A autobiografia de Morrissey oferece muitos ganchos de leitura, como toda obra de arte digna dessa qualificação

Arthur Dapieve em O Globo

Além de preencher uma lacuna do tamanho de Viena na minha vida, as férias serviram para ler “Autobiography”, de Morrissey. Como velho fã do cantor e membro dos Ansiosos Anônimos, eu não aguentaria esperar a tradução que a Globo Livros está preparando. Lendo no original, entendi a dimensão dessa empreitada. Em resenha para o jornal “The Guardian”, Terry Eagleton disse que Morrissey um dia pode conquistar o Booker Prize, desde que “consiga tratamento para o seu vício em aliterações”. Mas não é só o prazer com a musicalidade do próprio idioma que dificulta as versões. Há centenas de autocitações de músicas e referências à cultura pop inglesa.

“Autobiography” oferece múltiplos ganchos de leitura, como toda obra de arte digna dessa qualificação, seja ou não um livro. Isso apesar de Morrissey ser o mesmo desde sempre: um sujeito cuja hipersensibilidade o fez inspirar milhões de fãs pelo mundo, mas se decepcionar com quase todas as pessoas que cruzaram seu caminho. Ele dá voltas em torno de um poço de mágoas repleto, sobretudo, pelos velhos colegas de Smiths (abandonai qualquer esperança de reunião vós que adentrais o livro); pelo juiz John Weeks, que o humilhou em público e o condenou, junto ao ex-parceiro-guitarrista Johnny Marr, a dividir direitos autorais em partes iguais com o baterista Mike Joyce e o baixista Andy Rourke; e, last but not least, pela imprensa musical inglesa.

Ainda quando maquiado pela autoironia, como no caso de Morrissey, o narcisismo desempenha um papel essencial na produção artística, o que explica ao menos parcialmente tantas suscetibilidades feridas pela crítica. Entretanto, o próprio lançamento de “Autobiography” concede um ponto à sua tese de ser alvo preferencial do sensacionalismo. Muito se falou no trecho: “(Com o fotógrafo Jake Owen Walters) pela primeira vez na minha vida, o eterno ‘eu’ se torna ‘nós’”. Não se deu igual atenção à notícia de que, com Tina Dehghani, ele discutiu “o impensável ato de produzir um monstro miador em miniatura”. Morrissey, o misantropo, pai? Ele recentemente se declarou “humanossexual”, interessado em seres humanos, “mas, claro… não muitos”.

Há páginas reveladoras sobre seus anos formativos. A apocalíptica Manchester natal. As escolas católicas, de uma maldade dickensiana. O apreço pela família, vinda da Irlanda. O culto adolescente a Marc Bolan, aos New York Dolls e a David Bowie, que, depois, se torna quase uma vinheta cômica em sua vida. A defesa dos animais e, consequentemente, o vegetarianismo. Uma surpreendente atenção a quem está dirigindo qual marca de carro. A interminável descrição de shows em cidades improváveis (São Paulo é mencionada) nas quais ele afinal se sente querido. “Nunca tendo encontrado o amor de um, em compensação encontro o amor de milhares — ao mesmo tempo, na mesma sala”, escreve Morrissey, perto do final de “Autobiography”.

Chama atenção a sua obsessão pela morte, tamanha que seu pai, de resto uma figura ausente, alerta que ele deveria prestar mais atenção aos vivos do que aos mortos. Porém, uma quantidade espantosa de gente em torno de Morrissey morre cedo. Um dos momentos mais bonitos do livro é quando chega o postal que a cantora Kirsty MacColl mandara do México — antes de ser atropelada pela lancha de um milionário, em Cozumel, e morrer diante dos dois filhos adolescentes, em 2000, aos 41 anos. Garrafa de vodca à mão, Morrissey segura o postal como “um livro de orações” e chora.

Anos antes, em 1989, Morrissey fizera uma expedição noturna com três amigos, a bordo do “engenhoso Mercedes” de um deles, até um pântano perto de Manchester. Saddleworth é conhecido não apenas pela desolação natural, mas porque, na década de 1960, ao menos duas das cinco crianças abusadas e assassinadas pelo casal Ian Brady e Myra Hindley foram ali enterradas. (“Suffer little children”, canção do primeiro LP dos Smiths, de 1984, falava desses crimes.) Então, no meio do nada gelado, surgiu diante dos faróis do Mercedes um rapaz seminu, com uma expressão desesperada. Seria um aventureiro perdido, não fosse ele cinza. Rosto, cabelo, corpo, casaco. Tudo cinza. Acionada, a polícia se encarregou de, mui britanicamente, confirmar que eles tinham avistado um fantasma. Pode-se dizer então que Morrissey enxerga gente morta também literalmente. Está sempre conectado ao lado trágico da vida. Como se existisse outro.

“Autobiography” acrescenta à numerosa e nem sempre reverente bibliografia dedicada a Morrissey e aos Smiths o testemunho do próprio cantor, uma das mais importantes personalidades de toda a história do rock — e decerto a mais importante a surgir desde a década de 1980. Trata-se de uma autobiografia precoce. O poeta não apenas está vivo, e bem de saúde aos 54 anos, como continua produzindo grandes discos e shows, “agarrado à antiquada visão de que uma canção deve significar algo”.

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