1

Clariana Touza, no Literatortura

Stephen Edwin King é um exímio escritor. Stephen King se tornou uma marca. Creio friamente que ele seja um dos melhores escritores contemporâneos e sou assumidamente apaixonadapelo estilo narrativo adotado pelo mestre. Direto, detalhista, irônico, com mil e uma referências Pop, cruel, frio e caloroso ao mesmo tempo… Ele traz a porcentagem correta de cada sentimento e emoçãopara sua porção mágica.

Cada livro, um mundo a ser desdobrado; cada personagem, um mistério. Cabe a nós, meros leitores, tentar decifrá-los;confira algumas das curiosidades que cercam vida e obra de King:

Triscaidecafobia:

Explosão do Apollo 13, sexta-feira 13, a morte como décima terceira carta do Tarot… São muitos os fatos e lendas que cercam o número13 e para triscaidecafóbicos, como Stephen King, justificam a fobia justamente por achar que o número atraimau agouro. Segundo o próprio escritor:

”O número treze nunca falha em apontar um dedo para cima e para baixo na minha espinha. Quando estou escrevendo, nunca paro de trabalhar se o número da página é treze ou múltiplo de treze, continuarei escrevendo até chegar a um número seguro. (…) Sempre conto os dois últimos degraus da minha escada como um, tornando os um, passando de 13 a 12. (…)Quando estou lendo, não paro nas páginas 94, 193 ou 382, uma vez que as somas resultam em 13.”

Stephen, o músico:

Se não fosse um renomado escritor, King provavelmente seria integrante de uma banda de Rock, tendo ele já participadode um grupo chamado The Rock Bottom Remainders (site: aqui) até 2012, quando o idealizador Kathi Kamen Goldmark faleceu. O grupo, iniciado em 1992 e composto por outros escritores, como Dave Barry, Amy Tan, Barbra Kingsolver, Scott Turow e o criador de “OsSimpsons“, Matt Groening, se encontrava esporadicamente para tocar e arrecadar dinheiro para fins literários. O foco da banda nunca foi o sucesso, tocando apenas por hobby. Confira abaixo parte de um dos shows da banda, na qual King canta Surfin’ Bird:

Fã assumido de AC/DC, Ramones e Metallica, King traz a música para suas narrativas, usando trechos de letras para dar o clima e pausas dramáticas. O mais memorável dos casos é em “O cemitério“. Seguimos com um trecho da música e com o clipe:

“I don’t want to be buried in a Pet Cemetery,I don’t want to live my life again” (Trecho da músicaPet Sematary dos Ramones, usado no livro”O cemitério”)

Em muitos outros momentos, citam-se músicas que são ouvidas por personagens e compõem a ambientação:

“Everybody’s guessed/ that baby can’t be blessed/ ’til she finally sees that she’s like all the rest” (Letra de Just Like a Woman, de Bob Bylan, em”Carrie, a estranha”)

Carros antigos:

O amor do escritor por carros não se limita à sua garagem: muitos de seus personagens dirigem verdadeiras joias automobilísticas, como Boy em “A dança da morte”, além de os livros “Christine, o carro assassino”e “From a Buick8″ serem protagonizados por carros.

Ao final do livro, há uma fala que retrata bem o sentimento nutrido por todos em relação à Christine:

“Claro que é impossível, mas, de início, tudo era impossível.
Fico pensando em George LeBay, no Ohio.
Na irmã dele, no Colorado.
Em Leigh, no Novo México.
E se a coisa começar outra vez?
E se a coisa estiver vindo para leste, terminar o serviço?
Deixando-me para o fim?
Seu egoístico objetivo.
Sua fúria interminável.”

Jerusalem’sLot (ouSalem’s Lot):

1

erusalem’sLot apareceu pela primeira vez em “A Hora do vampiro” (Salem’sLot) como uma cidade macabra e misteriosa, onde uma série de acontecimentos estranhos ocorre. King se autorreferencia e o nome depois é mencionado em “OIluminado”, “Zona Morta”, “O cemitério”, “Dolores Claiborne”, “O apanhador de Sonhos” e nos três últimos livro da saga “A Torre Negra” (“Canção de Susannah”, Lobos de Calla” e “A Torre Negra”).

O nome da cidadeseria supostamente uma antiga localização em algum lugar do atual Maine, que é descrita como assombrada pelos antigos moradores locais. No conto que originou“A Hora do vampiro”,cartas são trocadas entre os primosCharles Boone e James Robert Boone sobre a localização, nas quaisJames narra a Charles sua mudança para uma antiga casa, em 1850, na amaldiçoada cidade em questão.

Confira o conto na íntegra: aqui!

Referências literárias:

“A Torre Negra” levou 33 anos para ser concluída, tendo sido iniciadaem 1970 e terminada em 2003. A verdade é que a saga só foi finalizada porque dois leitores em estado terminal escreveram cartas ao autor pedindo que o desfecho da narrativa fosse revelado, incentivando-o a dar-lhe um ponto final.

1

“A Torre Negra”é a menina-dos-olhos de Kinge o seu projeto mais ambicioso, contendo ao todo sete livros.No entanto, tem pouquíssimo do seu consagrado terror e é tido como um romance fantástico.As referências para esses livros são muitas e King os definiu como “uma mistura de ‘O Senhor dos Anéis’ (J.R.R. Tolkien) com spaghetti western“, além de serem legitimamente inspirados no poema épico Childe Roland à Torre Negra chegou, de Robert Browning. A história é baseada no poema, o estilo narrativo é o adotado por Tolkien em “O Senhor dos Anéis” e a ambientação é do velho-oeste.Pode parecer confuso, mas a miscelânea funcionou perfeitamente bem.

Já para “A Hora do Vampiro” (Salem’sLot), Stephen bebeu em outras fontes. Claramente a comunicação epistolar do conto que originou o livro lembra bastante as cartas trocadas entre Drácula (BramStocker) e sua noiva; King confessou a inspiração.

Criação de personagens:

Pennywise, o palhaço assassino de “It” (A Coisa), foi inspirado em Ronald McDonald. Remetendo à tradição dos Clowns, o simpático garoto propaganda da rede de fast-food foi distorcido pela brilhante mente do escritor e virou o macabro Pennywise, que seduz e ataca crianças.

1

2

Em uma entrevista à BBC, Stephen King afirmou que Jack Torrance, oatormentado pai do menino Danny de “O Iluminado”, foi seu personagem mais autobiográfico.

1

Na época em que escrevia o livro, o escritor enfrentava o alcoolismo, assim como seu personagem, e para ele Jack era “como um personagem heroico lutando contra seus demônios de maneira forte como homens americanos devem fazer”.

O conto “A goodmarriage”, parte da coletânea “FullDark, no stars”,traz o relacionamento de um casal que convive há 27 anos, porém a esposa não sabe a verdade que seu marido esconde. O conto é baseado na vida de um assassino em série, que se passava por um bom marido e que cometia atrocidades sem que a esposa sequer desconfiasse. Segundo o próprio escritor:

“Esta história me veio à mente depois de ler um artigo sobre Dennis Rader, o infame assassino que tirou a vida de dez pessoas- a maioria mulheres, mas duas de suas vítimas eram crianças-durante um período de cerca de dezesseis anos. Em muitos casos, ele enviou pedaços de identificação de suas vítimas à polícia. Paula Rader foi casada com esse monstro por 34 anos, e muitos na área de Wichita, onde Rader reivindicou suas vítimas, se recusam a acreditar que ela poderia viver com ele sem saber quem era o verdadeiro marido. Eu acreditei, eu acredito, e eu escrevi essa história para explorar o que pode acontecer em tal caso, quando de repente a mulher descobre sobre o terrível passatempo do marido. Eu também escrevi para explorar a ideia de que é impossível saber a verdade absoluta de qualquer um, mesmo aqueles que mais amamos“.

Citações:

King, por hábito, cita inúmeros outros escritores.Em “Carrie, a estranha”:

”(…) Nas bambolinas estavam guardados os acessórios do Clube do Teatro, alguns deles de 1920. Um busto de Palas, usando uma adaptação antiga de ‘O Corvo’, de Poe (…)”

Thabita – esposa, escritora e entusiasta:

A romancista e esposa de King, Thabita, é a responsável por lermos algumas das obras do marido. “Carrie, a estranha” acabaria no lixo, já que o seu próprio autor considerou-a fraca demais. No entanto, Thabita, a encontrou e, acreditada do talento do cônjuge, convenceu-o a terminá-la para que pudesse ser publicada, uma vez que a família passava por uma delicada situação financeira na época e aquela seria uma solução viável.

A dedicatória do livro é merecidamente para a esposa:

“Para Tabby, que me meteu nisso –

mas depois me tirou.”

Originalmente “A hora do Vampiro” se chamava SecondComing, mas Thabata interveio, afirmando que o título soava como uma história ruim de sexo e o nome foi modificado para Salem’sLot.

Lovecraft:

H.P. Lovecraft foi o catalisador para que King se tornasse escritor, segundo palavras do próprio autor. Após achar o livro póstumo “The LurkerOf The Threshold”de Lovecraft, elaborado por seu amigo August Derleth, no sótão da casa em que morava com os pais, pegou o gosto por livros e decidiu então que seria escritor.

Richard Bachman:

King publicou obrasadotando o pseudônimo Richard Bachman, que seria originado de uma banda chamada Bachman-Turner Overdrive, a qual costumava ouvir.A adoção do alter-ego se deu, supostamente, por duas razões: interessado em saber se a sua vida de livros estava associada ao nome, o escritor passou a publicar outros livros sob um nome não conhecido e com pouca divulgação; além disso, seria possível publicar mais livros, já que as editoras acham nocivo ao escritor publicar muitos livros em um único ano, já que inflaria e cairia no lugar-comum do excesso.

Bachman tem quase nada do costumeiro sobrenatural de King e foca basicamente no drama dos personagens.Rage (Fúria), seu primeiro romance publicado sob o pseudônimo, era sobre um perturbado estudante do ensino médio que ameaça seus colegas de classe com uma arma. Jeffrey Lyne Cox, também cursando o ensino médio, seguiu os passos do personagem do livro e fez seus colegas reféns. Investigando o caso, a políciaencontrou o livro e descobriu que o jovem havia se inspirado no protagonista. A pedido de King, todos as edições de Rage foram retiradas das prateleiras.

1

Em A maldição, Bachman cita o próprio Stephen, no entanto tal citação foi a gota d’água para que a verdade do escritor fosse descoberta. Um balconista de uma livraria chamado Steve Brown, interessado nas associações entre os dois e na citação a King, procurou na Biblioteca do Congresso, em Washington, os direitos autorais de Fúria, outra obra de Bachman, e descobriu que pertenciam a Stephen. Brown mandou cópias do documento à editora de King e perguntou o que deveria fazer; o próprio escritor deu a resposta ao jovem ao telefonar para ele e afirmou estar disposto a assumir a verdade ao público. Em uma conferência de imprensa, King anunciou que Bachman havia falecido devido a um câncer de pseudônimo.

King levava a vida imaginária de seu alter- ego tão a sério que lhe escreveu uma pseudo- biografia:

Richard Bachman nasceu em Nova York e, embora sua infância seja um mistério, sabe-se que Bachman serviu por quatro anos na Guarda-Costeira, e eventualmente trabalhou por dez anos na Marinha Mercante. Eis que Bachman resolveu se mudar para um lugar mais tranquilo. O destino acabou sendo o centro rural de Nova Hampshire. Lá, ele comprou uma fazenda de gado de médio porte, e durante a noite, por sofrer de insônia crônica, Bachman escrevia suas histórias.

Bachman tinha uma esposa, seu nome era Claudia y Inez Bachman (Claudia Eschelman, após sua morte) e um filho. O filho de Bachman morreu tragicamente enquanto brincava na fazenda do pai, esgueirando-se sobre um poço e afogando-se ao cair dentro dele. Segundo dizem, este evento tornou as histórias de Bachman mais violentas e sem qualquer misericórdia para com seus personagens (incluindo crianças).

Em 1982, foi detectado em Bachman um tumor cerebral na região da base de seu cérebro; foi necessária uma cirurgia bastante complicada para a retirada do tumor. Mas a morte bateu à porta de Bachman novamente três anos mais tarde, e desta vez ele atendeu. Richard Bachman morreu em 1985 de câncer de pseudônimo, um tipo terrível de “esquizonomia”. Ele publicou cinco romances enquanto esteve vivo: “Fúria”, “A Longa Marcha”, “A Autoestrada”, “O Concorrente”, e “A Maldição”. Ninguém pôde salvá-lo.

Falecido Bachman, Claudia se tornou viúva, e em 1994, enquanto preparava para se mudar para uma nova casa, ela acabou encontrando uma valiosa caixa no sótão da fazenda do marido. A caixa continha alguns manuscritos; dentre eles um romance chamado “Os Justiceiros”, e outro chamado “Blaze”. Ela os levou para Chuck Verrill, o editor de Bachman (e que por uma estranha coincidência também era o editor de Stephen King). Lá, eles editaram os livros para que pudessem ser lançados no mercado como obras póstumas.

De acordo com alguns boatos na época de sua morte, Bachman estava pensando em escrever um livro sobre um autor que sofre um acidente, e é resgatado por uma fã psicótica, que o leva até sua isolada casa e o prende em uma cama, torturando-o por ele ter matado sua personagem favorita. Aparentemente, Bachman teria chamado este romance de “Misery”. De alguma forma, um famoso escritor de histórias de terror do Maine se apossou da ideia, lançando o livro (com seu próprio nome) dois anos após a morte de Richard Bachman.

Por muitos anos comparado a Bachman, King respondeu, certa vez, quando perguntado, o que achava de Richard Bachman: “Bachman era um sujeito desprezível, estou feliz que ele esteja morto”.

Alcoolismo:

O escritor assumiu abertamente que era alcoólatra e lutava contra a doença. King em uma entrevista admitiu não se lembrar de algumas de suas obras, como The Tommyknockers e Cujo (Cão Raivoso), escritas na década de 80, período em que enfrentava a doença.

Carrie, a peça:

Em 1988, o livro Carrie foi adaptado para uma peça teatral pela Companhia Royal Shakespeare, da Inglaterra, e no final daquele ano foi à Broadway. No entanto, as opiniões de público e crítica ficaram divididas e a peça saiu de cartaz após dezesseis apresentações. Em 2012 o projeto voltou a ser tocado nos EUA, mas fora da Broadway.

Imagem de capa: Ilustração feita pelo artista Henrik Jonssom

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments