Os colegas Vitor e João Pedro: mestrado antes de concluir a graduação (Foto: Camilla Maia / Agência O Globo)

Os colegas Vitor e João Pedro: mestrado antes de concluir a graduação (Foto: Camilla Maia / Agência O Globo)

Eduardo Vanini, em O Globo

RIO – Recém-aprovado para a faculdade de Matemática Aplicada na Fundação Getúlio Vargas, João Pedro Ramos, de 18 anos, nem sabe ao certo quando começam as aulas. Mas segue em dia com as atividades do mestrado no Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa). O estudante frequenta o curso desde o ano passado, quando estava no 3º ano do ensino médio. Assim como ele, outros estudantes estão fazendo mestrado no instituto antes mesmo da graduação.

Ex-aluno do Colégio Estadual Engenheiro Bernardo Sayão, João Vitor foi admitido definitivamente no mestrado no final do ano passado, após escrever uma carta de apresentação e entregar outras duas de recomendação de seus professores. O curso tem duração de dois anos, mas ele vai terminá-lo em um ano e meio, pois já havia adiantado algumas disciplinas.

– Comecei a fazer um curso de análise combinatória nas férias do ano passado e depois continuei fazendo outras disciplinas. Tinha aula todo dia e gostava disso. Então, resolvi buscar o mestrado pela minha vontade de aprender cada vez mais e por querer seguir carreira de pesquisador – diz o garoto.

Seu colega Victor Bitarães, de 19 anos, segue o mesmo caminho. Cheio de conquistas em competições de matemática, o rapaz veio de Betim, em Minas Gerais, com o plano de estudar no Impa. Ele chegou ao Rio em maio do ano passado, e começou a dar aulas num colégio particular para alunos que farão as olimpíadas de matemática. Ao mesmo tempo, passou a frequentar aulas no Impa e foi conquistando o seu lugar. Agora, ele vai ser colega de classe de João Pedro na FGV e no mestrado.

– Sempre gostei de matemática e percebi que aqui havia ótimas possibilidades. O meu ingresso no mestrado mostra como é possível ter algo maior do que se pensa. Sinto que estou investindo nos estudos muito mais pelo meu interesse em conhecimento do que simplesmente pela formação – conta o rapaz, que ainda não decidiu quais serão os seus rumos profissionais.

O diretor adjunto do Impa, Claudio Landim, explica que qualquer pessoa pode assistir às aulas do instituto como ouvinte e, posteriormente, tentar ingresso no mestrado, sendo avaliado em algumas disciplinas. Além das aulas, os selecionados têm direito a uma bolsa mensal de R$ 1.400. Mesmo concluindo o curso, é preciso terminar a faculdade para obter o certificado. Landim, entretanto, adverte que o ingresso não é simples:

– Os alunos aprovados para o mestrado são excepcionais. O João Pedro sempre tirou A em suas avaliações no Impa e o Bitarães já representou o Brasil em competições internacionais. Durante o curso, os alunos têm uma carga horária semanal média de nove horas de aulas, mas também precisam dedicar muitas horas de estudo em casa para acompanhar as disciplinas – adverte.

Segundo Claudio, cerca de 15% dos alunos de mestrado ingressaram antes da graduação. O Impa investe neste perfil. Este ano, o instituto lançou um programa em que convida alunos que se destacam nas olimpíadas de matemática para fazerem o mestrado junto com uma graduação no Rio, oferecendo também bolsa de estudos para a universidade.

– Estes alunos são frequentemente convidados por instituições internacionais e queremos retê-los no Brasil por mais tempo – justifica. – Quem começa o mestrado mais cedo, tem oportunidade de conviver com os melhores professores do Brasil desde o início da formação. E, ao saírem da universidade com essa titulação, fica mais fácil para eles tentar um doutorado ou pós-doutorado no exterior.

Mestre aos 16 anos

Quando tinha 11 anos, o jovem Daniel Santana Rocha, foi com o pai, que é professor de Matemática, a uma aula do Programa de Aperfeiçoamento e Professores de Matemática do Ensino Médio do Impa. Em um dado momento, os professores foram desafiados a resolver alguns problemas, entre os quais havia um que ninguém conseguia concluir. Daniel se candidatou e solucionou a questão. A partir do episódio, ele não parou de frequentar aulas no instituto.

Hoje, aos 16 anos, Daniel está no 3º ano do ensino médio e já concluiu um mestreado pelo instituto e faz matérias do doutorado.

– Fiz minha primeira matéria no Impa quando tinha 12 anos, como ouvinte. No ano seguinte, fiz para valer. Como tirei nota A, fui admitido para cursar as disciplinas do mestrado. Fui fazendo várias matérias até que, no verão do ano passado, fui selecionado no curso. Concluí em novembro – relembra.

Para obter a aprovação final no mestrado, os alunos têm duas opções: apresentar uma dissertação ou fazer duas disciplinas do doutorado. Daniel ficou com a segunda opção e ainda fez uma terceira disciplina. Foi aprovado nas três. Sacrifício? Nenhum. Ele garante que assumir responsabilidades desse nível nunca foi problema, apesar da pouca idade.

– Sempre tive a noção de que todo mundo pode fazer o que quiser. A questão é gostar do que está fazendo. Quando é assim, você pode avançar infinitamente na área que gosta. Se uma pessoa gosta de bilogia, por exemplo, por que não ir à UFRJ assistir a uma aula de Medicina? Ninguém vai impedi-la de fazer isso – conclui.

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