Sem edição ou o glamour do cinema, drama da vida real é o dedo na ferida do ensino brasileiro…

Camila Abud, no DCI

No livro de Zusak, lançado em 2006, é difícil não se emocionar com o drama da protagonista Liesel, uma menina que aprende a ler a duras penas e, assim, consegue sair da letargia

No livro de Zusak, lançado em 2006, é difícil não se emocionar com o drama da protagonista Liesel, uma menina que aprende a ler a duras penas e, assim, consegue sair da letargia

O best-seller “A menina que roubava livros” aborda de maneira direta e impactante as mazelas do nazismo, em uma época de perseguição a comunistas e jovens que se rebelavam contra o genocídio de judeus por Hitler. Na obra, uma jovem aprende a ler e se apoia nas publicações para obter um sopro de esperança no futuro. E o que isso tem a ver com o Brasil? Bem, enquanto a obra de Markus Zusak trata de uma história fictícia, aqui ela é real, e guardadas as devidas proporções, também impressiona.

Um menino foi preso em flagrante na região Nordeste quando roubava três livros, em uma livraria no Salvador Shopping. Há informações de que a fiança teria sido fixada em dois salários mínimos e o jovem teria roubado os livros por não ter dinheiro para comprá-los. Pior, ainda confessou ter levado outras obras, com conteúdo pedagógico.

No contexto social, as convenções indicam que um meliante deve ser punido, pois há a ideia de se manter um perfil corretivo, com a intenção de reeducar o indivíduo para que não volte a cometer delito. Há, ainda, o caráter exemplar, com a intenção de desincentivar outras pessoas a cometerem atos semelhantes. Apesar disso, imaginar um jovem de 19 anos preso por esse motivo, realmente é alarmante.

No livro de Zusak, lançado em 2006, é difícil não se emocionar com o drama da protagonista Liesel, uma menina que aprende a ler a duras penas e, assim, consegue sair da letargia. Com os pensamentos soltos, ela ganha um tipo de sobrevida em meio ao caos, pois amplia o vocabulário e cria uma espécie de Aurélio, usando as paredes de um sótão como o seu grande quadro negro. O drama fez tanto sucesso que ganhou até uma adaptação para o cinema, e o longa-metragem ainda pode ser conferido, pois ainda está em cartaz.

A fatalidade no caso da vida de Liesel era a de ter sido abandonada pela mãe, após ter perdido o irmão mais novo. Ela ainda tinha de viver aos sobressaltos, pois temia a aproximação de militares da Gestapo. Já o jovem que mora na Bahia, e que fora perseguido por policiais de verdade, sentiu na pele o resultado de suas escolhas. Sem apologia ao crime, longe disso. A ideia aqui é discutir a respeito da condição humana e de como a sociedade reage em um caso como esse. Afinal, do ponto de vista dos negócios, o que caberia à rede de livrarias fazer? É complicado.

A família do jovem preso teve de angariar dinheiro para pagar a fiança e tirá-lo do Complexo Penitenciário da Mata Escura. O garoto brasileiro informou que viu no furto uma das poucas opções para adquirir os livros, já que a sua mãe não tinha condições de comprá-los. E confessou ainda o roubo de cerca de dez outras obras, todas para estudar. No best-seller sobre Liesel, contado de maneira exótica por ser narrado por ninguém menos do que a morte, é difícil não se chocar. Já no drama lado B — justamente de Brasil —, a demora dos royalties do pré-sal para a Educação poderá custar muito caro, ao que parece. O preço pode ser aquele a ser pago por uma geração inteira de pessoas carentes, e cada vez mais marginalizadas pela falta de oportunidades, onde se verifica um abismo social a perder de vista.

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