Celebrado escritor é tema de documentário, mas caminho para entendê-lo está em seus próprios livros

Luísa Pécora, no Último Segundo

Quatro anos se passaram desde a morte do escritor norte-americano J.D. Salinger, mas o interesse pelos livros que escreveu e a vida reclusa que levou continua forte. Prova disso foi a comoção causada pelo vazamento de histórias nunca antes publicadas, em novembro, e as polêmicas que envolveram o documentário “Memórias de Salinger”, que estreia no Brasil nesta sexta-feira (7).

Dirigido por Shane Salerno e David Shields, também autores de uma biografia que chegou às lojas em janeiro, o filme foi mal recebido pela crítica, em especial por trazer poucas novidades e dedicar tempo demais a supostos fatos da vida pessoal do escritor com pouca ou nenhuma relevância diante da obra (a afirmação de que Salinger nasceu com apenas um testículo é o melhor exemplo disto).

Para conhecer e entender o escritor, melhor mesmo é procurar seus livros – quatro excelentes obras traduzidas para o português e facilmente encontradas no mercado. Veja, abaixo, cinco motivos para ler J.D. Salinger:

Reprodução O escritor J. D. Salinger (1919-2010)

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O escritor J. D. Salinger (1919-2010)

Porque Salinger foi um dos maiores escritores do século 20: A afirmação é grandiosa, mas justa. Salinger teve um enorme impacto na literatura norte-americana, influenciando autores como Philip Roth, John Updike e Harold Brodkey.

Mais do que isso, Salinger impactou a cultura do século 20 por meio de personagens que entraram para a história da literatura, como Holden Caulfield, o adolescente que é narrador e protagonista de “O Apanhador no Campo de Centeio” (1951) e os complicados irmãos da família Glass, que aparecem em várias obras.

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“Ele mostrava a juventude de forma muito realista”, disse Kenneth Slawenski, autor de “Salinger: Uma Vida”, em entrevista ao iG. “O modo como criou personagens que pareciam expressar a insatisfação dos leitores com o mundo ajudou a levar a uma era de revolta jovem, que culminou nos movimentos da década de 1960.”

Porque Salinger foi um grande contador de histórias: Salinger publicou quatro livros – além de “O Apanhador”, “Nove Histórias” (1953), “Franny e Zoey” (1961) e “Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira & Seymour: Uma Apresentação” (1963) – todos de altíssimo nível.

Divulgação Capa de "O Apanhador no Campo de Centeio", livro mais conhecido de J. D. Salinger

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Capa de “O Apanhador no Campo de Centeio”, livro mais conhecido de J. D. Salinger

“Ele era um mestre dos contos de ficção, um excelente contador de histórias, alguém que simplesmente escrevia melhor do que a grande maioria das pessoas”, afirmou o doutor Will Hochman, professor da Universidade Estadual do Sul de Connecticut e autor de “Letters to J.D. Salinger”. “Seu trabalho é atemporal. Geração após geração encontra novos significados em seus livros.”

Os especialistas recomendam “Nove Histórias” como o melhor título para quem nunca leu Salinger, mas quer começar. “São nove contos, cada um com estilos, temas e personagens diferentes”, disse Slawenski. “Se pensarmos nos outros três livros como entradas de uma refeição, ‘Nove Estórias’ é um verdadeiro buffet de Salinger. Tem algo ali para todo mundo.”

Porque ele tinha um expecional domínio da língua inglesa: Os brasileiros que puderem ler Salinger no idioma original perceberão com mais facilidade o talento do autor em termos de estilo. Salinger gostava de se apropriar das marcas da linguagem oral, como as gírias usadas pelos jovens.

Como resultado, os personagens de seus livros falam de um jeito próximo aos das pessoas nas ruas, sem que isso signifique uma escrita pouco refinada.

Porque é fácil se identificar com sua obra: Quando Salinger recusou a vida pública, todo tipo de rumor começou circular – da obsessão por namoradas jovens ao hábito de beber a própria urina. Apesar da fama de excêntrico, o autor fez uma literatura de fácil identificação: tanto Caulfield quanto os irmãos Glass parecem muito próximos de nós.

“Salinger não era um homem público, mas entendia muito bem as condições humanas. Quando lemos seus livros, sentimos que ele nos conhece e que nós o conhecemos”, afirmou Hochman.

Divulgação O escritor J. D. Salinger

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O escritor J. D. Salinger

Para Slawenski, a beleza do trabalho do escritor está na “ambiguidade”. “Ele nunca força significados aos leitores. Ao contrário: dá a eles controle suficiente para interpretar suas histórias como julgarem adequado”, disse o biógrafo. “Isso muitas vezes permite que os leitores sintam-se próximos às histórias e que vejam a si mesmos. Salinger alcançou um tipo de intimidade com o leitor que muitos escritores ainda lutam para conseguir.”

Porque o melhor jeito de entender Salinger é lendo Salinger: Como Salinger era avesso a entrevistas e à vida pública, muito do que se sabe sobre ele vem do relato de outras pessoas, como a ex-namorada Joyce Maynard e a filha Margaret, que teve algumas histórias desmentidas pelo irmão, Matt.

Como muitos outros trabalhos sobre Salinger, o documentário de Salerno e Shields foi acusado de apresentar como fato o que ainda é especulação. Por isso, as melhores fontes para quem quer conhecer e entender o escritor são seus próprios livros. Salinger colocou muito de si mesmo nos personagens que criou – incluindo Caulfield, mas principalmente Buddy Glass, que chegou a chamar de alter-ego.

“É impossível entendê-lo sem antes examinar a obra”, resumiu Slawenski. “O trabalho de Salinger era sua vida.”

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