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Como passar o carnaval em paz, cercado de livros e filmes

Danilo Venticinque, na revista Época

Mesmo quem detesta o Carnaval precisa reconhecer a alegria que o feriado proporciona. Para os fãs de samba, a satisfação é autoexplicativa. Mas os dias de folga são igualmente preciosos para quem não compartilha do espírito carnavalesco. É uma rara chance de se desligar do dia a dia e mergulhar em livros, filmes, séries ou outras paixões mais tranquilas do que a farra das ruas. Há outros feriados para isso, mas seu comportamento é errático. Nem sempre podemos contar com eles, embora sejam bem-vindos. O carnaval é inevitável. Às vezes tarda, mas nunca falha. E a melhor diversão no carnaval é fugir dele.

Há ciladas, é claro. Os foliões convictos sempre tentarão nos cooptar para o seu lado. Quem estiver despreparado corre o risco de ir parar, sem aviso, num bloco de rua ou atrás de um trio elétrico. Para escapar, é preciso ter um plano. Após muitas tentativas e erros, elaborei um pequeno guia para um carnaval menos carnavalesco possível.

Prepare-se

Um erro muito comum entre os foliões relutantes é não planejar nada para o Carnaval. O desinteresse pela data é tão grande que só nos damos conta de sua chegada na sexta-feira, quando já é tarde para elaborar qualquer plano de fuga. (Aos desavisados: o Carnaval começa neste fim de semana. Corram enquanto há tempo.) Não cometa esse erro. Esteja preparado. Tire da estante os livros que quer ler. Abasteça seu e-reader, tablet ou celular. Se preferir o cinema, escolha com antecedência as salas e planeje a sequência de sessões, mas não deixe  de ter um DVD ao seu alcance ou um serviço de streaming pronto para o uso. Mesmo se todos os seus planos falharem, você estará prevenido.

Se puder, fique em casa

Por muitos anos, demorei propositadamente para escolher meu destino de viagem no feriado e acabei ficando em casa. É o sonho de qualquer anticarnavalesco. Mesmo que o bloco passe na sua esquina, basta fechar a janela e ligar o fone de ouvido para ter tranquilidade. Há cidades melhores que outras. São Paulo foi, por muito tempo, a capital nacional dos sem-folia. O Carnaval praticamente não existia. Hoje, o ambiente é mais hostil. Corre-se o risco de caminhar pelas ruas e avistar um bloco a três ou quatro quarteirões, cantando com a empolgação morna dos foliões paulistanos. É até divertido observá-los de longe, por curiosidade antropológica, antes de voltar ao sofá.

Se viajar, fuja das festas

Nem sempre conseguimos ter o que queremos – principalmente se nossa escolha for tão impopular quanto o Carnaval paulistano. Por melhores que sejam seus planos, pressões sociais, conjugais ou familiares o forçarão a viajar diversas vezes. Mas não há motivo para desespero. A mudança de ares pode até ser boa: longe das distrações do cotidiano, conseguimos nos concentrar ainda mais nos nossos livros ou filmes favoritos. Ler na praia, mesmo que lotada, é uma das melhores maneiras de relaxar no feriado. O barulho também não é incômodo para ouvidos bem treinados. À noite, porém, os riscos de ser arrastado para algum festejo aumentam muito. Seja forte. Se possível, invente uma desculpa. A entrega do Oscar no domingo, por exemplo, é o motivo perfeito para fugir das festas. Se você não gosta de cinema ou não se importa com a premiação, nunca é tarde para mudar de ideia. Outra boa desculpa como essa não surgirá tão cedo.

Se estiver na festa, cuidado com as companhias

Até as melhores desculpas falham. Vez ou outra, anticarnavalescos convictos acabarão perigosamente infiltrados no território inimigo: o baile, o bloco, a avenida, a roda de samba. Se estivermos com muito azar, até a micareta é um risco. Nessas horas, convém escolher as companhias. Há foliões moderados, que se contentam em voltar para casa após quatro ou cinco horas de diversão insuportável. Outros, mais irresponsáveis, saem sem hora para voltar. Para eles, uma festa que começa na sexta-feira corre o risco de terminar na quarta-feira de cinzas. Fuja desses indivíduos a todo custo. Ninguém quer amanhecer lendo autoajuda na sarjeta.

Se tudo der errado, não desista

O Carnaval te pegou desprevenido. A viagem já estava marcada. As desculpas não colaram. O ânimo dos foliões te arrastou para a festa e ela parece não ter hora (nem dia) para acabar. Há situações em que sambar parece inevitável. Resista. Essa é a hora em que o folião relutante precisa se mostrar fiel às suas convicções. Procure um canto mais tranquilo. Caso esteja na rua, sente-se na calçada ou numa mesa de bar. Se soldados conseguem ler no acampamento, no intervalo entre batalhas, não há motivo para se deixar derrotar pela multidão e pela música alta. Abra um livro. Se preferir ser discreto, use o celular. Aplicativos como o Kindle ou o Kobo permitem que você cometa o pecado de ler um romance em segredo, no meio da confusão, enquanto finge fazer algo socialmente aceitável, como stalkear alguém no Facebook ou trocar milhares de mensagens no WhatsApp. Se alguém perceber e te chamar de louco, não se abale. Olhe para o delírio coletivo ao seu redor. Loucos são os outros.

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