Gabriel Utiyama, no Cabine Literária

John Green, o autor de A Culpa é das Estrelas e diversos outros livros de gênero young adult, também é vlogueiro e possui uma grande audiência nas redes sociais das quais participa, principalmente no Twitter e no Tumblr. Recentemente, após passar por uma endoscopia, ele publicou uma série de tweets a respeito da saga Crepúsculo, de Stephenie Meyer, que causaram polêmica.

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“Estou fazendo uma maratona dos filmes de Crepúsculo hoje o dia todo, o que está sendo bem divertido e estou pensando em como é fácil desunanizar o criador e os fãs de algo extremamente popular. Eu fiz isso, também. Eu fiz piadas a respeito dos filmes de Crepúsculo sem assisti-los antes. E peço desculpas por isso, e me sinto envergonhado. Quando fazemos piadas de Crepúsculo, estamos ridicularizando o entusiasmo que as pessoas têm por histórias de amor não irônicas. Não temos nada melhor para satirizar? Sim, podemos perceber dinâmicas de gêneros misóginas nas histórias, mas milhões de pessoas também provaram que é possível não prestar atenção nelas. Nós realmente acreditamos que essas milhões de pessoas que se sentiram confortadas e inspiradas por essas histórias estão simplesmente erradas? Nosso desdém não é AINDA MAIS misógino do que qualquer coisa nessas histórias? A arte que é divertida e útil é algo bom que temos nesse mundo. E sou grato por isso e o celebro. Então um grande abraço para o fandom de Twilight e para Stephenie Meyer, que foi completamente atacada profissionalmente e pessoalmente devido a Crepúsculo de maneira que autores masculinos de histórias de amor nunca foram. Vou continuar assistindo aos filmes agora.”, disse Green em seu Twitter.

Ainda que não tenha feito nenhuma apologia à misoginia, Green foi duramente criticado por ter tratado do tema levianamente e descartado a luta de várias mulheres e homens por uma literatura onde a personagem feminina não se desenvolve apenas em função dos desejos de um homem. A responsável pelo blog Bibliodaze, Ceilidhann, escreveu sobre o episódio:

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“Eu fiz piadas sobre Crepúsculo também, porque toda a série me assustava. Eu ficava horrorizada de ver algo tão obviamente errado sendo exemplificado como o romance ideal, e críticas quanto a isso sendo descartadas como ‘inveja’. E não fui a única. Muitas outras mulheres conversaram, e nós berramos e gritamos porque estávamos bravas e chocadas que ninguém conseguia ver o que víamos. Nós rimos da prosa entruncada e dos brilhos purpurinados porque às vezes nós damos risadas para impedir que comecemos a chorar. Sátira é uma arma poderosa, uma que os governos comumente tentam impedir. Nós nunca nos vimos como Jon Stewart ou a gangue de South Park; nós só fizemos o que fizemos com a esperança de que as pessoas iriam escutar, e algumas escutaram. Os livros ainda venderam aos milhões e Stephenie Meyer possui agora uma segurança econômica que muitas mulheres nunca possuirão. Ela possui opções por causa disso. Nada disso nega os abusos que ela recebeu devido a Crepúsculo, mas vamos tentar não fingir que todas as mulheres estão no mesmo nível aqui.

John Green nunca vai experienciar sexismo. Ele nunca vai precisar berrar e gritar para ter suas opiniões consideradas devido à plataforma que ele possui e pelo fato de que ele é um homem hétero cisgênero e branco. Ele se tornou um ‘salvador’ do gênero young adult enquanto mulheres que escrevem histórias como as dele por muitos anos são esquecidas e deixadas nas sombras. O fato mais triste é que as opiniões dele sobre esse assunto são tidas como um exemplo maravilhoso, porque nós baixamos tanto o nível, que simplesmente dizer ‘mulheres também são pessoas’ é o suficiente para um homem ganhar uma estrela de ouro. Ele ganha prêmios por falar a respeito de problemas que mulheres têm discutido por gerações, inclusive no gênero young adult. John Green escreve textos de apelo universal enquanto mulheres que escrevem sobre o mesmo são consideradas autoras de romance.”

Em seu Tumblr, Green tentou explicar seu ponto de vista afirmando que sua maior crítica visava que obras de autores masculinos ganhassem tanta crítica a respeito de romances misógenos quanto as obras feministas e que existem dois tipos de críticas: “a crítica legítima que jornais literários e web sites feministas fazem sobre misoginia e a crítica ‘isso-é-ruim-porque-garotas-adolescentes-gostam-e-garotas-adolescentes-não-são-totalmente-humanas”.

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