Do ponto de vista mercadológico, melhor ter como cartão de visitas um romance sofrível do que uma boa coletânea de contos.

Embora Arthur não esteja interessado em contestar esse aspecto do mercado de livros, sua seleção comentada de obras revela outros valores importantes, às vezes esquecidos, que podemos atribuir às formas breves, e que são significativos tanto para os novos autores quanto para os leitores interessados em ficção. O conto e a novela são gêneros que propiciam a experimentação, libertam o autor desconhecido a correr mais riscos e facilitam a autopublicação ou a participação em antologias e publicações literárias. Por serem de leitura rápida, favorecem a divulgação digital e a obtenção de um retorno inicial dos leitores. O que o mercado considera um fracasso comercial pode ser um avanço importante para um autor novo.

Meu livro de estreia, uma coletânea de contos, foi uma edição independente. Era uma iniciativa modesta, mas motivou (em conjunto com o primeiro livro de Daniel Pellizzari e o lançamento do nosso selo Livros do Mal) uma matéria na revista “Época”, de autoria de Paulo Roberto Pires, e uma resenha de Bernardo Carvalho na coluna que mantinha na “Folha de S.Paulo”. Aquilo fez toda a diferença para mim.

Há autores que já entram rasgando com um romance sólido, mas são exceções. Contos, novelinhas e edições pequenas/alternativas que se movem por baixo do grande mercado fornecem as fagulhas iniciais para a maioria dos outros. Para o leitor, a procura pode exigir dedicação e paciência, mas sempre há boa literatura no grande contingente de vozes hesitantes em formação. É óbvio, mas não custa lembrar que o triunfo literário nem sempre vai de encontro às expectativas do público e ao sucesso comercial. A excelência é rara em primeiras publicações, mas é comum haver um frescor irresponsável que também tem sua importância. Até a pretensão pode ser oportuna. Não se perdoa ingenuidade, redundância, desonestidade e o decalque travestido de influência.

Li alguns dos livros que Arthur incluiu em sua lista. Na áspera novela “Gado novo” (7Letras), de Guille Thomazi, a morte de uma menina em uma fazenda do Centro-oeste é revelada aos poucos, a partir do ponto de vista de vários personagens. As frases quase monossilábicas de Thomazi podem levar o leitor à exasperação, mas nos melhores momentos, como no capítulo que dá título ao livro, a violência faulkneriana da narrativa é eletrizante. Em “Ensaio sobre o entendimento humano” (Biblioteca Pública do Paraná), Caetano W. Galindo (responsável por magníficas traduções de Ali Smith e James Joyce, entre outros) estreia na ficção com quebra-cabeças narrativos e relatos autoconscientes que lembram — e, no caso do conto “O grande escritor”, homenageiam — o americano David Foster Wallace. Posso recomendar também “Copacabana Dreams” (Cosac Naify), de Natércia Pontes, e os livros de Samir Machado. Não li ainda “Monstros fora do armário” (Não Editora), volume de contos de Flávio Torres, mas pretendo fazê-lo em breve. Flávio foi meu colega na oficina de escrita de Luiz Antônio de Assis Brasil em 1999, e mandava bem.

Para além daquela lista, prossigo com algums bons livros de estreia que li nos últimos tempos. Em “A festa é minha e eu choro se eu quiser” (Guarda-Chuva), Maria Clara Drummond pinta um anti-herói de uma geração de classe média/alta obcecada em construir a própria imagem, desmotivada em meio ao excesso de escolhas e falta de responsabilidades, afogando-se em psicotrópicos no deserto emocional do consumismo desenfreado. Em contraste interessante com o livro de Maria Clara, Davi Boaventura escreve sobre os desencantos de um adolescente negro da periferia de Salvador no sufocante “Talvez não tenha criança no céu” (Virgiliae).

“Ítaca” (Oito e meio), de Saulo Aride, e “O homem despedaçado” (Dublinense), de Gustavo Melo Czekster, são coletâneas de contos irregulares, criativas e destemidas, marcadas por sensos de humor peculiares. E Laura Cohen Rabelo faz um impressionante exercício de polifonia, ao mesmo tempo delicado e virtuosístico, em “História da água” (Impressões de Minas), romance de estreia que gira em torno dos vários reencontros de três irmãos, e que tem na protagonista Eira um dos personagens mais vivos que encontrei na ficção recente.

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